Violência e indisciplina escolar

Esse grave problema social se manifesta de diversas formas entre os envolvidos no processo educativo e a escola tem papel fundamental para evitar essa disseminação

Por Cláudia Maria França Pádua* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A violência ainda é considerada um grave problema social, que se manifesta de diversas formas entre os envolvidos no processo educativo. A escola, entre os princípios legais, é um centro de educação formador de ética e moralidade, no qual fatores que contribuem para má formação da conduta do indivíduo deveriam ser abolidos.

A Psicologia surge como uma tentativa de compreensão das formas radicais, ganhando força com o envolvimento de alunos e educadores que se lançam no universo das brigas, discussões e atos violentos, que buscam algum tipo de posição de liderança negativa perante o grupo.

Essa violência, que se encontra escancarada nas ruas de todas as cidades, em cada violência doméstica que é computada, no latrocínio, no tráfico de drogas, no homicídio, na busca pelo prazer em fazer o “outro” se sentir inferiorizado, em ter de suplicar clemência para não ser executado a sangue frio por uma mente doentia e intransponível de moralidade… tem levado inúmeros jovens a se tornarem violentos buscando “poder” e “reconhecimento” de suas gangues para o elegerem como um grande “líder”.

 

Crianças cruéis

 

Devemos ter consciência de que um conjunto de regras e valores educa para a vida e não, simplesmente, para o ambiente escolar.

Sabemos que a escola é eleita como nosso primeiro ambiente social, onde a criança constrói, experimenta, aprende, vivencia experiências diferentes, que serão o alicerce de um indivíduo estruturado amanhã. A escola deveria ser o elo de respeito, cooperação, conhecimento, amizade, vínculo que objetiva a integração social e a missão psicopedagógica propostas pela instituição.

Segundo Freud, a distinção entre o normal e o patológico é muito mais quantitativa do que qualitativa, porque, para ele, a doença mental nada mais era do que uma exacerbação de todos os mecanismos encontrados no indivíduo, do ponto de vista psíquico, em que o possível elo da cadeia humana seria uma própria retroalimentação de valores interiores, que surgiam em uma cadência moral internalizada.

A trajetória a que me proponho enfatizar é revelar como o ser humano se desenvolve moralmente e, assim, encontra as raízes de sua disciplina interior. As crianças seguem regras à risca, que, geralmente, são ditadas por terceiros. Entre os 9 anos surge a moral autônoma, quando o respeito mútuo se sobrepõe à coação, e a mudança ocasionada não é uma mágica. Assim, a autonomia passa a existir quando as relações entre os pequenos e os adultos são baseadas na cooperação e no entendimento moral.

Olhar para uma sala de aula tendo como fator-base uma concepção de indisciplina faz muita diferença. Haverá muitos benefícios se a escola participar com um envolvimento institucional no intuito de apoio.

Voltando a Sigmund Freud, o ser humano é constituído de uma equação etiológica: Comportamento = Constituição + Ambiente.

O ser humano nasce com impulsos ou pulsões de agressividade, que vão interagir entre si e o meio no qual está inserido. E, assim, para controlar esse impulso agressivo, o sujeito se depara com manifestações interiores de diferentes graus qualitativos, entre agressividade e violência, que o impelem na intensidade de suas emoções e na frequência de seus estímulos.

O comportamento humano somente poderá ser alterado se houver a coragem de abandonar todas as tentativas realizadas, até agora, de buscar a solução da violência humana pelo exame e pela manipulação de causas e consequências, podendo encará-la sem “pré-conceitos”.

 

Um estímulo à inteligência emocional da criança

 

Freud introduziu a ideia de que não somos guiados por forças externas, como Deus ou o destino. Somos, na verdade, motivados e controlados por processos internos da nossa própria mente, ou seja, nosso inconsciente, mesmo sabendo que ele mente. Nossas experiências são afetadas por pulsões primais, construídas na infância por meio de nossos instintos.

Jung se apresentava fascinado por um mundo misterioso de mitos e símbolos; e concluiu que a experiência individual de um homem se apresentava por meio de símbolos que representavam a psique humana. Revelou que uma parte distinta e independente do inconsciente existe dentro de cada um de nós e uma outra, que não se apoia em nenhuma de nossas experiências individuais, receberia o nome de “inconsciente coletivo”. A violência pode ser analisada dentro desses dois conceitos. E para combatê-la, temos de acreditar que o desempenho escolar é o resultado de um processo que leva o aluno a se motivar, porque, somente assim, poderá traçar metas que o ajudarão a seguir em frente, para se tornar alguém e um dia, ao olhar para trás, consiga enxergar que o alicerce é a família, e a escola seria a continuidade de nossa formação pessoal e também o fator determinante para nossa formação ou deformação como indivíduo dentro de uma sociedade absoluta, determinada e competitiva.

Lembrando que o sujeito não deve lutar para eliminar seus complexos, mas para entrar em sintonia com eles; pois os complexos são nossos guias legítimos para apresentarmos nossa real conduta ao mundo.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 88

Adaptado do texto “Violência e indisciplina escolar”

*Cláudia Maria França Pádua é psicóloga, criminóloga, doutora em Criminologia, Comentarista Criminal, pesquisadora na área de inteligência Criminal, palestrante e escritora.