Usar o celular antes de dormir faz mal. Entenda por que

Diversos prejuízos são mencionados, pela literatura científica, em relação ao mau uso do aparelho, especialmente antes de dormir. Entenda por que

*Por Igor Lins Lemos

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Segundo Balbani e Krawczyk (2011), a expansão da rede de telefonia móvel, a praticidade desse meio de comunicação e a redução do preço dos aparelhos fizeram do Brasil o quinto maior mercado consumidor de celulares no mundo. Com o custo elevado da assinatura da linha residencial fixa, o celular passou, inclusive, a ser o único telefone em muitos lares brasileiros. Indubitavelmente observamos a ampla disseminação desse recurso tecnológico e diversos prejuízos são mencionados, pela literatura científica, em relação ao mau uso do celular. Dentre as situações problemáticas as mais comentadas foram: trânsito, phubbing, traições e a dependência. Porém, um tópico igualmente relevante e que pouco é debatido é a relação do uso de celular e a melatonina.

De acordo com Maganhin et al. (2008, p. 267), a melatonina é fundamental para a adaptação do indivíduo e da espécie às flutuações temporais cíclicas do meio ambiente (regulação endócrina e metabólica), regulação do ciclo sono-vigília, regulação do sistema imunológico, regulação cardiovascular, em especial da pressão arterial, bem como no sistema genital. Os pesquisadores mencionam, também, que a melatonina influencia o ritmo de vários outros processos fisiológicos durante a noite: a digestão torna-se mais lenta, a temperatura corporal cai, o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea diminuem e o sistema imunológico é estimulado. Parece ser capaz de aumentar a mobilidade e a atividade das células de defesa, estimular a formação dos anticorpos e facilitar a defesa contra microrganismos. Costuma-se dizer, por isso, que a melatonina é a molécula-chave que controla o ciclo circadiano dos animais e humanos.

Orzech et al. (2016) comentam que os adultos jovens despendem diariamente um elevado número de horas para completar tarefas do cotidiano e, em diversos momentos, esse usufruto também está presente próximo ao momento de dormir. Os autores afirmam, com razão, que dormir é indispensável para a saúde, para um bom desempenho acadêmico e um bom funcionamento em atividades laborais. Orzech et al. (2016) citam um estudo realizado para verificar a relação entre sono e uso de mídia. Os dados dessa pesquisa, realizada nos Estados Unidos, revelam que 93% dos adultos jovens entre 18 e 29 anos possuem ao menos um aparelho celular e que 89% utilizam redes sociais.

Devido à notável disseminação dos aparelhos celulares, um dos tópicos de interesse dos pesquisadores é verificar os possíveis encaminhamentos (negativos) dessa prática, sendo as alterações no sono um deles. No estudo de Orzech et al. (2016) foi verificado que o uso de mídia digital, especialmente no período de uma hora antes de dormir, contribui significativamente para um sono pior e que os efeitos no sono variam de acordo com o tipo de mídia utilizada. Esses resultados são do interesse de pesquisadores que investigam o sono e também daqueles que estudam a relação entre o ser humano e a tecnologia.

Outra pesquisa, desenvolvida por Shrivastava e Saxena (2014), demonstra que, independentemente dos horários de uso deste recurso eletrônico, a exposição às radiações eletromagnéticas de frequência extremamente baixa afeta o ritmo circadiano da melatonina nesses usuários. No estudo desenvolvido pelos autores foi verificado que aqueles que utilizavam o celular por menos de duas horas ao dia apresentaram menores efeitos negativos no sono do que aqueles que os utilizavam por um período maior que esse durante o dia.

Os resultados dos estudos levantam um importante debate sobre o uso de aparelhos celulares, que vai além da temática da dependência. Em uma perspectiva de autocrítica, esses resultados são adequados e/ou suficientes para revermos a nossa prática do uso desse recurso tecnológico? Foram escolhidos estudos publicados em periódicos científicos para esta matéria, porém já é mencionado frequentemente, em materiais ainda não publicados, que a luminosidade dos aparelhos celulares prejudica substancialmente a qualidade do sono quando usados, especialmente, antes de dormir. A mensagem que é transmitida ao corpo é de que estamos no horário diurno, ou seja, esta luminosidade emite uma mensagem ao cérebro de que naquele momento não é necessário dormir. Essa informação deturpa automaticamente a regulação da melatonina e o nosso sono é prejudicado, mesmo que tenhamos dormido oito ou nove horas sem interrupção. Dessa forma, que tal pensarmos um pouco mais (novamente) sobre isso?

*Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com

**Conteúdo adaptado do texto “Celular e sono de qualidade não combinam”

Revista Psique Ed. 128