Um estímulo à inteligência emocional da criança

Para Flora Victoria, o trabalho desenvolvido pelo coaching infantil não deve se limitar a resolver problemas, mas, sim, contribuir para que indivíduos que já obtêm bons resultados em sua vida possam ampliar ainda mais suas conquistas

Por Lucas Vasquez* | Foto: 123 REF | Adaptação web Caroline Svitras

Hoje, existem diversos nichos onde o coaching é aplicado com resultados eficientes. Um desses é o coaching para crianças, que trabalha o desenvolvimento, a inteligência emocional e os talentos individuais. Como fazer para que a criança perceba suas potencialidades e se convença de que deve investir nelas?

Flora Victoria: Potencialidade e investimento compõem o imaginário adulto, não o infantil. Palavras como essas muitas vezes expressam a carga de expectativas e ansiedade dos pais em relação aos filhos em vez das necessidades de desenvolvimento da criança. Isso pode causar a impressão de que o objetivo do coaching infantil é transformar os pequenos em adultos em miniatura, o que não poderia estar mais distante da realidade. O trabalho de um bom coach para crianças, isto é, um que tenha uma excelente formação em coaching, experiência com crianças e sólido conhecimento sobre o desenvolvimento infantil, consiste em acompanhar a criança nas diferentes fases de seu desenvolvimento, contribuindo para que ela percorra essas etapas de modo saudável e positivo. Isso geralmente envolve um trabalho voltado para a inteligência emocional, ou seja, a capacidade de reconhecer e de lidar com as próprias emoções e com as dos outros. Com esse trabalho, uma série de questões vem à tona: autoconceito e autoestima, autonomia e responsabilidades, forças e construção de identidade, a relação consigo e a relação com os outros, até a compreensão de que desejos e intenções podem ser transformados em objetivos que, por sua vez, podem ser alcançados mediante a execução de determinadas ações, explicitando, assim, a relação entre esforço consciente e resultado desejado. A partir daí, pavimenta-se o caminho para um processo de amadurecimento, ao longo do qual a criança chegará à adolescência com muito mais chances de conhecer suas potencialidades e se dispor a investir nelas.

 

Quais são os principais benefícios do coaching infantil?

Flora: Tudo gira em torno de favorecer um desenvolvimento saudável, de estimular a inteligência emocional da criança, para que ela possa lidar melhor com as diversas situações que compõem o universo infantil. Além disso, o coaching é um importante aliado na prevenção do bullying – ou na superação das sequelas de quem sofreu com isso. Os relacionamentos em geral também são beneficiados, seja a relação da criança com ela mesma, seja sua relação com família, amigos e professores. Outro ponto importante a citar é que, com o coaching, a criança passa a conhecer melhor suas forças e a ter consciência de como usá-las, o que a faz se sentir mais segura e feliz. E, claro, cabe lembrar que todas essas mudanças costumam refletir-se positivamente no rendimento escolar.

 

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Quais as técnicas utilizadas para se alterar comportamentos negativos e inadequados nas crianças, como timidez excessiva, ansiedade, teimosia, carência, apatia, desinteresse, preguiça, agressividade, medo, insegurança, rebeldia e até depressão?

Flora: É preciso ter muito cuidado antes de se rotular comportamentos infantis como negativos e inadequados – muitas vezes, eles são sintomas. Uma criança excessivamente tímida está reagindo a quê? Está se protegendo do quê? Por que uma criança demonstraria apatia, desinteresse ou preguiça em uma fase da vida em que sua vitalidade deveria estar no ápice? O que a criança está tentando dizer quando se mostra agressiva ou rebelde? É fundamental investigar as causas desses comportamentos, o que, em muitos casos, é função do psicólogo, e não do coach – especialmente no que diz respeito à depressão. Rotular precipitadamente comportamentos infantis como negativos e inadequados – antes mesmo de entender o que está por trás disso – e prescrever “técnicas” como quem receita um elixir que “cura tudo” são coisas que não caracterizam a atuação de um coach sério. Além disso, promover mudanças comportamentais em uma criança não é uma questão de técnica mas de processo. Um processo que com frequência envolve a promoção de mudanças no seio familiar, em estruturas e relacionamentos que podem ter contribuído para que o problema surgisse e se mantivesse. Sem analisar tudo isso – e sem verificar se é realmente uma situação na qual o coach pode intervir ou se é mais recomendável a intervenção de um psicólogo – não é possível descrever quais processos seriam mais adequados para ajudar a criança e sua família.
 

Como contribuir para que os primeiros anos de vida de uma pessoa sejam um período para firmar autonomia, autoconfiança e expandir competências emocionais, sociais e intelectuais?

Flora: A base é sempre dar apoio emocional e criar uma relação de confiança com os filhos. Também é importante não exigir perfeição, nem de si mesmo nem das crianças. E, é claro, sempre oferecer estímulos ao aprendizado e à curiosidade.

 

A partir de qual idade é indicado o coaching?

Flora: Conceitos e competências de coaching podem ser usados desde muito cedo por pais que fizeram um bom treinamento – em especial o positive coaching, que combina o coaching com a Psicologia Positiva. Não se trata, aqui, de um processo de coaching formal, mas de habilidades que os pais adquirem ou aprimoram durante o treinamento, e que podem ajudá-los a construir um relacionamento mais forte e saudável com os filhos.

 

Pode explicar passo a passo como funciona o processo de coaching para crianças? A presença dos pais nesse início de abordagem é fundamental para seu sucesso?

Flora: O processo depende da metodologia utilizada e da situação a ser abordada. Portanto, não é possível descrevê-lo passo a passo. De modo geral, porém, o coaching começa com um determinado objetivo a ser atingido. A seguir, é traçada uma estratégia na qual são identificadas as ações necessárias para esse fim. Os resultados são monitorados para que se possa confirmar o sucesso da estratégia ou alterá-la, caso os resultados estejam aquém do esperado. Outro ponto importante é o estímulo à melhoria contínua, para que a pessoa continue usando as habilidades de coaching após o encerramento do processo. Essa é a estrutura básica e, é claro, no caso das crianças, existem adaptações de acordo com a idade. Mas é bom lembrar, seja qual for a situação, o coaching sempre trabalha com objetivos e resultados. A participação dos pais é fundamental, pois, conforme já foi dito, muitas vezes o processo de mudança envolve também estruturas e relações familiares.

 

Qual o papel da família e da escola no sucesso do coaching para crianças?

Flora: Tanto pais quanto educadores podem usar conceitos e técnicas de coaching com as crianças. Os resultados são muito benéficos e envolvem a criação de ambientes saudáveis nos quais a criança possa contar com mais estímulos para seu desenvolvimento emocional, social e cognitivo.

 

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Quais os critérios utilizados para que não haja confusão entre situações que devem ser alteradas pelo coaching e pequenos problemas típicos e passageiros nas crianças?

Flora: A pergunta parte de uma premissa equivocada: a de que o coaching existe apenas para ajudar pessoas a resolverem problemas ou consertarem o que não está funcionando bem. Na verdade, o coaching vai muito além disso. Por exemplo, contribuir para que indivíduos que já obtêm bons resultados em sua vida possam ampliar ainda mais suas conquistas. Ou para que empresas que já estão em boa forma cresçam ainda mais. Essa é uma tendência registrada por diversos estudos. Um deles, da American Management Association, revelou que 79% das empresas que usam coaching têm como principal objetivo o aumento da performance e da produtividade individuais. A abordagem de problemas organizacionais específicos só aparece em quinto lugar como motivo para a contratação de um coach. O mesmo se aplica ao coaching para crianças. Não é preciso esperar que um problema apareça para que a criança comece a fazer coaching. Trata-se de nutrir o que a criança tem de melhor em vez de se concentrar apenas em reparos e consertos, de estimular forças em vez de focar nas fragilidades, e de ajudá-la a florescer.

 

O coaching para crianças é uma abordagem individual ou pode ser usado em vivências de grupo?

Flora: Pode ser individual ou em grupo.

 

A relação da criança com ela mesma e com o mundo à sua volta deve ser avaliada na condução do processo?

Flora: Com certeza. Essa é a base de um processo que envolve o desenvolvimento da inteligência emocional: a relação do indivíduo com suas próprias emoções e com as emoções dos outros, ou seja, sua relação com ele mesmo e com o mundo à sua volta.
Revista Psique Ciência & Vida Ed. 128

Adaptado do texto “Um estímulo à inteligência emocional da criança”

*Lucas Vasques é jornalista e escreve nesta publicação.