Treinar não é a única chave para o alto desempenho esportivo

Uma crença bastante difundida é que treinamento repetitivo de uma habilidade levaria à perfeição

Por Marco Callegaro* | Fotos: Fernando Frazão/Agência Brasil | Adaptação web Caroline Svitras

Rio de Janeiro – O Brasil venceu hoje, por 3 sets a 0, a Itália e conquistou a terceira medalha de ouro olímpica no vôlei de quadra masculino (Fernando Frazão/Agência Brasil)

“A prática leva à perfeição”, diz a sabedoria popular, em um ditado que expressa a crença, amplamente difundida, de que treinar uma habilidade é a chave da melhora contínua do desempenho. Parece muito intuitivo e evidente que praticar e praticar melhora a performance, e que, portanto, um desempenho de alto nível se origina de um treinamento rigoroso. Acredita-se que dependeria de treinamento obsessivo para um atleta atingir o nível de ganhar uma medalha olímpica.

 

Um estudo de meta-análise, um tipo de investigação que leva todo um conjunto de publicações em consideração, procurou lançar luz nessa questão. O estudo focou na relação entre o treinamento e a performance esportiva, e chegou a algumas conclusões importantes. Um dos achados do estudo apontou que a relação entre a prática deliberada e o desempenho esportivo existe, mas não de maneira tão vigorosa como se pensava anteriormente. A prática pode não contribuir para melhorar a performance quando se trata de altos níveis de desempenho em um esporte, por exemplo. Dentro dessa análise, não fez diferença significativa o número de horas de prática deliberada acumulada em atletas que receberam medalha de ouro olímpica e aqueles que não se destacaram. A prática deliberada explicou apenas 1% da variação no desempenho dos atletas de elite.

 

Outra questão investigada foi a idade de início da prática no esporte. A crença mais difundida a respeito, e compartilhada por pais e treinadores, é de que um alto desempenho esportivo depende de começar cedo a prática de um esporte. Os pesquisadores compararam a idade de início na prática esportiva em se tratando de atletas de alto desempenho e aqueles com baixo rendimento e não encontraram nenhuma diferença significativa.

 

Rio de Janeiro – A queniana Vivian Jepkemoi Cheruiyot vence final e bate recorde olímpico dos 5 mil metros nos Jogos Rio 2016, no Estádio Olímpico (Fernando Frazão/Agência Brasil)

 

Segundo os resultados, o desempenho de alto nível em um esporte não depende tanto da prática com era esperado. Certamente existem fatores genéticos envolvidos. Outros fatores excetuando o treinamento podem contar, como a experiência em competições e atividades lúdicas. Curiosamente, participar de múltiplos esportes antes de se especializar em uma única modalidade pode prever positivamente o bom desempenho naquele esporte, aumentando a coordenação e melhorando habilidades motoras essenciais.

 

De fato, especializar-se mais tarde em um esporte pode reduzir lesões e estresse psicológico que acompanham o treinamento precoce, e assim contribuir para que o atleta atinja e mantenha altos níveis de desempenho.

 

Fora a prática deliberada, existem vários traços psicológicos que contam na avaliação do desempenho esportivo. A confiança em si mesmo faz diferença. A predisposição para experimentar ansiedade de desempenho, a aversão para consequências negativas e a sensibilidade para recompensas também influenciam significativamente no desempenho esportivo. Existem fatores de habilidades cognitivas que aumentam o desempenho nos esportes, como inteligência geral, a capacidade da memória de trabalho, a habilidade de controlar a atenção, velocidade de percepção e psicomotora, por exemplo.

 

Estudos como esse revelam toda uma gama de variáveis que influenciam o desempenho esportivo e podem contribuir para um melhor direcionamento de esforços. Com esses conhecimentos, podemos pesar de forma mais elaborada o investimento financeiro e de tempo na prática escolhida, e considerar o desejo do atleta em participar de outras formas de experiências, como outras modalidades esportivas, por exemplo.

 

Outra implicação desse estudo é que a mania dos pais de estimularem precocemente os filhos, colocando-os demasiadamente cedo na prática de esportes, pode ser contraprodutiva. Nem a prática exagerada nem iniciar muito cedo em um esporte podem ajudar a melhorar o desempenho esportivo, e os pais e treinadores devem levar em consideração essas informações.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 128

Adaptado do texto “Quanto treino faz um campeão olímpico?”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).