Tratando as disfunções sexuais

As disfunções sexuais podem afetar tanto a sexualidade feminina quanto a masculina e podem ser psíquicas, orgânicas, físicas ou mistas. Por isso a importância de um tratamento que envolva uma equipe interdisciplinar

Por Giancarlo Spizzirri* e Carla Pereira** | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A sexualidade humana reúne contribuições de diversas áreas do conhecimento, entre as quais se destacam a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia, a Filosofia, a Medicina e a Fisioterapia, entre outras. Essa multidisciplinaridade é fundamental para a compreensão holística da sexualidade como um fenômeno, como um processo biopsicossocial, o qual se desenvolve, manifesta-se e constrói-se desde o nascimento até a morte, expressando-se de formas diferentes em cada ciclo de vida e apresentando aspectos singulares em cada indivíduo, seja este homem ou mulher.

 

As disfunções sexuais podem afetar tanto a sexualidade feminina quanto a masculina, em todas as fases do ciclo sexual, ou seja, nas fases de desejo, excitação, orgasmo e resolução. Cerca de metade da população feminina e masculina brasileira apresenta algum distúrbio ou dificuldade sexual.

 

As disfunções sexuais são caracterizadas por alterações persistentes ou recorrentes em uma ou mais fases do ciclo de resposta sexual, gerando sofrimento, prejuízos, angústia e dificuldade interpessoal, tornando o indivíduo incapaz de participar da relação sexual como desejaria.

 

Cada alteração pode ocorrer de modo isolado ou combinado, e pode ser primária ou secundária (adquirida), generalizada ou situacional, devido a fatores psicológicos, físicos, orgânicos ou a uma combinação desses.

 

A sexualidade durante a gravidez

 

Em homens, disfunções e transtornos estão relacionados ao desejo sexual hipoativo ou à aversão ao sexo, à excitação (ou seja, à ereção), ao orgasmo como o que ocorre em uma ejaculação precoce, aos transtornos dolorosos e também à disfunção erétil.

 

Com relação às mulheres, a função sexual feminina é muito complexa, sendo que cerca de 35% a 50% das mulheres sofrem de alguma disfunção. A prevalência aumenta com a idade, multiparidade e menopausa. As disfunções femininas mais frequentes são o desejo sexual hipoativo (transtorno do interesse/excitação sexual) e a anorgasmia.

 

No Brasil, segundo Abdo et al. (2004), foram avaliadas 1.219 mulheres, em que se observou que 49% delas tinham pelo menos uma disfunção sexual, sendo que 27% apresentavam a disfunção do desejo, 23% dispareunia e 21% disfunção do orgasmo.

 

O tratamento das disfunções sexuais envolve uma equipe interdisciplinar composta por médicos (urologista, ginecologista e psiquiatra), psicólogo, fisioterapeuta, enfermeiro, assistente social e nutricionista. Normalmente o primeiro profissional a ser procurado é o médico, o qual deve investigar a função e a satisfação sexual, identificando e direcionando os indivíduos para o tratamento mais adequado. Na maioria dos casos faz-se necessária a abordagem por mais de um profissional da saúde, porque as causas das disfunções sexuais podem ser psíquicas, orgânicas, físicas ou mistas.

 

Cada profissional envolvido na equipe desenvolve um papel de suma importância, uma vez que as abordagens, tanto de avaliação quanto de tratamento, são diferentes e se complementam entre si, como, por exemplo, no caso da dispareunia – dor durante o intercurso sexual –, que pode ter causa psíquica, orgânica e/ou física, necessitando do acompanhamento médico (em alguns casos também farmacológico), psicológico e fisioterapêutico.

 

Por outro lado, uma simples orientação dirimindo mitos e tabus, bem como legitimando o atingimento do prazer sexual, pode resolver uma boa parcela das dificuldades sexuais que chegam aos consultórios.

 

Ressaltam-se cada vez mais a necessidade e a importância de um olhar amplo e interdisciplinar, sendo que alguns estudos relatam não mais a prática da interdisciplinaridade, mas sim da transdisciplinaridade no universo do tratamento das disfunções sexuais masculinas e femininas, visando a melhoria, não só da qualidade de vida em geral, mas também da saúde sexual de todos!

 

Revisa Psique Ciência & Vida Ed. 132

Adaptado do texto “Abordagens Conjuntas”

*Giancarlo Spizzirri é psiquiatra doutor pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP, médico do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do IPq e professor do curso de especialização em Sexualidade Humana da USP.

**Carla Pereira é fisioterapeuta, doutoranda e mestre pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Especialização em Sexualidade Humana (FMUSP); Fisioterapia em Gerontologia e Oncologia. Fisioterapeuta do Serviço de Fisioterapia Pélvica (Santa Casa de SP).