Tratamento proposto pode causar negligência com a esquizofrenia

Novo método em evidência pretende diagnosticar a esquizofrenia de maneira ágil, mas com eficácia questionável. Devemos comemorar?

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

Recentemente foi divulgado na revista Schizophrenia, do grupo Nature, um “novo método” desenvolvido por cientistas (entre eles brasileiros) que têm a intenção de ajudar os psiquiatras a diagnosticar esquizofrenia já na primeira consulta. Baseia-se no discurso do paciente, ao qual se aplicam algoritmos.

 

Com todo o respeito, o tema é de uma infelicidade a toda prova, pois não existe na esquizofrenia um sinal patognomônico que possa distingui-la das outras doenças mentais semelhantes. Para se ter ideia da dimensão do problema, lembremos que existem quadros clínicos que acometem paranoicos, portadores de psicose esquizoafetiva, psicóticos epilépticos, portadores de psicose sintomática, doentes esquizofreniformes e até viciados em drogas com delírios e falas semelhantes aos dos esquizofrênicos verdadeiros. O que vai diferenciá-los é o exame das diversas esferas mentais, de modo especial a sensoperceptiva e a timoafetiva.

 

 

E, mesmo assim, isso não será suficiente para estabelecer o diagnóstico diferencial, visto que este exige outros dados fundamentais, como o tipo de crítica que o paciente faz sobre a própria doença, se apresenta ou não anosognosia (a, negação; noso, doença; gnonai, conhecimento, ou seja, “desconhecimento da própria doença”), sinal que pode estar presente em algumas daquelas moléstias e ausente em outras.

 

E mais: os esquizofrênicos não estão sempre com o discurso e a fala alterados e nem por isso deixam de ser esquizofrênicos.

 

Note-se ainda que os diagnósticos psiquiátricos feitos por meio de padronizações, protocolos, inventários, e agora propõem-se algoritmos, somente interessam às indústrias farmacêuticas, uma vez que esses métodos não são excludentes, mas sim includentes. Neles tudo cabe.

 

Vale dizer: são técnicas que lasseiam o diagnóstico, banalizando-o, sendo certo que alguns procedimentos “descobrem” com facilidade incrível até estados pré-iniciais de doenças, que, é claro, devem ser tratadas precocemente, para a vitória das referidas indústrias farmacêuticas.

 

A tábua de salvação para essa inversão do conhecimento profundo da mente humana substituído pelo conhecimento superficial está na Psicologia, que, não podendo prescrever psicofármacos, fica menos vulnerável às investidas químicas, cibernéticas e suas fantásticas descobertas capazes de prever, segundo os seus inventores, “com grande acurácia, o diagnóstico de esquizofrenia na primeira entrevista psiquiátrica do paciente”.

 

Esse método algoritmo para identificar a esquizofrenia tão somente pelo discurso faz lembrar os sofistas medievais, que, com raciocínio concebido como verdade matemática, embora simule um acordo com as regras da lógica, apresenta, na realidade, uma estrutura interna inconsistente, incorreta e — voluntária ou involuntariamente — enganosa.

 

É mais um sinal da decadência da Psiquiatria contemporânea.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 138

Adaptado do texto “Psiquiatria contemporânea decadente”

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.