Timidez na infância pode gerar fobia social em adultos

Embora a timidez não apresente uma relação clara com a fobia social, pesquisas em desenvolvimento infantil correlacionam inibição social precoce com respostas de proteção e controle exagerados dos pais

Por Andreia Calçada* e Karina Braga** | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A timidez é assunto que desperta interesse em uma grande parte das pessoas, pois, em certo grau, atinge o dia a dia das relações, sejam elas pessoais, profissionais ou educacionais.

 

De acordo com Falcone e Figueira (2001), a reação de ansiedade frente a situações sociais, como iniciar uma conversa, falar em público ou marcar um encontro, constitui uma manifestação normal e até mesmo adaptativa, uma vez que permite às pessoas se comportarem de maneira adequada em interações sociais importantes.

 

Atualmente, alguns autores, como Cain (www.cienciahoje.pt), entendem que existem vantagens na timidez. Os introvertidos correm menos riscos de serem internados, de se envolverem em acidentes e têm uma predisposição maior do que os extrovertidos a aprender e a manter uma relação afetiva. No entanto, ele diferencia timidez e introversão: uma é o medo de julgamento social e atinge metade das pessoas; outra é a preferência por ficar em lugares tranquilos e com poucos estímulos, tendência encontrada em cerca de um terço da população, segundo as estimativas da autora.

 

Ainda de acordo com Falcone e Figueira, a timidez corresponde a outra terminologia usada para se referir aos medos sociais. Embora, segundo pesquisas relacionadas pelos autores, a timidez não apresente uma relação clara com a fobia social.

 

Pesquisas em desenvolvimento infantil correlacionam inibição social precoce com respostas de proteção e controle exagerados dos pais. Estes, por sua vez, reforçam a retração da criança e, consequentemente, dificultam a exposição a situações sociais, formando um ciclo vicioso.

 

No tocante à família, devemos buscar na dinâmica familiar interações que gerem ou perpetuem a sensação de envergonhamento. Muitas vezes, sem se dar conta, os pais ou responsáveis pela criança interagem de forma a desqualificar a criança, gerando raiva e sensações de humilhação. Tais interações precisam ser modificadas.

 

 

Sabemos que é nesta interação que a autoimagem e autoestima da criança se formam. Portanto, a participação da família, principalmente a disponibilidade dela para a mudança, é fundamental para o alcance de bons resultados em nosso trabalho.

 

A vivência de eventos traumáticos e estressantes, entre eles muitas mudanças de escola e cidade, mudanças abruptas ou rompimentos na vida familiar e experiências de vergonha, também é associada à timidez e à fobia social.

 

O manejo do estresse através de exercícios respiratórios e relaxamento faz com que o paciente tímido ou muito ansioso aprenda a ter maior controle das respostas fisiológicas próprias e a lidar com suas emoções

Segundo Asbahr e outros (2008), a fobia social em adultos é mais frequente em mulheres e tem início na adolescência, embora muitos adultos relatem sintomas desde a infância. Em crianças, é tão comum no sexo feminino quanto no masculino. Indivíduos com fobia social, independentemente da faixa etária, têm maior risco de apresentar outros diagnósticos psiquiátricos, como transtorno de ansiedade generalizada, depressão, fobia específica e dependência de substâncias psicoativas, como álcool e tranquilizantes. Além disso, muitos indivíduos demonstram características do transtorno evitativo de personalidade (TEP), um padrão duradouro de esquiva do contato interpessoal que é considerado por alguns autores como a forma mais grave da fobia social, com maior tempo de doença e de número e variedade de situações sociais temidas.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 86

Adaptado do texto “Timidez também pode doer”

*Andreia Calçada é psicóloga, psicoterapeuta, especialista em Psicologia Clínica e  Psicopedagogia Clínica pelo CRP 05, especialista pelo IPUB em Neuropsicologia e pós-graduada em Psicologia Jurídica. É coautora de Falsas acusações de abuso sexual – O outro lado da história e autora de Falsas acusações de abuso sexual e a implantação de falsas memórias e guarda compartilhada – Aspectos psicológicos e jurídicos.

**Karina Braga é fonoaudióloga, professora de Oratória e especialista em voz há 16 anos. E-mail: karinabraga@yahoo.com.br