Terapia do riso: saiba como o bom humor ajuda no tratamento de doenças

Sensação provocada pelo bom humor ajuda no tratamento de doentes, pois faz aumentar a secreção de endorfina, que é uma substância que relaxa as artérias, melhora a circulação e beneficia a reação imunológica

*Por Roberta de Medeiros

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Certa vez, a psicóloga Eva Strum passou uma indesejada temporada em um hospital por causa do pai, que havia se submetido a uma cirurgia cardíaca. Ao vê-lo deprimido com a doença, ela resolveu levar ao hospital uma série de jogos para que ambos passassem o tempo se distraindo. Os preciosos instantes de diversão foram um fator decisivo para a reabilitação do pai. Desde o episódio, a psicóloga repete a experiência. Ela passou a liderar um grupo de voluntários que diverte pacientes em hospitais de São Paulo. Com décadas de experiência com crianças, Eva notou que os adultos, em geral, são pouco assistidos. “É tocante quando você encontra um idoso confessando que nunca brincou durante sua vida toda”, conta Eva.

A constatação da psicóloga após a rápida recuperação do pai foi semelhante à do psiquiatra William Fry, da Universidade de Stanford, na Califórnia. Ele percebeu que os doentes sob os seus cuidados necessitavam de uma quantidade muito menor de medicamentos contra a dor, após ter introduzido o bom humor na rotina deles. Hoje, há testes que demonstram que o riso, ou o bem-estar que ele proporciona, de fato facilita a recuperação de pacientes, reduzindo o tempo de internação em cerca de 20%. A explicação é que o riso faz aumentar a secreção de endorfina, uma substância que relaxa as artérias, melhora a circulação e beneficia a reação imunológica contra vírus e bactérias. Além disso, estimula a produção de adrenalina, o que ocasiona mais irrigação nos tecidos, que recebem mais oxigênio, aumentando a capacidade do paciente de resistir à dor.

A liberação da droga natural é apenas o início de uma onda química que se inicia no cérebro e sacode o corpo dos pés à cabeça. Tudo começa no hipotálamo, que dá uma ordem para que o organismo libere a endorfina, com propriedades analgésicas. Na garganta, o ar que vem dos pulmões bate nas cordas vocais, que emitem sons incoerentes. As glândulas lacrimais aceleram sua produção. Os músculos do rosto se contraem – são cerca de 28. O coração bate mais rápido, as artérias se contraem e depois se dilatam, dando uma sensação de bem-estar. O diafragma se move e provoca espasmos respiratórios na caixa torácica. O esfíncter relaxa, por vezes, provocando uma indesejável incontinência urinária. Os músculos das pernas relaxam e a pessoa se curva de tanto rir. Por fim, até mesmo os dedos dos pés se agitam. Ou seja, em uns poucos segundos o simples gesto de rir exercita todo o corpo – somente o baço parece não ser afetado.

Toda essa comoção que o riso é capaz de provocar é bastante eficiente na proteção contra infartos e doenças coronárias. A constatação é do estudo feito no final do ano passado pelo Centro Médico da Universidade de Maryland (EUA), com a presença de especialistas de vários países. “Quanto mais gostosa a gargalhada ou mais efusiva a risada, maior será a síntese de produção de endorfinas”, escreveu o médico Eduardo Lambert, especializado em terapias holísticas e autor do livro A Terapia do Riso. Segundo ele, o riso permite um relaxamento, que ajuda a normalizar a respiração arterial. “Se as pessoas tivessem o hábito de rir várias vezes ao dia, estariam amenizando a descarga de adrenalina no organismo e permitindo uma descarga de endorfinas”, observa o médico.

Por outro lado, pessoas mal-humoradas, impacientes, irritadas, contrariadas, rígidas e autoritárias estão mergulhadas num processo de tensão, que promove uma grande descarga de adrenalina, o que aumenta a predisposição para acidentes vasculares como infartos, anginas e derrames. Alguns estudiosos do comportamento acreditam que terapia do riso possa ajudar a complementar o tratamento de depressão e distimia (mau humor crônico), doenças que afetam cerca de 340 milhões de pessoas em todo o mundo e que são desencadeadas por um possível desequilíbrio químico, envolvendo neurotransmissores em regiões do cérebro que comandam o humor, como o sistema límbico, o hipotálamo e o lobo frontal.

Não é de agora que o efeito do riso no tratamento de doenças vem sendo sondado. Hipócrates, o pai da Medicina, 400 anos a.C., já tentava reanimar seus pacientes com brincadeiras. Sigmund Freud, o criador da Psicanálise, mostrou em um de seus trabalhos que as cenas cômicas e o riso ajudam a melhorar a saúde. A terapia do riso, porém, só ganhou notoriedade na década de 1960. Sua difusão se deve ao médico americano Hunter Adams, conhecido por Patch Adams, que desde a sua época de estudante já implantava esse método em hospitais e escolas. Ao observar o baixo estado de alegria e de humor em seus doentes, resolveu introduzir a terapia do riso, que consiste no recondicionamento de atitudes e hábitos perniciosos arraigados na personalidade para viver com amor e felicidade; envolvendo autoestima, amor-próprio e o bom humor.

Numa época em que teorias holísticas estão em alta, o tema também foi abordado em Anatomia de uma Doença, livro de Norman Cousins, que conta como conseguir vencer a doença assistindo seriados cômicos da televisão.

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Os resultados animadores fizeram a terapia sair das salas dos hospitais e ganhar o ambiente de trabalho. Na Índia, algumas empresas decidiram fazer uma sessão de riso antes de iniciar a jornada de trabalho. Segundo seus administradores, o resultado é um aumento considerável na produção em decorrência do bem-estar físico e emocional dos trabalhadores. Segundo a especialista comportamental e conferencista Leila Navarro, a explicação do sucesso da terapia no ambiente de trabalho é simples: “Quem ri é mais produtivo, mais criativo, mais comunicativo, toma decisões com maior agilidade, fica menos doente e até comete menos acidentes, já que ama a vida e não quer perdê-la”, explica Leila. Segundo ela, 80% do que acontece durante todo o dia são determinados pelos primeiros dez minutos da manhã. E começar o dia de bem com a vida é um bom ponto de partida para quem deseja viver com qualidade.

O riso e a personalidade

O médico Eduardo Lambert, especialista em terapias holísticas, estudou o riso tão a fundo que chegou a estabelecer tipos de temperamento a partir da risada. São eles: Sorriso aberto – em geral, próprio de pessoas extrovertidas, amigas e leais; Sorriso verdadeiro – demorado e simétrico, provocando rugas nas pálpebras, instala-se gradualmente e se vai lentamente, despertando sinceridade e confiança; Sorriso largo – próprio de pessoas abertas e generosas; Riso constante – é próprio da pessoa que está sempre contente e otimista, demostrando força de caráter; Riso contagiante ou vibrante – próprio de pessoas emotivas e otimistas, desperta a vontade de rir também.

Mas há também os chamados risos negativos, que são ruins para quem o faz, já que a pessoa não sintetiza todas as endorfinas que poderia sintetizar. Alguns exemplos: Riso de boca fechada – próprio de pessoas que controlam o que dizem; Riso de lado – é do tipo falso, a pessoa disfarça o sorriso para que o outro não o perceba; Riso falso – em geral, é rápido, tipo “acende-apaga”, e não provoca rugas de expressão ao redor dos olhos, e é assimétrico, pois o rosto fica imóvel; Rápido – próprio de pessoas egoístas, pessimistas ou introvertidas.

Como acontece o riso

O riso movimenta inúmeras partes do corpo. Cérebro: o hipotálamo, centro de controle situado na base do cérebro, libera do organismo endorfina, com propriedades analgésicas e calmantes. Nariz e garganta: o ar proveniente dos pulmões bate nas cordas vocais, que emitem sons incoerentes. As glândulas salivares e lacrimais aceleram sua produção e se descontrolam. Rosto: os músculos do rosto se contraem, especialmente o risório e o zigomárico. A tensão desse último pode dar uma aparência enganosa de sofrimento. Coração: bate mais rápido. Após terem se estreitado, as artérias se dilatam, provocando uma sensação de bem-estar. Tórax: os pulmões expelem enormes quantidades de ar, a grande velocidade. O diafragma se move, provocando fortes espasmos respiratórios em toda a caixa torácica. Ventre: os músculos abdominais se contraem com força, o que é bom para a vesícula. Às vezes, o esfíncter se relaxa, ocasionando uma desagradável incontinência urinária. Pernas: os músculos relaxam e a pessoa se curva de tanto rir. Pés: até os dedos dos pés se agitam.

O fato é que inúmeros estudos comprovam que o bom humor pode ter uma influência positiva no combate de doenças e mostra a importância destes recursos na prática de promoção da saúde. Portando, quando se trata de hábitos saudáveis, sorrir é coisa séria.

*Roberta de Medeiros é jornalista científica. E-mail: roberta.neurociencias@gmail.com

**Conteúdo adaptado do texto “O riso como forma de terapia”

Revista Psique Ed. 132