Tal pai, tal filho?

É natural o desejo de imitar quem se admira, ama e convive, e as crianças, como enxergam nos pais seus verdadeiros heróis, os tomam por modelos desde o princípio de suas vidas

Por Maria Irene Maluf* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Todo comportamento dos pais é sempre observado com cuidado pelos filhos, e por isso é muito impactante, seja pelo aspecto positivo, seja pelo negativo. Pais amorosos, atentos, dão exemplos de atitudes e comportamentos que as crianças logo reproduzem. Infelizmente o mesmo acontece quando, ao invés de valores, os pais passam exemplos de agressividade, desatenção, falta de ética e de comprometimento com suas responsabilidades.

 

Os adultos muitas vezes dissociam os exemplos que dão do comportamento que observam nos filhos. Repreendem as crianças por condutas que eles próprios, de modo indireto, ensinaram. Um exemplo claro é a mentira. Quantas vezes o adulto diz uma inverdade para se poupar de problemas e o faz diante dos filhos e em seguida se irrita porque a criança mentiu?

 

 

Não raras vezes os pais procuram evitar serem imitados em algum aspecto de sua personalidade ou mesmo tentam não deixar acentuar alguma característica já percebida no filho. Nada mais compreensível, desde que prepondere o respeito pelas características pessoais da criança.

 

Mas também vemos adultos que incitam os filhos a serem verdadeiras cópias deles mesmos, o que pode, em certas circunstâncias, parecer até engraçado, mas em algum momento da vida isso se torna motivo de sofrimento para a criança, pelos desajustes que exageros nessa conduta podem criar.

 

Ser igual a um adulto, especialmente a um dos pais, gera ansiedade e dificuldades em desenvolver a própria personalidade. O amadurecimento social fica prejudicado e até a relação com os pais deixa a desejar, pois a criança pode perder muito de sua autoestima, já que lhe parece que, para ser socialmente reconhecida, não deve ser como é, mas deve ser igual ao pai ou à mãe.

 

Crianças bem-sucedidas são as que os pais investem emocionalmente

 

São crianças que frequentemente se sentem insatisfeitas, pois estão sempre em busca de algo que não alcançam. Um exemplo disso é a importância excessiva dada à vaidade, à beleza, à moda: é natural a filha se espelhar na mãe, mas tem um custo pessoal alto tentar ser igual ou mais bonita apenas para agradar os pais. Uma coisa é ser caprichosa com a aparência pessoal, de modo coerente com a idade. A outra é se vestir, se pentear e se comportar como se fosse uma miniatura da mãe. Enquanto brincadeira está ótimo, o problema é quando imitar alguém se torna um objetivo na vida infantil.

 

Inegavelmente, o modo como os pais educam e se comportam transparece nos filhos. A tendência a seguir de modelo familiar é natural, mas os pequenos precisam de alguém que ressignifique muitos de seus aprendizados no dia a dia.

 

O velho conflito de gerações

 

Há famílias em que se conhecendo o comportamento dos filhos, se adivinha o dos pais, pois é similar, não dependendo da idade cronológica. Como todo comportamento familiar reflete na escola, muitas crianças que estão se desenvolvendo em lares onde o modelo paterno e materno não lhes dá segurança, nem promove o desenvolvimento de sua autonomia, acabam por ter algum tipo de dificuldade, quer de aprendizagem, quer de relacionamento social.

 

Não é que a criança tenha dificuldade cognitiva de aprender, mas sua energia mental fica sempre comprometida com os problemas vivenciados em casa e os anseios paternos, que se tornam inatingíveis, gerando frustração. Sonhar que a filha venha a ser uma grande bailarina, ou uma atleta de renome, e focar a vida nesse sentido só cabem quando a criança demonstra esses interesses espontaneamente e vocação genuína. Forçar é buscar fracasso e frustração.

 

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 134

Adaptado do texto “Tal pai, tal filho?”

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br