Superdotados ainda sofrem preconceito em nossa sociedade

Quando se trata de crianças ou adolescentes dotados de altas habilidades é imprescindível ter um cuidado especial com os aspectos emocionais e com sua inclusão na escola e em outros ambientes da sociedade

Por Mayra Berto Massuda* e Rosemeire de Araújo Rangni** | Foto: 123 RF | Adaptação web Caroline Svitras

Algumas hipóteses são pontuadas para explicar o descaso com a parcela de indivíduos superdotados, uma delas pode ser a falta de conhecimento da temática pela sociedade e pelos educadores. Nesse sentido, mitos e crenças populares são criados e perpetuados acerca das pessoas com altas habilidades ou superdotação no sistema educacional, tais quais: esses indivíduos caminham por si sós e não necessitam de atendimento; são alunos nota 10 em tudo; são fracos emocionalmente; são, em sua maioria, do gênero masculino; entre outros.

 

O mito de que não necessitam de atendimento propicia que, possivelmente, o professor e/ou gestor público entenda que aqueles que têm deficiência ou transtornos devem ser priorizados no atendimento especializado. Entretanto, pesquisas científicas apontam que os altos habilidosos ou superdotados precisam, sim, de apoio para o seu desenvolvimento, assim como esses indivíduos não são nota 10 em tudo. Esses mitos fazem com que eles se sintam sobrecarregados pelas exigências de que não podem falhar e serem o máximo, especialmente nas disciplinas escolares.

 

Considerar que o aluno com altas habilidades ou superdotação é apenas aquele que tira nota 10 em todas as matérias e se destaca em todas as áreas de desenvolvimento humano pode trazer um grande prejuízo a essas pessoas. Primeiro, porque faz com que somente um grupo muito seleto e de perfil notoriamente acadêmico se destaque entre os mais inteligentes. Segundo, porque se estabelecem expectativas irreais quanto ao desempenho escolar desses alunos, gerando uma alta carga de cobrança e desconsiderando aqueles que possam apresentar dificuldades de aprendizagem e de comportamento.

 

Apesar de aparentemente incoerente, pessoas com altas habilidades ou superdotação podem, sim, apresentar dificuldades de aprendizagem em algum ou vários momentos da vida. Isso é possível considerando a grande diversidade de áreas de potencial das pessoas com altas habilidades ou superdotação. Assim, um aluno com essas características na área física, que seja ótimo atleta, que se destaque por sua autopercepção corporal, agilidade, rapidez, força e destreza, pode ter dificuldade em matemática. É necessário, então, aceitar que não ser bom em todas as matérias ou em tudo que faz não destitui a pessoa do direito de ter seus potenciais reconhecidos.

 

Muitas pessoas com altas habilidades ou superdotação também são malvistas por fugirem dos padrões de pensamento e comportamentos estabelecidos socialmente como normais e, muitas vezes, são consideradas fracas, desequilibradas e instáveis. Esse mito nasceu dos exemplos de artistas e cientistas famosos por seus grandes feitos e, ao mesmo tempo, por sua fragilidade física e seus problemas sociais e psicológicos. Entretanto, não há nenhuma pesquisa que comprove que as altas habilidades ou superdotação ocorra apenas em pessoas com transtornos psicológicos, ou seja, uma de suas causas.

 

Ainda, o mito que indica que existem mais homens do que mulheres com altas habilidades ou superdotação desconsidera a influência do contexto histórico, cultural e social em que vivemos. Isso é caracterizado pela supervalorização de características como pensamento divergente, coragem de assumir riscos e curiosidade como aspectos positivos apenas para o gênero masculino, sendo vistas como desqualificação ou depreciação quando identificadas em mulheres. Não é de se estranhar que se identifiquem mais homens do que mulheres com altas habilidades ou superdotação há séculos, senão milênios, em determinadas culturas, pois estas têm sido colocadas em segundo plano, principalmente quando se fala de reconhecimento acadêmico e profissional.

 

Além desses, outros mitos parecem se perpetuar no senso comum, por exemplo, de que as altas habilidades ou superdotação são exclusivamente genéticas ou apenas provenientes de estímulos do meio. Esses mitos desconsideram todos os avanços de pesquisadores nacionais e internacionais, que têm se empenhado para mostrar que, nas pessoas com altas habilidades ou superdotação, há tanto uma capacidade inata, decorrente de uma predisposição genética, quanto o desenvolvimento decorrente da estimulação de um ambiente propício e favorável.

 

 

Os mitos relativos às altas habilidades ou superdotação são decorrentes, principalmente, da falta de informação sobre essas características no meio educacional e da prevalência de pensamentos preconceituosos e excludentes, que estigmatizam e dificultam o reconhecimento e o desenvolvimento saudável dos potenciais dessas pessoas.

 

Não se pode esquecer também que uma criança ou adolescente que têm altas habilidades ou superdotação continuam sendo criança e adolescente como outros. A identificação de seus potenciais não deve servir para satisfazer o ego dos pais, tampouco deve ser motivo para sobrecarregar os filhos com exigências irreais. Se a carga de responsabilidades e cobrança for excessiva, isso pode conduzi-los, muitas vezes, à frustração e sofrimento, que acarretam em problemas de ajustamento.

 

Necessidades emocionais

Os indivíduos com altas habilidades ou superdotação diferem entre si. Portanto, não é possível definir um único perfil psicológico. Fleith (2007) discorre algumas características emocionais e sociais: idealismo e senso de justiça; desenvolvimento moral avançado; perfeccionismo; alto nível de energia; senso de humor desenvolvido; independência de pensamento e valores; paixão por aprender; perseverança; multipotencialidade; não conformismo; tendência à introversão; consciência aguçada de si mesmo; grande sensibilidade e intensidade emocional.

 

Nessa contextualização, inferir que os superdotados são fracos emocionalmente é equivocado, uma vez que questões emocionais podem estar presentes em qualquer pessoa, independentemente de estar acima da média em potencialidades. Uma pessoa sem reconhecimento, incompreendida e sem aceitação no grupo que vive, na maioria das vezes, terá dificuldades de ajustamento. E o sistema escolar brasileiro, da forma que se encontra, é um ambiente que leva estudantes talentosos a se desajustarem e, ainda, a se evadirem, resistindo à escola.

 

Superdotação é comprovada pela ciência

 

Fleith (2007) recomenda dicas para que as dificuldades emocionais e sociais possam ser superadas, tais como: aconselhamento psicológico; implementação de técnica de biblioterapia e cinematerapia; enriquecimento escolar; recursos nas comunidades (bibliotecas, livrarias, atividades culturais); aconselhamento individual e grupal; orientação à família.

 

Retomando ao reconhecimento no contexto escolar, questionamos se a inclusão desses estudantes está ocorrendo? Há iniciativas públicas significativas para esse atendimento? É possível responder que sim. Entretanto, como já discorrido, em desproporção ao que rege a legislação educacional que lhes garante o direito ao atendimento especializado.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 128

Adaptado do texto “Desvendando os superdotados”

*Mayra Berto Massuda é doutoranda e mestre em Educação Especial, psicopedagoga e graduada em Letras.

**Rosemeire de Araújo Rangni é professora adjunta II do curso de licenciatura em Educação Especial e pós-graduação em Educação Especial.

Autoras do livro Altas Habilidades / Superdotação – Pesquisa e Experiência para Educadores (Wak Editora).