Superdotação é comprovada pela ciência

Características da superdotação começam a se revelar na idade pré-escolar. Dentre elas, podemos citar: alto grau de curiosidade, vocabulário e expressão oral avançados para a idade, persistência, liderança, autonomia, entre outros

Por Maria Irene Maluf* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

As questões relacionadas à inteligência humana sempre foram foco de muito interesse, pois é essa capacidade que nos distingue entre todos os seres vivos e nos permitiu, de certa forma, a supremacia e o domínio da natureza. Homens mais inteligentes do que a média, se destacam entre seus iguais e se tornam líderes respeitados.

 

A superdotação despertou em todos os tempos muita curiosidade sobre sua origem. O sobrenatural, por exemplo, foi apontado como a primeira causa para os elevados níveis de rendimento e execução desse grupo especial de pessoas. Confúcio foi, provavelmente, o primeiro filósofo a defender a ideia de que crianças com capacidades superiores deveriam receber condições educativas específicas, objetivando o desenvolvimento adequado de suas potencialidades naturais.

 

Aproximando-nos da atualidade, no princípio do século XX, a inteligência ainda era tida como um fator integrado, um traço inato, imutável, geral e responsável por toda a capacidade de aprender e aplicar conhecimentos. Nessa época, o teste mais empregado para mensurar tal capacidade era o teste de Q.I. (Quociente de Inteligência), criado em 1900, por Stanford Binet.

 

Algumas décadas se passaram e estudiosos do assunto buscaram a razão que justificaria o fato do desempenho de uma pessoa ser variado, nas diversas tarefas e disciplinas (Hetherington& Parke, 1999), e deduziram que a inteligência deveria ser composta de habilidades diferentes e independentes.

 

O disléxico precisa de uma aprendizagem diferenciada

 

Dois importantes pesquisadores se destacaram ao desenvolverem teorias a respeito dessa questão: Robert Sternberg (Teoria Triádica da Inteligência) e Howard Gardner (Teoria das Inteligências Múltiplas).

 

Enquanto Sternberg fala das inteligências analíticas, criativa e da prática, Gardner procurou identificar “competências”, que poderiam ser denominadas de inteligência, inclusive nos savants, autistas, crianças prodígios, pessoas com lesões cerebrais em diferentes culturas. Em 1983, Gardner modificou, definitivamente, o conceito de inteligência, ao descrever oito dimensões da inteligência: espacial, linguística, musical, lógico-matemática, intrapessoal, corporal/cenestésica, inteligência naturalista e a inteligência espiritual. Além disso, afirmou que as inteligências dependem de variáveis não apenas da genética, mas do contexto e das oportunidades de estimulação desde o nascimento.

 

O que tem sido entendido pelos estudiosos para o termo altas habilidade/superdotação é que existe, em seus portadores, um contínuo em termos de habilidades, seja, por exemplo, na área intelectual ou artística, apresentando o superdotado uma ou mais habilidades significativamente superiores, quando comparado à população em geral. Tais características começam a se revelar na idade pré-escolar e, dentre elas, podemos citar: alto grau de curiosidade, vocabulário e expressão oral avançados para a idade, persistência, liderança, autonomia etc.

 

Algumas características comuns a todos os superdotados podem ser agrupadas em duas categorias amplas e distintas de habilidades superiores: a Superdotação Escolar e a Superdotação Criativo-Produtiva. A característica cognitiva do grupo da Superdotação Escolar está relacionada ao alto rendimento de aprendizagem escolar e a seu distintivo afetivo emocional. Consiste em buscar sempre novas aprendizagens, ser perseverante, apresentar grande intensidade emocional, perfeccionismo no que se faz.

 

Funções Executivas e Aprendizagem

 

No caso da Superdotação Criativo-Produtiva, a ênfase cognitiva consiste no uso e aplicação da informação (conteúdo) e processos de pensamento voltados para problemas reais, desafiadores. São criativos, usam o humor, têm interesses diversificados, não se prendem a rotinas nem a convenções, encontram ordem no caos. Suas características afetivas emocionais mais importantes consistem na demonstração de autoconsciência e preocupação moral precoces, sensibilidade e empatia exacerbadas, grande imaginação e poder de investimento de energia no que fazem. (Renzulli & Reis,1997)

 

O aluno com altas habilidade/superdotação, em especial, vem mobilizando o interesse de educadores de diferentes países, nos quais propostas educacionais vêm sendo implementadas, promovendo-se melhores condições para identificação, desenvolvimento e expressão desses educandos.

 

A mudança na forma de perceber a inteligência transformou a maneira da educação entender as necessidades cognitivas de todos os alunos, incluindo os superdotados, que, ao contrário do que muitos pensavam e ainda pensam, também precisam de estimulação para desenvolver todo o seu potencial.

 

Ao longo de vários estudos, constatou-se que a família, antes da escola, tem um importante papel na efetivação dessa potencialidade, já que o desempenho superior, as altas habilidades, só aparecem depois que as crianças são estimuladas e não antes disso, de modo que o encorajamento, a afetividade e a educação são imprescindíveis para todos, sejam ou não superdotados.

 

Como todas as demais crianças, as superdotadas também necessitam de um ambiente que estimule o seu desenvolvimento, que respeite o seu ritmo de aprendizagem, que ofereça multiplicidade de experiências, de modo a atender às suas necessidades educacionais.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 102

Adaptado do texto “Superdotação”

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br