Superconfiança em si mesmo funciona, indica estudo

Pesquisadores confirmam uma irritante verdade sobre as pessoas que se acham demasiado especiais e talentosas

*Por Marco Callegaro

Foto: Shutterstock

Por que razão algumas pessoas parecem se autoenganar, acreditando que podem tudo ou que são especiais? Existem mesmo pessoas superconfiantes, que “se acham”. Por mais irritante que seja esse padrão, uma nova pesquisa mostrou que funciona: pessoas que se enganam nutrindo uma confiança exagerada em si acabam sendo mais bem avaliadas e conseguem mais o que querem. Essa constatação não justifica a atitude dessas pessoas, que tanto mal podem causar aos outros ou à sociedade, mas revela aspectos de nosso funcionamento mental.

O antropólogo evolucionista Robert Trivers estudou o fenômeno do autoengano e propôs a mais aceita teoria científica para entender sua origem. Segundo argumenta Trivers, durante a evolução, em muitas ocasiões, os animais sociais são beneficiados por conseguir enganar os outros sem serem detectados. Humanos mentem e tentam enganar os outros a todo momento, muitas vezes saindo em vantagem, tanto no passado evolucionário como no ambiente atual, caso não sejam efetivamente descobertos.

No entanto, se mentimos conscientemente, sinais não verbais sutis podem denunciar que existe um acobertamento das verdadeiras intenções. As expressões faciais, por exemplo, são difíceis de simular sem talento e treinamento exaustivo. A face humana é a mais complexa do reino animal em versatilidade expressiva. Os seres humanos têm diversos músculos faciais cujo padrão de contração desenha o semblante, levando o observador a inferir um estado emocional determinado.

O psicólogo Paul Ekman pesquisou as expressões faciais das emoções e descobriu que existem diferenças sutis entre expressões faciais de emoções autênticas e simuladas. As emoções genuínas de raiva, tristeza e medo mobilizam músculos que não podem ser controlados voluntariamente.

Um sorriso espontâneo, também chamado de “aberto”, é comandado por circuitos do sistema límbico, entre outros componentes, enquanto um sorriso social forçado é governado por comandos neurais do córtex cerebral, que estão sob controle voluntário do sujeito. O sorriso aberto difere do “sorriso amarelo” forçado por exibir os dentes superiores e inferiores, enquanto o sorriso fingido exibe apenas os inferiores. A tentativa de esconder o verdadeiro estado emocional pode ser traída por pistas não verbais como essas. Além disso, mentir gera ativação do sistema nervoso simpático, tensão muscular e ansiedade, e isso fornece pistas reveladoras de nosso estado emocional e de nossas intenções.

Um mentiroso para ser eficaz deve ser coerente, pois falamos com muitas pessoas ao longo de períodos extensos de tempo, e assim um mentiroso pode trair a si mesmo involuntariamente. As inconsistências entre as várias versões apresentadas podem ser descobertas, desmascarando o mentiroso. Desse modo, mentir a si mesmo – o autoengano – impede qualquer contradição reveladora, uma vez que o sujeito apresenta sempre a mesma versão, aquela em que acredita, mesmo que esteja longe dos fatos objetivos.

Essa teoria de que mentimos para nós mesmos para poder enganar melhor os outros ainda não havia sido testada, mas um estudo recente obteve algumas evidências que apoiam a ideia. Nessa investigação, os participantes que superestimavam suas habilidades em uma tarefa eram também superavaliados pelos julgadores da eficiência na tarefa. O inverso também foi observado, pois aqueles que erroneamente acreditavam não ser tão bons na tarefa eram julgados como piores do que efetivamente eram.

Essas descobertas mostraram que as pessoas muitas vezes não são julgadas pelo seu desempenho real, mas sim pelas crenças distorcidas sobre seu desempenho, ou seja, seu autoengano. Os indivíduos superconfiantes têm maior chance de assumir riscos, e muitas vezes criam instituições como empresas, bancos ou mesmo exércitos que são vulneráveis, pois estão baseadas em autoengano e podem sofrer reveses. No entanto, tanto as pessoas quanto a sociedade “compram” a versão ostentada, o que contribui para o sucesso do narcisista.

Nessa investigação, os pesquisadores confirmaram a relação entre superconfiança e maior status na sociedade e mesmo maior bem-estar subjetivo. Embora injustiças ocorram, a pesquisa apontou para caminhos em que se pode reduzir o efeito do autoengano. Por exemplo, avaliações relativas como um ranking, onde um é melhor que outro, são mais propensas ao efeito de “se achar”, enquanto avaliações absolutas como um conjunto de notas eliminam boa parte das distorções, tanto no olhar para si mesmo como nas avaliações dos outros. As avaliações feitas com base em critérios objetivos, e de preferência “cegas”, em que o avaliador não sabe quem está avaliando, mas apenas seu desempenho em determinados parâmetros, produziram menor efeito de favorecer os egos inflados. Está na hora de limitarmos os efeitos negativos produzidos pela influência de visões exageradamente confiantes, e o conhecimento do curioso fenômeno do autoengano pode contribuir.

Referências: Lamba, S.; Nityananda, V. Self-deceived individuals are better at deceiving others. PLoS ONE, v. 9, n. 8, 2014: e104562. doi:10.1371/journal.pone.0104562

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).

*Conteúdo adaptado do texto “Superconfiança em si mesmo funciona”

Revista Psique Ed. 134