Sexo virtual: extinção versus compulsão

O estilo de vida moderno, com hábitos se modificando rapidamente para pior, causa problemas como isolamento, que por sua vez aumenta o vício pelo sexo virtual. Saiba mais

Texto Carmita Abdo | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

 

É desproporcional e preocupante o tempo que muitos dedicam ao trabalho e aquele reservado para o lazer, o descanso sem culpa. Vivemos uma época de horas curtas e exigências infinitas.
Nas últimas décadas, os hábitos de vida rapidamente se modificaram (para pior), no sentido de fazer frente às demandas de produtividade, excelência e lucro. Sedentarismo,  alimentação desbalanceada, pouco sono, abuso de bebidas e de todo tipo de drogas e medicamentos (até autoprescritos) foram sendo incorporados ao cotidiano das pessoas, sem contestação e/ou sem que elas avaliassem o prejuízo, o isolamento. Um estilo de vida precário altera várias funções do organismo, mesmo e especialmente numa pessoa jovem: corpo e mente, razão e emoção se ressentem e se manifestam de diversas formas, dependendo do órgão de choque, do tipo de mau hábito prevalente, das condições ambientais e relacionais de cada um. O resultado
é invariável: falhas, bloqueios, disfunções, que se apresentam isoladas ou múltiplas. Também pode ocorrer hiperfunção e vício. O grande arsenal de conhecimento, hoje disponível, não impede que esses “fantasmas” aflorem nas madrugadas de insônia, apesar do esgotamento; na digestão lenta e difícil do “prato pronto”; na falta de “embalo”, após a “balada”; na tensão e nas dores das costas,
mesmo em colchões personalizados; nas dificuldades sexuais, contrastando com toda a tecnologia conquistada.

Some-se a essa paradoxal situação, o extremo e generalizado culto ao belo, submetendo ainda mais o quase autômato, que leva adiante uma proposta de vida a qual repudia, mas que a ela adere, sem pestanejar. O senso de individualidade, portanto, vem sendo drasticamente aniquilado por esse estilo, bem como pelos manuais de bem viver, pelas “receitas de felicidade” ou regras gerais para a árdua/facilitada conquista de si mesmo (e do outro). Muito cedo introjetamos como fazer isso, o que parece bastar. De fato é o bastante, para desencadear um comportamento em bloco, com atitudes irrefletidas, repetitivas e sem personalidade. O descaso com a falta de escolha e de criatividade leva à rotina, que dá lugar ao tédio. O tédio favorece a disfunção ou a hiperfunção. A extinção do desejo sexual é um exemplo de onde se pode chegar com essa sequência de eventos. Seguindo-se à falta de desejo, o mau desempenho passa a dominar, o que impede a realização. Essa pessoa pode até argumentar que não sofre, já que apenas constata o que perdeu, e não lamenta essa perda “natural”. Entretanto, a sua parte mais primitiva (menos racional) está sofrendo, alijada da recompensa, ainda e sempre um valor, mesmo na massificada cultura contemporânea. Sofre o(a) parceiro(a), impedido(a) de consolidar a parceria. No outro extremo, o contingente dissimulado da nossa incauta cultura abusa dos discursos exagerados e inconsistentes daqueles que, mesmo tendo o desejo preservado, não completam a relação sexual. A esses resta falar, mais do que fazer. São os artífices do “sexo narrado”, comentando, palpitando, coletivizando mais do que convencendo.

Um desabafo às avessas, uma compensação pelo “contar vantagem”. Há, também, os viciados em “sexo virtual”, caracterizando outra onda, modalidade ou estratégia para resgatar o sonho, recuperar a fantasia e libertar o eros. Esses incansáveis e invencíveis humanos – reatando seus laços com o imaginário, reeditando a vocação para o impossível surpreendem, outra vez. Subjugados pela “coisa” eletrônica, invertem o jogo e tentam submeter a máquina que os subverte, extraindo dela o aditivo para seus devaneios eróticos, navegando por meio dela seus pecados e suas paixões. Paixões inconfessas possibilitam emoções únicas, muitas vezes sufocadas, mas sempre transbordando da mais profunda intimidade do ser. Guardam e exibem, a um só tempo, a mais legítima das verdades, trancafiada sete programas, para não correr o risco da contaminação pelo vírus do sistema ou o risco do download “politicamente correto”. Vivemos uma contemporaneidade de crescentes horas de entrega à erotização solitária, em que a libido, quando ameaçada pelo perigo de extinção ou da compulsão, busca abrigo ou cárcere na vilã e sedutora pornografia virtual. Justifica-se essa fixação, alegando-se mais segurança aqui do que no sexo protegido, menor culpa que no sexo não consensual, mais sensatez que no sexo ‘turbinado’ a álcool ou a outra substância qualquer. Nada do que foi comentado acima é verdade ou mentira, totalidade ou parte, realidade ou fantasia, desculpa ou fato. Tudo está na nuvem, não por ser virtual, mas porque desconhece a cumplicidade. Apenas um toque que liga e desliga é sufi ciente, respondendo de imediato à mais premente das necessidades de cada solitário convicto, pouco disposto a socializar. Ou de cada tímido, rejeitado, egocentrado, preconceituoso ou viciado que se isola, por sentir-se incapaz de compartilhar.

 

Revista Psique | Ed. 104