Sexo virtual e suas consequências

A interação sexual pela internet não exige a presença física do(a) parceiro(a), sendo considerada uma revolução na sexualidade, porém esse usufruto nem sempre é saudável

Por Igor Lins Lemos* | Foto: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

A internet, espaço virtual amplamente debatido nesta coluna, gerou novas e diversas possibilidades no acesso às informações, algumas delas específicas ao público adulto. Nesse grupo etário, um ponto que sofreu alterações significativas foi o circunscrito à sexualidade. Sabe-se que as modernas mídias de comunicação proporcionam alternativas na expressão psicopatológica, e a internet, em particular, possui uma relevante tendência no desenvolvimento e manutenção de diversos adoecimentos psíquicos (seja no campo dos transtornos de ansiedade, transtornos do controle dos impulsos, dentre outros) no campo da sexualidade no ciberespaço (Lemos et al., 2012).

 

O cibersexo pode ser considerado uma subcategoria da intitulada atividades sexuais on-line. Essa definição ocorre quando duas ou mais pessoas compartilham de uma conversa sexual enquanto estão conectadas com propósitos de prazer sexual, podendo ou não incluir a masturbação. Três características fundamentais classificam o cibersexo: acessar pornografia on-line, áudio, vídeo e histórias textuais; interação em tempo real com um parceiro virtual (ou fantasioso) e, por fim, softwares multimídia (CD, DVD e blu-ray) (Carnes; Delmonico; Griffin, 2001).

 

Apesar da dependência de sexo virtual ser considerada mais uma expressão patológica dos comportamentos desadaptativos relacionados à tecnologia, é importante salientar que a maior parte dos usuários de pornografia virtual apresenta um usufruto saudável. Esse grupo, que não revela problemas em seu comportamento on-line, constitui aproximadamente 80% dos internautas que utilizam recursos pornográficos da internet. Existem relatos na literatura de que esses indivíduos revelam uma melhor comunicação sexual em seus relacionamentos devido ao uso de pornografia na rede (Delmonico; Griffin, 2011).

 

Distante daquilo que é considerado adaptativo, o grupo de usuários dependentes apresenta dificuldades na liberdade de escolha, comportamentos compulsivos, pensamentos obsessivos, isolamento e tempo excessivo na prática de sexo virtual. Um estudo revela que o transtorno depressivo maior, transtornos de ansiedade, transtornos de personalidade e uso de substâncias podem acometer dependentes de sexo virtual e usuários que apresentam comportamento sexual compulsivo off-line (Kuzma; Black, 2008). Um dos fatores que podem servir para a manutenção desta possível psicopatologia é a existência, segundo os usuários, de algumas vantagens na prática do sexo virtual: fácil acesso, anonimato, mercado ilimitado, prevenção do medo da rejeição, comunicação interativa, espaço para experimentação entre a fantasia e o comportamento da vida real, identidades virtuais e, por fim, baixo risco de apreensão (Hill; Briken; Berner, 2007).

 

Técnicas importantes podem ser implantadas no manejo e prevenção do uso problemático do sexo virtual, como: assegurar que o computador seja utilizado apenas em locais de grande movimentação; limitar os dias e o tempo de uso; utilizar o computador apenas quando outras pessoas estiverem próximas; especificar locais onde a internet possa ou não ser usada; ter certeza de que o monitor está visível para terceiros e, por fim, instalar planos de fundo (screen savers ou backgrounds) de pessoas importantes (familiares, parceiro/a). Técnicas efetivas no tratamento da dependência de sexo virtual são: melhora na intimidade, recondicionamento de estimulação e desenvolvimento de estratégias de enfrentamento. Outros modelos de tratamento eficazes são: a terapia cognitivo-comportamental, terapia familiar, treinamento de habilidades sociais e intervenções farmacológicas (Young et al., 1999).

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 128

Adaptado do texto “Existem fronteiras entre o prazer e o sofrimento?”

*Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com