Seu filho deve mudar de escola? Entenda

Há diversos fatores que precisam ser levados em consideração antes de tomar a decisão. Se mudar é preciso, ponderar como fazer essa transição é essencial

Por Maria Irene Maluf* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Há momentos distintos de adaptação e readaptação ao longo da vida escolar, mesmo para aqueles que permanecem sempre na mesma escola: transições do berçário para a educação infantil, da educação infantil para o fundamental I, depois para o fundamental II e deste para o ensino médio…

 

Mas, sem dúvida, ainda que necessária por diferentes motivos, toda mudança de escola, no começo ou no meio dos ciclos, é um complicador expressivo, ainda mais se as crianças são fortemente vinculadas à escola antiga, à professora, aos amiguinhos. Muitos pais não usam de boas estratégias para ajudar os pequenos nesse momento tão delicado.

 

A primeira e mais marcante etapa na vida pessoal e acadêmica das crianças acontece aos seis anos, na entrada para o ensino fundamental I: muitas expectativas familiares recaem sobre elas, algumas vezes ainda imaturas para tanta responsabilidade; aprender a ler e a escrever é uma tarefa e tanto para as crianças. Além disso, inicia-se uma vida mais rotineira: a partir desse ciclo, os horários são mais rígidos, novos deveres e obrigações se apresentam. O horário de brincadeiras é reduzido e, via de regra, as professoras já começam a pontuar significativas exigências em termos de tempo, comportamento, produtividade. É o momento da inserção em uma vida pontuada por desafios acadêmicos e pessoais. Uma mudança nessa época, tanto de convívio com pessoas acolhedoras e familiares, pode ser mais difícil para algumas crianças mais sensíveis, que podem regredir no seu desenvolvimento, voltando a ter comportamentos já superados como fazer xixi na cama e ter ataques de birra frequentes. Embora seja passageiro, esse momento deve ser olhado pelos pais com especial prudência, até para servir como um ensinamento ao filho: mudanças são fatos corriqueiros na vida e é preciso aprender desde cedo a ter uma atitude positiva de superação.

 

Um jeito de ajudar a criança é procurar fazer com que tenha sempre mais de um grupo de amigos (do prédio, da escola, da natação etc.), pois assim já terá repertório para lidar com a situação sem tanta angústia. Levar o filho para conhecer a nova escola dias antes do início das aulas e usar parte do uniforme novo em casa ajudam a sentir que tudo é parte da (boa) transformação que está ocorrendo.

 

Entretanto, há casos em que mudanças de escola acontecem quando a criança está no meio do curso. Nesses casos, olhar as características da idade e também o perfil pessoal é importante antes de uma decisão tão importante como essa.

 

Rendimento escolar está relacionado ao DNA. Entenda

 

Crianças na faixa dos 8 anos, em geral frequentando o 3º ano do ensino fundamental I, já estão alfabetizadas e possuem um bom vocabulário: passam a impressão de “saber tudo”, mas ainda são bastante imaturas e dependentes de orientação e ajuda direta em vários afazeres. Algumas ainda não venceram os famosos medos infantis: é uma fase acentuada de desenvolvimento pessoal que, somada à troca de escola, pode ser catalizadora de ansiedade e sofrimento.

 

Todo equilíbrio emocional alcançado nos primeiros 10 anos de vida frequentemente começa a ser abalado por volta dos 11 ou 12 anos. Mais uma razão para os pais não acharem que a aparente autonomia que hoje os pré-adolescentes têm basta para deixá-los escolher os rumos de sua vida, inclusive no que diz respeito à escola. As razões pela mudança para um novo colégio devem ser bem esclarecidas, especialmente se devidas a comportamento ou mau desempenho do jovem.

 

No fundamental II, em geral com 11 a 14 anos de idade, os alunos têm uma relação menos estreita com os professores do que aquela que tinham antes, e no seu lugar entra uma vinculação muito mais forte com o grupo de colegas, devido à proximidade com a chegada da adolescência. Mudanças impingidas pela família são sentidas de modo muito mais expressivo e resistências são comuns. Nessa fase os jovens têm condições de manter vários grupos de amigos, enfrentar novos ambientes e se adaptar facilmente, dentro é lógico de seu perfil particular. A maioria já tem um senso crítico razoavelmente desenvolvido nessa idade, razão pela qual pais e professores devem ser muito coerentes nas ordens e procedimentos. São também autocríticos e isso gera situações de tensão e ansiedade, que se revelam no comportamento.

 

É frequente vermos as trocas de escola ocorrerem na passagem para o ensino médio. Muitas vezes, são os próprios filhos que pedem essa alteração, o que deve ser visto com muito cuidado. Mudar o filho de escola apenas porque seus amigos também o fizeram não é um argumento valioso em termos de aprendizagem de vida, e quem escolhe de fato a escola deve ser sempre os pais, ainda que possam deixar duas ou três opções finais para o filho ajudar a decidir. Mas a última palavra é dos adultos legalmente responsáveis pelo bem-estar, segurança e educação do jovem: seus pais!

 

Antes de mudarem seus filhos de escola, caso os pais se sintam inseguros frente à decisão a tomar, o ideal é buscarem a orientação com um psicopedagogo. Essa consulta pode evitar mudanças desnecessárias e até desastrosas, tanto para o futuro acadêmico quanto para o desenvolvimento das potencialidades da criança.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 129

Adaptado do texto “Mudar de escola: sim ou não?”

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br