Saiba qual a importância de as crianças viajarem sozinhas

Inseguranças e ansiedades exageradas de crianças (e dos pais) ultradependentes podem ser vencidas nos acampamentos recreativos que estimulam o desenvolvimento de novas habilidades e o amadurecimento social

*Por Maria Irene Maluf

Foto Shutterstock

Sempre que chegam as férias ou feriados prolongados vemos a euforia das crianças pela busca por diversão. Uma opção que virou moda no país foram os acampamentos recreativos. Apesar dos pedidos insistentes de alguns filhos mais aventureiros, muitos pais hesitam em deixá-los viajar sozinhos para um acampamento desses. Mas essa pode ser uma ocasião de aprendizado para pais e filhos, porém, claro, deve ser bem pensada.

Mandar o filho para um acampamento é ótimo para ampliar seu contato e relacionamento social, incentivar a participação em novos grupos, trabalhar as questões de aceitação das diferenças pessoais, desenvolver sua independência e autonomia, ajudar a vencer inseguranças e ansiedades exageradas de crianças (e também dos pais) ultradependentes, ensinar a resolver sozinhas problemas do dia a dia, a seguir regras, adaptar-se a situações diferentes, entre tantos outros fatores. Essa espécie de atividade é muito indicada devido às vantajosas habilidades que desenvolve.

Para que nada dê errado, é decisivo escolher um acampamento bem estruturado, onde a proposta de apoio à socialização infantil ou juvenil seja clara em meio às atividades recreativas. Em tal sentido, além das referências de amigos, da família ou da escola, é importante os pais verificarem a atualidade das informações recebidas. Sites e revistas são bons meios de pesquisa, mas a experiência e o relato de quem já foi ou levou os filhos são mais confiáveis. Além isso, vale lembrar as experiências similares anteriormente vivenciadas, que envolveram separação da família e dificuldades de relacionamento que as crianças tenham enfrentado com seus iguais e outros adultos, inclusive se passaram por exemplo por experiências de bullying, ou se sofreram a separação de modo muito acentuado. Esses fatores devem ser levados em consideração antes de optar por mandar o filho ou não.

O cuidado deve ser maior ainda quando, além do perfil de insegurança, dificuldade de ajuste social, timidez ou mesmo uma introspecção maior, a criança estiver em meio a um tratamento especifico, seja físico, psicológico, fonoaudiólogo, psicopedagógico. Os profissionais envolvidos saberão orientar os pais especificamente sobre as vantagens e desvantagens de tal empreitada nesse momento da vida dessa criança.

Salvo exceções, se suficientemente amadurecidas e preparadas pela família, a partir dos seis ou sete anos as crianças poderão aproveitar e muito a experiência de viajar sem os pais até para desenvolver novas habilidades sociais, de autoestima e de autonomia, pois, sozinhas, terão de resolver pequenos problemas de cuidados pessoais, de relacionamento, que via de regra a mãe decide pelo filho, terão de aprender e aceitar viver sob novas regras e lidar com situações de medo de dormir, por exemplo, em conjunto com outras crianças que estão passando pela mesma situação.

O amadurecimento social é visível, há melhoria na autonomia e sentido de segurança pessoal na maioria dos casos. Além disso, uma nova rotina gera novos interesses, aprendizagens diversificadas, interioriza a disciplina, muda o comportamento.

Mais importantes que a idade cronológica para enviar a criança são a maturidade emocional e a autonomia já adquiridas, tanto por meio da educação familiar quanto pelas experiências anteriores, como dormir em casa de amigos, sair de férias com parentes etc.

Outro ponto importante é a postura dos pais frente ao afastamento da criança e a maneira como ela é conduzida ao acampamento. Esses são diferenciais fundamentais principalmente para os mais novinhos, que precisam sentir que seus pais estão tranquilos e seguros para também se sentirem assim em um novo ambiente.

Sempre existem maneiras de ajudar os filhos a adquirirem ânimo para novas empreitadas como essa, caso na hora “H” falte coragem: no caso de crianças tímidas ou inseguras, o ideal é que uma outra criança conhecida vá junto com ela, ao menos na primeira experiência fora de casa, que ambas tenham a mesma faixa etária e possam ficar no mesmo grupo. A mais segura e extrovertida serve de modelo e de apoio enquanto a mais tímida faz novos amigos.

Crianças menores de seis ou sete anos não têm ainda tantas defesas emocionais, a não ser que os pais acreditem que o filho é bem amadurecido para a idade e possa experimentar esse tipo de passeio sem nenhum trauma.

Acho importante refletir também sobre as mudanças vantajosas que podem ser geradas na família a partir da ausência temporária do filho: mães e pais podem perceber que apesar da idade, comparativamente a outras crianças, ainda não o prepararam o suficiente ou de modo adequado para a independência e autonomia. Podem assim sentir também os efeitos do excesso de sua proteção pelas reações dos filhos e dependência excessiva a eles e deles com as crianças, coisa que não é produtiva nem saudável. E ainda tirar outro aprendizado disso tudo: os filhos um dia vão ter mesmo a própria vida e a família existe para prepará-los para isso…

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

**Conteúdo adaptado do texto “A experiência de viajar sozinho”

Revista Psique Ed. 131