Saiba quais são os efeitos dos games no cérebro

O aprendizado envolve a repetição por um período de tempo e fazer isso nos games leva o cérebro a criar novas conexões nervosas ligadas à atividade cerebral

Por Tiago J. B. Eugênio* | Foto: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

Jogos de videogame são feitos de desafios. O sucesso é medido quase que totalmente pela destreza do jogador, sobretudo a coordenação.

 

Se alguém acredita que jogar videogame é uma atividade passiva, pode ser que desconheça ou subestime o poder ativo do cérebro necessário para integrar todas as ações e configurar a vitória do jogador sobre os desafios criados pelo designer do game. Acredite, jogar videogames é a nova academia para nossos cérebros.

 

A Neurociência tem se posicionando como o principal advogado de defesa dos games. Pesquisas recentes mostram um efeito positivo dos jogos sobre as funções cognitivas. Essa influência tem sido relacionada a mudanças de massa cinzenta dos jogadores, especialmente no córtex pré-frontal. Em estudo publicado na revista PLoS ONE, 152 adolescentes foram submetidos à ressonância magnética enquanto jogavam videogame. O experimento estimou a espessura cortical e relacionou com o tempo (horas) de jogatina dos participantes por semana. Os cientistas observaram uma correlação positiva entre a espessura cortical e o tempo em contato com os jogos no córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo (DLPFC, sigla em inglês para dorsolateral prefrontal cortex) e o campo visual do lobo frontal esquerdo (FEF, sigla em inglês para left frontal eye fields). Nenhuma região mostrou perda da espessura cortical em associação com o uso dos jogos.

 

O DLPFC é uma das áreas do córtex pré-frontal mais recentes do cérebro primata, que sofre mudanças estruturais e funcionais por um longo período – até o início da vida adulta. Relaciona-se às funções executivas, como a memória de trabalho, flexibilidade cognitiva, o planejamento, a inibição comportamental e o raciocínio abstrato. Estudos anteriores mostraram que essa área desempenha um papel importante na forma como processamos decisões complexas, tais como aquelas que envolvem opções que incluem a realização de objetivos de curto prazo com implicações a longo prazo. O FEF é responsável pela elaboração de julgamentos sobre como lidar com os estímulos externos. Também é importante na tomada de decisão, uma vez que permite ao cérebro atentar ao tipo de reação mais adequada frente a um estímulo específico.

 

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Juntos, DLPFC e FEF são cruciais no sistema de tomada de decisão executivo do nosso cérebro. Maior espessura nessas áreas do cérebro (em outras palavras, mais conexões entre as células cerebrais) indica maior capacidade de lidar com diversas variáveis e as implicações dessas de forma imediata e a longo prazo. Resultados de estudos como esse podem representar a base biológica e os efeitos da sociedade gamer sobre nossos cérebros. É como se estivéssemos descobrindo uma nova academia e encarando o cérebro como um novo músculo que precisa ser exercitado e desafiado. Assim sendo, se hoje o personal trainer é o profissional mais adequado para elaborar exercícios para o corpo, pode ser que no futuro o designer de games seja o profissional mais adequado para elaborar exercícios para nossos cérebros. As escolas devem ser as próximas instituições a absorverem esse novo perfil profissional capaz de criar um ambiente de aprendizagem mais eficaz e divertido.

 

Porém, segundo um artigo publicado na revista Neurology Now, o contato excessivo com jogos causa mudanças no comportamento dos adolescentes. Essa modificação se deve ao excesso de produção de dopamina pelo cérebro, neurotransmissor relacionado à dependência em jogos, inclusive os eletrônicos. A estrutura de recompensa dos games é similar ao de máquinas de um cassino. O jogador insiste em bater um recorde, a solucionar um quebra-cabeça, matar um inimigo, coletar um item raro, conquistar mais territórios, passar aquela fase difícil. A vitória e a conquista fazem o cérebro produzir dopamina enquanto joga. A produção de dopamina aumenta quando o jogador vê a possibilidade de conquistar um desafio maior ainda. Não é à toa que o level design dos jogos segue uma lógica universal: aumento gradativo da dificuldade. Nosso cérebro adora ser desafiado e a resposta neuroquímica será mais efetiva quando as tarefas tendem a se tornar mais difíceis com a progressão do jogo. Como o cérebro gosta de dopamina, não é difícil compreender a preferência das pessoas pelos bons games que exigem mais do jogador paulatinamente.

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O córtex pré-frontal é um dos principais alvo da dopamina. No entanto, em excesso, pode desativá-lo. Como essa região é ligada à tomada de decisões, julgamentos e autocontrole, o aumento de dopamina no pré-frontal faz com que os jogadores percam a noção de tempo, dedicando-se horas a fio ao game e deixando de lado outras tarefas. Ainda, como essa região do cérebro completa sua formação apenas quando a pessoa tem entre 25 e 30 anos, esse tipo de problema é ainda mais preocupante nos jovens.

 

Mesmo diante desse desafio, não é a melhor estratégia proibir os jovens de jogar videogames. Isso porque eles também trazem benefícios. Jogos são uma ótima ferramenta de aprendizado e de estímulo à perseverança.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 133

Adaptado do texto “Estímulo à perseverança”

*Tiago J. B. Eugênio é coordenador do curso de pós-graduação em Games e Tecnologias da Inteligência aplicados à Educação da Capacitar. Mestre em Psicobiologia pela UFRN e licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas pela UNESP. Possui formação em Game-Based Learning na Quest to Learn (NY – EUA) É professor STEAM e de projetos relacionados a produção de jogos e ciências forenses do Colégio Bandeirantes. tiagoeugenio20@gmail.com