Saiba os benefícios da experiência bilíngue para crianças

A experiência bilíngue é extremamente rica para crianças já na primeira infância e seus benefícios se perpetuam ao longo da vida, tais como maior facilidade de monitorar mudanças e aprender novas línguas

*Por Maria Irene Maluf

Foto Shutterstock

Hoje é perfeitamente aceito pelo mundo científico e pela sociedade em geral que o multilinguismo seja, além de uma condição natural, uma situação muito proveitosa para o desenvolvimento geral da criança, mas nem sempre foi assim.

No século XIX, alguns estudiosos afirmavam que essa prática confundia as crianças e poderia prejudicar seu aprendizado e desenvolvimento intelectual.

Foi em 1960 que os psicólogos Elizabeth Peal e Wallace Lambert, da Universidade McGill, no Canadá, descobriram por meio de testes verbais e não verbais que os bilíngues apresentavam rendimento superior em vários quesitos padronizados. Mas sua descoberta logo caiu no esquecimento até que inovações tecnológicas permitiram analisar os cérebros de recém-nascidos em seus primeiros encontros com a linguagem.

Constatou-se então que todos os bebês nascem com capacidade para falar qualquer língua humana e são capazes de diferenciar sons de todos os idiomas.

Mas perto dos 12 meses de vida, a maioria perde essa capacidade: a exceção justamente está nos bebês de famílias bilíngues, os quais ainda mostram um aumento de atividade neurológica quando ouvem línguas totalmente desconhecidas ao final de seu primeiro ano.

A neurocientista norte-americana Laura Ann Petitto, da Gallaudet University, afirma que a experiência bilíngue impede que a criança perca a capacidade de entender sons de outras línguas. O fato ainda ajuda as crianças bilíngues a aprenderem outros idiomas facilmente pelo resto da vida.

Além de uma necessidade social e acadêmica, o domínio de mais de um idioma hoje está se tornando importante do ponto de vista educacional por um novo motivo: comprovadamente os bilíngues demonstram, em estudos internacionais, possuírem maior atividade neuronal nas áreas pré-frontais do cérebro, relacionadas às funções executivas, indispensáveis para o aprendizado acadêmico (Ellen Bialystok, Universidade York de Toronto, 2003).

Tal sistema é fundamental para praticamente tudo que fazemos, é próprio do cérebro humano e nos confere principalmente três importantes habilidades: a memória operacional, a flexibilidade e a inibição cognitiva. De modo geral, podemos dizer que memória operacional ou de trabalho é aquela responsável de sustentar e manipular informações mentalmente pelo espaço de tempo necessário para compreendermos e elaborarmos um trecho de leitura, um texto, um diálogo, o enunciado de um problema etc.

Flexibilidade cognitiva é a habilidade que facilita a adaptação do indivíduo a diferentes contextos, e a inibição, também chamada de autocontrole, corresponde à capacidade de bloquear um comportamento inadequado, que nos permite inibir a atenção a detratores, estando assim relacionada ao foco atencional.

As funções executivas, tal como também a linguagem, outra importante habilidade cognitiva, estão na base de todo desenvolvimento cognitivo, acadêmico, social, e prejuízos nessas áreas podem marcar todo o desenvolvimento da criança.

Um estudo recente da Universidade de Granada, na Espanha, também divulgou que os bilíngues utilizam mecanismos de atenção muito mais vezes do que os monolíngues e são capazes de trabalhar melhor em situações de tomada de decisão e em situações de distração: o bilinguismo incrementa a memória e desenvolve a atenção, além de aumentar o autocontrole.

Segundo Naja F. Ramirez, da Universidade de Washington e autora principal do estudo publicado no Developmental Science, o bilinguismo influi no desenvolvimento da linguagem e no desenvolvimento cognitivo geral, até porque a necessidade diária de alterar o uso de idiomas permite melhorar as habilidades de função executiva de forma rotineira.

Ao se comparar a resposta cerebral em estudos com imagem computadorizada, percebeu-se que os bebês de famílias monolíngues e de famílias bilíngues apresentavam diferenças perceptíveis em seu córtex pré-frontal e orbitofrontal, sendo que nos bebês bilíngues a atividade neural era superior, mais preparada para aprender sons de vários idiomas. Perceberam que até os seis meses as crianças diferenciam sem problemas sons de um idioma estrangeiro e os bilíngues continuam a ter essa capacidade aos 11 meses, mas os monolíngues não (Patricia Kuhl, 2016).

Saber falar em duas ou mais línguas traz vantagens de muitas ordens: a capacidade de monitorar melhor as mudanças do ambiente ao seu redor, por exemplo, é uma delas. Outra vantagem de dominar idiomas diferentes, especialmente dentro de uma família bilíngue, é a facilidade para conhecer várias culturas de uma maneira natural.

As vantagens do bilinguismo podem alcançar as habilidades sociais: Paula Rubio-Fernández e Sam Glucksberg (Universidade de Princeton, nos Estados Unidos) descobriram que indivíduos bilíngues são mais capazes de se imaginar no lugar dos outros, entender o ponto de vista alheio, pois têm mais facilidade de neutralizar as informações que já conhecem.
Os efeitos do bilinguismo também se estendem até a velhice. Em um estudo

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recente com 44 idosos bilíngues em espanhol-inglês, cientistas descobriram que os indivíduos com maior proficiência em cada idioma eram mais resistentes do que os outros idosos para o aparecimento de demência e outros sintomas da doença de Alzheimer (Tamar Gollan, da Universidade da Califórnia, San Diego).

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br

**Conteúdo adaptado do texto “Bilinguismo e aprendizagem”

Revista Psique Ed. 128