Saiba como psicólogos lidam com psicopatas criminosos

O trabalho psicoterápico nos apresenta, vez por outra, alguns dilemas éticos e morais complexos e que exigem posicionamento rápido e firme do terapeuta

Por Ricardo Wainer* | Foto: 123 RF | Adaptação web Caroline Svitras

A prática terapêutica envolve cuidado com o sigilo profissional e ético. Para aqueles que têm uma prática profissional direcionada a pacientes com comportamentos antissociais, então, é muito mais comum o enfrentamento de situações limites, como a perspectiva do cliente atentar contra a vida de outros ou incorrer em outras práticas ilícitas.

 

Os constituintes essenciais de qualquer psicoterapia são: o paciente (ou cliente), o psicoterapeuta (devidamente autorizado e regulamentado), o processo terapêutico (com suas distintas teorias e metas) e a relação terapêutica. É justamente pelos princípios intrínsecos da relação terapêutica que o encontro entre psicoterapeuta e paciente(s) acaba por se diferenciar de qualquer outra forma de interação humana.

 

Independentemente da abordagem teórica do profissional, a relação terapêutica se alicerça nos princípios do respeito pelo ser humano, pela empatia do psicoterapeuta pelo sofrimento do paciente (evitando julgamentos de ordem moral ou religiosa) e pelo sigilo absoluto dos conteúdos trazidos em sessão. É nesse último quesito que este artigo foca sua discussão.

 

Cérebro de psicopatas é programado para mentir

 

A garantia do sigilo de todas as informações trazidas ao consultório é anunciada pelo profissional no primeiro encontro da díade terapêutica, como uma condição primordial para que o paciente sinta que o ambiente terapêutico é um espaço seguro para ele expor suas dificuldades da forma mais honesta e despida de medos de qualquer tipo de julgamentos morais possível.

 

No trabalho com pacientes com comportamentos, ou com tendências de personalidade antissociais, nasce o dilema ético de como proceder quando é anunciado para o psicólogo/psiquiatra algum crime ou contravenção. Se a relação terapêutica se baseia na total confiança do paciente de que tudo que ele disser na sessão ficará em sigilo absoluto, como fazer quando o comportamento do paciente indicar riscos iminentes?

 

Esse tópico é motivo de discussões e de importantes divergências entre organizações profissionais que regulam o trabalho dos profissionais da saúde, e também dos departamentos de justiça mundo afora. Para se ter uma ideia das disparidades, somente nos EUA cada estado tem legislações distintas relativas a esse assunto.

 

De modo geral, as orientações quanto à postura dos profissionais nas situações de condutas ilícitas de seus clientes têm dois princípios que são aceitos sem muitas controvérsias: 1) quando for anunciado ao profissional ou crime ou contravenção que já ocorreu (no passado), a informação deve se manter em sigilo, pois nada pode ser feito para reverter o que foi cometido; 2) quando o paciente relatar a intenção/plano de cometer conduta antissocial, o terapeuta deve tentar dissuadi-lo do ato (com todos os recursos e auxílios possíveis); mesmo que para isso tenha que anunciar ao paciente que o sigilo profissional será quebrado em respeito ao direito natural (direito à vida). Reparem que isso traz consequências de grande magnitude: o risco do paciente voltar-se contra o terapeuta, ou ainda a possibilidade de ele acusar o terapeuta de calúnia e difamação (caso não venha a cometer o ilícito).

Quando o caso não tem cura

 

Uma medida preventiva de grande serventia e que também deve ser adotada por todos aqueles que lidam com pacientes antissociais, ou mesmo aqueles com riscos de condutas parassuicidas e/ou suicidas, é anunciar ao cliente no estabelecimento do contrato terapêutico (nas sessões iniciais) que, caso ele (o profissional) perceba elevado risco de alguma ação contra a vida do paciente ou a vida de outro(s), terá de utilizar de todos os recursos para evitar isso, inclusive sendo a única situação em que o sigilo poderá ser quebrado. Há defensores e opositores a essa medida. Os opositores dizem que tal anúncio levará o paciente a restringir a informação. Isso pode até ocorrer, mas é imprescindível que o paciente compreenda que o psicoterapeuta é um ser humano que está ali para ajudá-lo a evoluir e a aprender estratégias mais adaptativas para lidar com o sofrimento inerente ao viver. Mas que, ao mesmo tempo, esse mesmo terapeuta tem direitos e deveres e não deve assumir uma condição de cúmplice em comportamentos que vão no sentido oposto à saúde mental.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 128

Adaptado do texto “Sob o fio da navalha”

*Ricardo Wainer é doutor em Psicologia, especialista em Terapia do Esquema, com treinamento avançado pelo New York Schema Institute, e supervisor credenciado pela International Society of Schema Therapy. Pesquisador em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental e em Ciências Cognitivas. Professor titular da Faculdade de Psicologia da PUC–RS. Diretor da Wainer Psicologia Cognitiva.