Sabia que temos um segundo cérebro? Entenda

Por Marco Callegaro | Foto: Shutterstock

Uma área de pesquisa promissora em Neurociências é o estudo da sinalização entre o trato gastrointestinal e o cérebro, pois está ficando cada vez mais claro que existe uma comunicação bidirecional, que é regulada tanto em nível neural e hormonal quanto imunológico. Esse conceito é conhecido como “eixo cérebro-intestino”, um sistema vital para a homeostase, que se reflete em saúde e em doença, dependendo do tipo de colonização das bactérias que vivem no microbioma do intestino.

 

 

 

A microbiota do intestino tem papel importante na regulação do neurotransmissor serotonina, que é chave para modular a resposta ao estresse, afetando a cognição, o comportamento e o humor do indivíduo. Recentes investigações demonstraram que algumas formulações de probióticos têm produzido efeitos psicológicos positivos em populações de sujeitos saudáveis, produzindo mudanças na atividade cerebral verificada em estudos de neuroimagem. A barreira mucosa intestinal, uma espécie de camada protetora que recobre o intestino, pode estar alterada em certas condições psiquiátricas. O termo usado pelos pesquisadores, em inglês, para descrever essa falha na integridade da barreira intestinal é leaky gut, ou intestino vazado. Ou seja, o intestino fica com pequenos furos, que permitem a passagem de bactérias nocivas, e estas causam potentes processos inflamatórios e reações imunes. Na depressão crônica, por exemplo, encontra-se aumentada a proporção de enterobactérias gram-negativas, e isso induz uma resposta autoimune relacionada à serotonina, que leva à fadiga e depressão. Os pesquisadores desenvolveram modelos animais de estudo, e verificaram um aumento da depressão quando administraram essas bactérias nocivas nos animais de laboratório. O mais interessante é que a depressão induzida pelas bactérias negativas pode ser revertida com uso de probióticos, os compostos concentrados em bactérias “amigas”.

 

Desta forma, fica clara a importância de uma microbiota saudável e de uma barreira intestinal preservada para a saúde mental e para o adequado funcionamento do cérebro. Para cuidar da complexa flora intestinal e da permeabilidade do intestino, a dica é redução do estresse e do uso indiscriminado de antibióticos, mas, além disso, consumir uma dieta rica em fibras e baixa em gorduras saturadas e carboidratos refinados. O consumo de fibras promove um aumento de bactérias amigas e inibe a proliferação das bactérias nocivas, alterando o equilíbrio entre a saúde e a doença. Enquanto uma dieta rica em gordura e carboidratos refinados aumenta os furos na permeabilidade do intestino e processos inflamatórios, a adoção de uma dieta semelhante à mediterrânea, com vegetais e frutas, pode promover mudanças importantes na composição da microbiota e síntese de substâncias anti-inflamatórias, que garantem a saúde do indivíduo.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 109

Adaptado do texto “O incrível eixo intestino-cérebro”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências revolucionaram o modelo do processamento mental (Artmed, 2011)