Reflexão sobre aniversários

Mesmo entre aqueles que não apreciam, completar mais um aniversário pode ser um importante exercício de Psicologia Positiva

Por Lilian Graziano* | Foto: Wikimedia Commons/Joey Gannon  | Adaptação web Caroline Svitras

Era importante acordar cedo. Aproveitar cada minuto do dia como quem sorve o doce predileto a pequenas colheradas. Deixar-se despertar pelos aromas festivos que se espalhavam da cozinha por toda a casa, revogando o caráter corriqueiro do dia. O pernil assado desde cedo, o bolo prestígio, a carne desfiada, os pasteizinhos da vovó… O cheiro de festa começava como uma mistura de forno e fogão até se misturar, no início da noite, aos perfumes dos avós, das tias e das crianças penteadas, correndo pelo quintal. E era tudo por minha causa!

 

Nunca houve buffet infantil, decoração de princesa, lembrancinhas para os convidados. Ainda assim, eu me sentia uma rainha. Apesar da vida modesta, os aniversários da minha infância eram sagrados, o que me ensinou a perceber não apenas a importância da celebração, mas, sobretudo, a importância de mim mesma.

 

Sendo assim, meus aniversários passaram a significar algo muito além da simples repetição do dia e mês do meu nascimento. Até porque a história não começa por aí. Assim como você, caro leitor, cada um de nós nasce vencedor, na medida em que derrotamos cerca de 300 milhões de concorrentes. Somos o espermatozoide vencedor e essa já é, no mínimo, uma boa razão para comemorar.

 

É por isso que vejo como inspirador o fato de estar escrevendo este texto às vésperas do meu próprio aniversário (que normalmente tem a efêmera duração de uma semana). É preciso tempo para o devido savoring que a data exige. Comemorar com a família, amigos, os outros amigos que não puderam vir naquele dia, com os leitores da coluna, comigo mesma. Comemorar meu aniversário sozinha é de lei. Sentar-me em um restaurante especial, pensar no ano que passou, fazer um brinde a mim mesma e agradecer. Nesta época, soprar velas e fazer brindes é para mim um ritual de agradecimento.

 

Há quem discorde, como Rubem Alves, para quem “a celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festa de aniversário. Se uma vela acesa é símbolo de vida, uma vez apagada ela se torna símbolo de morte”.

 

Penso diferente. Embora no meu aniversário eu também observe o “tempo que deixou de ser”, olho para ele com profunda gratidão, sentindo-me conectada a todos aqueles que dele participaram e satisfeita comigo mesma por não ter permitido que ele passasse inutilmente. Talvez essa seja a chave para se comemorar o aniversário com alegria: ser capaz de olhar para o passado com gratidão. Afinal de contas, a marca do tempo correndo só incomoda aqueles que se recusam a vivê-lo intensamente.

 

Mas o significado do aniversário pode ir ainda mais longe. Pode ser um marco a nos avisar sobre a brevidade do tempo, a urgência do agora e, sem dúvida, sobre a importância de sermos felizes sem adiamentos.

 

Ao que parece, aniversários são feitos do mesmo tecido da Psicologia Positiva, daí a importância que podem assumir em seu projeto pessoal de felicidade.

 

Nesse sentido, termino este texto fazendo minhas as palavras da revista Nat Geo: “Ao nascer você dividirá seu aniversário com mais de 17 milhões de pessoas. Durante seus 10 anos na escola, você terá uma média de 17 amigos, quando chegar aos 40 anos esse número terá diminuído para 2. Em seu corpo crescerão 950 km de pêlo. Você rirá uma média de 18 vezes por dia e andará o equivalente a 3 voltas ao mundo, comerá 30 toneladas de alimentos. Beberá mais de 9 mil xícaras de café e terá uma oportunidade em dez de ser eletrocutado. Em média, você passará 10 anos de sua vida no trabalho, 20 anos dormindo, 3 anos sentado no vaso sanitário, 7 meses esperando no trânsito e 2 meses e meio esperando no telefone. Passará 12 anos assistindo televisão e 19 dias procurando o controle remoto, após o que só lhe restará um quinto de sua vida pra ser vivida. Portanto, é melhor começar logo!”

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 90

Adaptado do texto “Aniversário”

*Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.