Redes sociais: o espelho do adoecimento

Atualmente é praticamente impossível refletirmos a relação humana distante do âmbito da cibercultura, pois o que antes era considerado possibilidade de conexões, agora é a estrutura de sociedade na qual estamos mergulhados

Por Igor Lins Lemos*  |Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Redes sociais. O que pode ser compreendido em relação a essas duas palavras? O primeiro pensamento que possivelmente surge na mente do leitor é a relação com a internet. Instagram. WhatsApp. Facebook. Essas três redes sociais, cujo dono é o mesmo, são as principais mencionadas nos consultórios de Psicologia. Porém existem diversas outras que crescem constantemente em diversos campos: música, fotografia, empreendedorismo, trânsito, dentre outras. Porém, qual o papel dessas redes? E quais as preocupações da Psicologia Clínica em relação a elas?

 

Inicialmente é relevante mencionar que cada vez mais evidências na literatura científica demonstram que o mau uso desses recursos tecnológicos está atrelado ao campo psicopatológico, especialmente no grupo de adolescentes. A grande parcela dos pacientes que chegam aos consultórios de psicoterapeutas, com a queixa inicial relacionada ao uso de tecnologia, apresenta problemas vinculados ao excesso na utilização de redes sociais. Considera-se que essas redes são indispensáveis, porém, além do uso excessivo, muitas vezes esses jovens utilizam diversas redes sociais de forma simultânea. Estudo realizado em Hong Kong com 384 estudantes demonstrou essa relação problemática entre redes sociais e desempenho acadêmico (Lau, 2017). Nessa pesquisa foi demonstrado que utilizar as redes sociais para fins acadêmicos não causa prejuízos nas notas, mas usá-las para outros fins está diretamente relacionado a um mau desempenho acadêmico. A grande questão é: qual é o quantitativo, no Brasil, de jovens que utilizam essas redes para a aprendizagem e quantos as usam como diversão ou escapismo de problemas do cotidiano? Utilizando a experiência de consultório, os dados seriam inevitavelmente trágicos.

 

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Outro estudo relacionado ao uso das redes sociais verificou, em uma amostra de 253 estudantes que utilizam Instagram e Snapchat, que os usuários que mais usufruem dessas redes apresentam sintomas mais predominantes de solidão (Pittman, M.; Reich, B., 2016). Esse tipo de informação ressalta aquilo que constantemente é mencionado nesta coluna: a nova configuração social de pessoas que estão se transformando em ilhas. Essa informação é preocupante, pois em alguns momentos a impressão que fica é que mesmo conscientes das problemáticas relacionadas a esse uso nocivo, os jovens ainda não estão considerando mudar suas atitudes, comumente justificando com os pensamentos a seguir: “meus colegas fazem o mesmo”, “não terei um mau desempenho acadêmico devido ao uso das redes sociais”, “não há nada mais interessante para fazer” ou “se eu não ficar nas redes sociais estarei desligado do mundo”. Apesar do crescente número de estudos que sugerem uma reflexão sobre o tema, ainda não é perceptível uma real mudança nesse uso excessivo de tecnologia. Dessa forma, surge uma pergunta: qual seria a melhor estratégia para reverter esse comportamento disfuncional? A resposta mais óbvia pode ser a psicoterapia, porém nem todos conseguem alcançar os consultórios, o que é preocupante.

 

Pesquisadores sugerem que com o aumento de tempo despendido nas redes sociais há, concomitantemente, um aumento da ocorrência de transtorno depressivo maior e ansiedade nessa população (Primack et al., 2017). As checagens constantes e o usufruto relacionado ao escapismo, associados a uma autoestima comprometida, são os fatores etiológicos mais discutidos. Os autores desse estudo afirmam que quanto mais redes sociais os participantes possuem, maior o nível de ansiedade; alguns utilizam ao menos onze redes distintas, o que é um número expressivo. Preocupados com esse fenômeno, pesquisadores desenvolveram a The Social Media Disorder Scale, um instrumento de mensuração de uso patológico de redes sociais (Eijnden, R. J. J. M.; Lemmens, J. S.; Valkenburg, P. M., 2016). Essa escala de nove itens foi testada em uma amostra de 2.198 adolescentes holandeses, entre 10 e 17 anos, apresentando uma validade estrutural sólida, consistência interna adequada e boa estabilidade no teste-reteste. Instrumentos relacionados a esse fenômeno são úteis na avaliação de pacientes que chegam em consultório com essa queixa.

 

Por fim, deixo algumas questões para reflexão: como está o seu uso de redes sociais? É perceptível um aumento na utilização? Existe, na sua opinião, algum tipo de situação de que tenta escapar através do uso dessas redes? O primeiro ponto para a modificação de padrões cognitivos disfuncionais é estar ciente deles.

 

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Psique Ciência & Vida Ed. 136

Adaptado do texto “Redes sociais: espelho do adoecimento”

*Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com