Realidade virtual e peso corporal

Técnicas de terapia virtual podem ajudar no tratamento dos transtornos alimentares, que vão além das significativas alterações metabólicas e afetam o campo cognitivo

Por Igor Lins Lemos* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Esse fenômeno notavelmente circunscrito no âmbito psicopatológico pode provocar significativas modificações no campo cognitivo (forma de pensar a respeito de si), emocional (culpa, tristeza) e comportamental (evitação ou compulsão), ou seja, são distúrbios que modificam a homeostase do sistema neuroendócrino.

 

De acordo com Appolinário e Claudino (2000), as primeiras manifestações sintomatológicas ocorrem na infância e na adolescência. O foco da matéria é nos transtornos alimentares de aparecimento tardio, como a anorexia nervosa e a bulimia nervosa, e, em paralelo, no tema da obesidade. Entretanto, por se tratar de matéria inserida no campo da ciberpsicologia, nesta edição trago a realidade virtual no tratamento dessas problemáticas.

 

Widerhold, Riva e Gutiérrez-Maldonado (2016) apontam que a realidade virtual demonstrou ser, nas duas últimas décadas, uma ferramenta auxiliar útil para a avaliação e tratamento de pacientes com transtornos alimentares e obesidade. O uso da realidade virtual possibilita que o sujeito entre em cenários que simulam as situações da vida real, ajudando-o a, por exemplo, encontrar os gatilhos que o deixam vulnerável ao comportamento inadequado (situações de estresse, uma data especial, uma recompensa por uma meta atingida etc.). Dessa forma, o uso desse recurso gera uma excelente oportunidade para que o indivíduo alcance um nível de consciência maior em relação ao quanto sua percepção da imagem corporal é, na verdade, distorcida, assim como auxiliar o mesmo a corrigir essas distorções. O resultado esperado desse procedimento é possibilitar ao sujeito uma avaliação mais realista de sua imagem corporal.

 

Psiquiatra fala sobre os efeitos dos transtornos alimentares

 

Um estudo conduzido na China por Hsu-Chan, Chun-Chia e Wen-Bin (2016) verificou a tendência que os participantes tinham de postergar um maior benefício (um pedaço de torta, por exemplo) ao invés de um menor benefício (um brigadeiro) de caráter imediato. Esse tipo de “desconto temporal” é fundamental no trabalho à obesidade, e a perda de peso requer do sujeito, em vários momentos, o sacrifício de alguns prazeres cotidianos em benefício de um maior ganho na saúde. Partindo dessa noção, os pesquisadores avaliaram se o fato de os participantes que observaram a sua própria imagem, com menor peso, numa perspectiva virtual, poderia auxiliá-los a não ter lapsos nas refeições ou os famosos “beliscões”. Setenta e seis estudantes que relataram a intenção de perder peso foram recrutados para esse experimento. Os resultados do trabalho demonstraram que os participantes que viram seus avatares (personagens virtuais) com peso reduzido tomaram menos sorvete no pós-teste e tinham maior tendência a escolher bebidas sem açúcar como recompensa. Dessa forma, a pesquisa sugere que imagens geradas por computadores podem auxiliar indivíduos com transtornos alimentares (por exemplo, transtorno de compulsão alimentar periódico) a reduzir comportamentos impulsivos.

 

Wiederhold, Riva e Gutiérrez-Maldonado (2016) citam um estudo realizado com 18 pacientes diagnosticados com anorexia nervosa ou bulimia nervosa. A amostra foi dividida em dois grupos: o primeiro foi submetido à terapia cognitivo-comportamental e realidade virtual e o segundo grupo à terapia cognitivo-comportamental e técnicas de relaxamento. Dos pacientes que completaram o tratamento foi observada melhora significativa em todos, porém aqueles que utilizaram a terapia associada à realidade virtual apresentaram uma evolução ainda maior, especialmente na sua avaliação da autoimagem e outras variáveis (maior nível de satisfação com seu corpo em situações sociais, menor número de pensamentos negativos, menor medo em relação ao seu peso e menor receio de alcançar um peso saudável).

 

Indiscutivelmente a realidade virtual (terapia virtual ou outros modelos) demonstra uma importante evolução no tratamento de diversos tipos de queixas. Em uma sociedade em que as informações em relação à alimentação e outros tipos de prazeres são constantemente disseminadas pela mídia, é interessante haver uma força, também virtual, mas de oposição: aquela que busca auxiliar os sujeitos a uma vida mais saudável. O futuro dos modelos psicoterapêuticos certamente estará atrelado à tecnologia. Estamos apenas nos primeiros passos (com bons resultados) dessa empreitada.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 125

Adaptado do texto “Realidade virtual e peso corporal”

*Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com