Psiquiatra explica o caso da família Pesseghini

Muitos estão incrédulos diante da perspectiva de o menor ser autor da chacina da qual também foi vítima, mas o delírio sistematizado explica o crime

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: Divulgação | Adaptação web Caroline Svitras

Marcelo tinha apenas 13 anos, com boa aparência, filho de pais zelosos. Era bom aluno, acima da média, e nunca revelara qualquer anormalidade mental digna de ser observada pelas pessoas com as quais convivia. Além disso, padecia de fibrose cística, doença degenerativa que não ataca diretamente o cérebro nem a psique.

 

Alguns afirmaram que era impossível um rapaz, praticamente impúbere, ter atirado com pistola calibre 40 (pois a arma dá forte tranco) e ser tão preciso na execução do poliassassinato e suicídio.

 

Diante de um crime, seja qual for o teor, o primeiro princípio em Psiquiatria Forense é examinar a morfologia do ato que é, sem exceção, uma fotografia exata e em cores do comportamento do indivíduo: fez isso, fez aquilo, ou não fez nem isso nem aquilo. De posse dessa “foto”, estamos diante de certos dados mentais, porque quem manda no comportamento é o psiquismo.

 

Crianças cruéis

 

Pois bem, dados psíquicos em mãos, aplica-se o segundo princípio da Psiquiatria Forense: ver se o ato praticado é ou não compreensível psicologicamente. Por exemplo, uma pessoa é ofendida e ofende; leva um soco e dá um soco; está sem dinheiro e furta a carteira de alguém. São todos comportamentos explicáveis, ainda que condenáveis moralmente. Agora, se um indivíduo saca uma metralhadora, descarrega-a dentro de uma sala de cinema escura e mata pessoas com as quais nunca antes se desaviera e é presa, sem resistência, esse comportamento é incompreensível psicologicamente. Ou seja: apenas vamos entender o crime se admitirmos que quem o praticou tem alguma anormalidade mental. O que vale dizer que o crime somente é explicável pela psicopatologia. Ou admitimos que houve transtorno mental ou não vamos compreender a ação.

 

E esta é a razão pela qual muitos não aceitam Marcelo como autor da chacina, pois tentam compreender o seu comportamento pela normalidade mental, e com certo grau de razão, pois a todos este parecia um indivíduo normal. Porém, na realidade, a explicação é psicopatológica. Isso significa que se colocarmos o elemento doença mental à época dos fatos tudo se torna absolutamente claro e adequado.

 

E foi o que ocorreu no caso de Marcelo. Ele vinha desenvolvendo, desde o primeiro trimestre deste ano, um delírio sistematizado, descrito pela primeira vez em 1838, por Jean-Ettiene Dominique Esquirol (1772-1840), com o nome de monomania.

 

Trata-se de quadro clínico interessantíssimo, porque preserva a mente quanto à consciência da realidade exterior, exceto no que diz respeito diretamente ao tema mórbido delirante.

 

Para compreender melhor o que é delírio sistematizado, vamos usar como analogia a questão do ciúmes: existem aqueles que veem a mulher se maquiar para ir à padaria e acham que ela quer sair com o padeiro. Ou ainda, se o homem voltar para casa com a roupa amassada, é o quanto basta como prova de traição. Isso se exacerba de tal maneira que pode, sim, tornar-se delírio. Porém, esse doente trabalha, vai à escola, ao médico e age normalmente.

 

Ninguém nota nada, salvo se lhe tocarem o ponto, como dizer: “eu vi a sua mulher” ou “como vai o seu marido?”. É quando, então, tudo estala e se deforma. Resumidamente, a monomania de Esquirol, o delírio sistematizado, é encapsulado, circunscrito e invisível se nele não se tocar. O quadro clínico de Marcelo se desenvolveu e foi muito ricamente adornado nos detalhes.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 94

Adaptado do texto “O caso Marcelinho”

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.