Por que devemos valorizar os parquinhos para crianças?

Espaços públicos que promovem a socialização e o desenvolvimento de funções fundamentais para a saúde mental das crianças deveriam receber mais atenção e mais investimentos das autoridades brasileiras

Por Michele Muller* | Fotos: Michele Muller | Adaptação web Caroline Svitras

 

Uma pesquisa recente com 2 mil famílias inglesas constatou que três em cada quatro crianças passam menos de uma hora diária brincando em ambiente externo – um tempo menor de contato com luz solar que o garantido a detentos das prisões daquele país. A realidade das nossas crianças que vivem nas cidades grandes não deve ser diferente. E aqui há um agravante: temos menos alternativas interessantes de ambientes destinados a brincadeiras ao ar livre. A maioria dos nossos playgrounds públicos têm duas ou três atrações, não raramente mal conservadas. A arquitetura nos surpreende com tantas soluções belas e funcionais, mas até agora pouco trouxe para concorrer com os inevitáveis escorregadores e balanços das praças brasileiras. Sem questionar a diversão que podem propiciar, sozinhos eles não representam um grande motivador para tirar pais e filhos de casa.

 

Além de serem impedidas de brincar livremente, como resultado de vários tipos de medo que as cidades grandes nos impõem, as crianças perderam a confiança de seus pais. Em algum momento da história recente colocaram uma lente de aumento nas pequenas ameaças do dia a dia e resolveram que crianças são totalmente irresponsáveis e desprovidas de noção de perigo.

 

Um dos fatores que mais pesam no estilo de vida das crianças modernas – seja na Inglaterra ou aqui – acabou influenciando a criação dos espaços contemporâneos de brincadeira. Afinal, algumas sociedades, especialmente a americana, vivem sob ameaça constante de processos, e qualquer atividade que envolva o público infantil corre sério risco de gerar insatisfações com consequências legais.

 

Os medos e ansiedades dos adultos, desproporcionais aos verdadeiros riscos que a realidade traz, desconsideram a natureza da criança e mais prejudicam que protegem. O perigo, em pequenas doses diárias, é parte fundamental das brincadeiras. Filhotes de espécies mais evoluídas se divertem correndo riscos, testando seu próprio comportamento diante de situações perigosas simuladas nas pequenas lutas e aventuras de sua curta infância. E isso não ocorre por acaso, nem representa irresponsabilidade ou falta de noção, como muitos pais de filhotes humanos acreditam. É parte do crescimento, do autoconhecimento e do conhecimento dos limites do corpo e das necessidades do outro. A vida é cheia de riscos e a infância é a fase de treinamento para reais dilemas que requerem segurança na hora de agir. Crianças privadas do contato com o perigo crescem sem coragem, dependentes, com altos níveis de ansiedade e sem noção de como lidar com situações sociais simples que não poderão ser evitadas pelos pais mais tarde.

 

Portanto, além de modernos, criativos e cheios de estímulos, muitos playgrounds contemporâneos de países desenvolvidos estão sendo repensados para trazer um certo risco. Ou seja: voltam a ter cantos, pontas, superfícies duras, altura e mais probabilidade de gerarem batidas, quedas e machucados. Os pais excessivamente protetores terão que rever seus conceitos e entender por que as ataduras do Menino Maluquinho foram essenciais para a formação de um jovem feliz e bem resolvido, conforme Ziraldo concluiu a história.

 

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 126

Adaptado do texto “Playgrounds são assunto sério”

*Michele Muller é jornalista com especialização em Neurociência Cognitiva e autora do blog http://neurocienciasesaude.blogspot.com.br