Por que alguns têm gosto por tragédias?

Fascinadas pelos acontecimentos trágicos, muitas pessoas não se dão conta de sua contribuição para a mesma mídia sensacionalista que costumam condenar

Por Lilian Graziano* | Foto: Wikimedia Commons | Adaptação web Caroline Svitras

Nem toda a Psicologia Positiva do mundo conseguiria evitar esse clima de tristeza, gerado pela perda das mais de 200 vidas no incêndio na cidade gaúcha de Santa Maria.

 

Como ser humano, solidarizo-me em relação às vítimas e aos seus amigos e familiares. Contudo, é como mãe que chego a sentir uma dor quase palpável, possível, apenas, porque consigo me colocar no lugar daquelas famílias que perderam seus jovens filhos da forma sempre estúpida com que a vida rouba os filhos dos pais.

 

Dizer que o luto é inevitável pode parecer prolixo ao leitor menos acostumado às leituras psicológicas. No entanto, minha fala se refere à necessidade imprescindível de que a perda seja emocionalmente elaborada, o que, infelizmente, nem sempre ocorre quando se perde um ente querido. Ou seja, nem toda pessoa que perde alguém para a morte consegue passar pelo luto necessário à elaboração psicológica da perda, ainda que, para efeitos sociais, o luto seja uma consequência natural da morte.

 

Nesse sentido, falar sobre o assunto, ouvir condolências e homenagens podem ser muito curativo, o que, nos casos de maior comoção social, pode incluir a ampla cobertura da mídia a reproduzir os detalhes de uma situação que, lentamente, caminha do surreal ao possível, para então se tornar concreta.

 

Além disso, a cobertura da mídia em casos como este pode mesmo servir como um amargo alerta para que situações semelhantes não venham a se repetir, ao menos no que tange ao limitado controle que o homem é capaz de exercer sobre as fatalidades.

 

Isto posto, preciso registrar meu protesto. Minha única dúvida é a quem endereçá-lo: a esta imprensa sensacionalista ou a este sádico público que a alimenta?

 

Incêndio no Edifício Joelma, em 1974. | Foto: Wikipedia

Durante todo o domingo, os meios de comunicação davam detalhes do ocorrido: jornais, televisão, redes sociais. Para onde olhava, detalhes da tragédia me eram transmitidos. Indignada e impotente, me recordo de ter feito uma oração em nome dos mortos e, principalmente, em nome daquelas famílias. Conhecendo a imprensa brasileira, decidi me desconectar dela na segunda-feira, pois creio que até mesmo as grandes tragédias têm seus detalhes sórdidos esgotados ao longo de 48 horas de transmissão. Além disso, ouvir a tragédia repetida nada me traria de bom, nem tão pouco traria de volta aqueles jovens por quem, sinceramente, lamentava.

 

Mas foi ao ligar o rádio na terça-feira pela manhã que senti o gosto amargo do sensacionalismo barato: uma rádio de São Paulo, seguidamente premiada pela qualidade de sua programação, estava entrevistando as vítimas não do incêndio da boate em Santa Maria, mas nada mais nada menos do que os sobreviventes do edifício Joelma, incendiado em São Paulo em 1974! Mas não era só isso. Vítimas do edifício Andraus, incendiado em 1972, e do incêndio do Gran Circus no Rio de Janeiro, este, pasmem, ocorrido em 1961, também tiveram reeditados seus (perversos) cinco minutos de fama ao descreverem os detalhes macabros da agonia que viveram.

 

Tentei sintonizar outra estação, mas a tragédia gaúcha ainda era pauta nacional. Voltei à rádio anterior, na esperança de que o show de horror houvesse terminado, quando ouvi o locutor dizer que voltariam dentro de instantes (afinal, nenhuma “homenagem” é mais solene do que os comerciais), entrevistando outras vítimas de incêndios ocorridos há mais de 40 anos.

 

O que está acontecendo com a nossa sociedade?

Dados da Organização Mundial da Saúde estimam que haja cerca de 350 milhões de pessoas deprimidas no mundo. Teria a nossa imprensa alguma responsabilidade sobre isso? Acredito que sim. Tanto quanto aqueles que lhe dão ibope.

 

Uma sociedade que faz tanto patrulhamento em relação ao McDonald’s e à sua participação no aumento da obesidade no mundo deveria estar mais atenta àquilo que sua imprensa empurra goela abaixo das pessoas, intoxicando-as com emoções negativas e, mais do que isso, inúteis, por estarem fora do contexto em que seriam necessárias.

 

A equação delicada se completa quando nos damos conta de que tal imprensa não existiria se não fosse alimentada pela morbidez de uma sociedade que cultua a tragédia. Em resumo, de uma sociedade que engole Big Macs com o mesmo prazer com que degusta desgraças.

 

É fato que fomos evolutivamente dotados de um talento especial para identificar os eventos negativos. Gosto de lembrar que devo ao meu pessimista ancestral primitivo o fato de poder estar aqui, hoje, estudando Psicologia Positiva. Contudo, após milhares de anos, características que nos mantiveram vivos no passado não garantirão nossa sobrevivência no futuro.

 

Nós estamos adoecendo. E é preciso que façamos alguma coisa em contrário. Ainda que seja, simplesmente, desligar a televisão.

 

Revista Psique Ciêcia & Vida Ed. 87

Adaptado do texto “O gosto pela tragédia”

*Lilian Graziano é psicóloga e doutora em Psicologia pela USP, com curso de extensão em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. É professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, onde oferece atendimento clínico, consultoria empresarial e cursos na área.