Pesquisa revela que prática sexual é fundamental para a saúde do cérebro

Pesquisas comprovam a importância de uma atividade sexual prazerosa e creditam à prática a propriedade de preservar e estimular a massa encefálica, além de reconhecer o cérebro como o mais importante dos órgãos sexuais

Por Carmita Abdo* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A Universidade de Stanford divulgou, há alguns anos, a observação de que uma excelente medida adotada pelos homens, em prol de sua saúde, é o casamento, visto que ele aumenta a longevidade e o bem-estar masculinos. Homens se casam sem atinar para isto, mas as estatísticas apontam os casados como mais longevos e mais “de bem com a vida”. Surpreendentemente, não se observa o mesmo entre as mulheres: elas se beneficiam a partir dos relacionamentos com suas amigas, da mesma forma que com a prática sistemática de atividade física, mais do que por meio do casamento.

 

Os estudos demonstraram, ainda, que homens e mulheres se vinculam de maneira diferente e que, para elas, o apoio mútuo aumenta a capacidade de enfrentar situações estressantes do dia a dia. Isso porque as mulheres tendem a compartilhar seus sentimentos, o que facilita a liberação do neurotransmissor serotonina, gerando sensação de bem-estar e combatendo a depressão. Em contrapartida, os homens raramente trocam ideias sobre sentimentos ou vida pessoal. Preferem comentar a respeito de trabalho, esportes, carros e/ou mulheres. Esses estudos comprovaram que a ausência de relacionamentos de qualidade prejudica a saúde física de homens e mulheres, tanto quanto o cigarro.

 

Dor durante relações sexuais em homens pode ter causas emocionais

 

Pesquisas mais recentes atribuem à atividade sexual prazerosa a propriedade de preservar e estimular a massa encefálica, e reconhecem o cérebro como o mais importante dos órgãos sexuais. Dentre os que estudaram esta associação estão os pesquisadores da Universidade de Princeton (Estados Unidos), que publicaram, em 2012, um artigo, no qual apontam o estresse e a depressão como fatores de deterioração das células cerebrais, enquanto a prática sexual estimularia o incremento neuronal e diminuiria a ansiedade. A importância da ocitocina (substância que promove a lactação e o vínculo afetivo) também foi relacionada ao crescimento neuronal e à proteção do hipocampo contra o estresse.

 

Estes mesmos cientistas demonstraram, em 2013, que a atividade sexual persistente favorece a neurogênese no hipocampo de ratos. Sendo o hipocampo a área cerebral que responde pela função cognitiva (aprendizado e memória), a prática sexual ajudaria a preservar a cognição nesses animais.

 

Em 2006, pesquisadores italianos já haviam comparado três grupos de indivíduos, em situações relacionais diferentes: os recém-apaixonados, os parceiros de longa data e os sem parceiros. Esses autores identificaram que os apaixonados têm níveis sanguíneos mais elevados do fator de crescimento neuronal (NGF), uma neurotrofina específica, reconhecida como potencial mediadora de emoções, ansiedade e  alterações de comportamento, bem como da manutenção e maturação dos neurônios nos sistemas nervoso central e periférico.

 

Há cerca de dois anos, pesquisadores da Universidade de Stony Brook avaliaram as áreas cerebrais mais ativadas em casais, que continuavam apaixonados e com vida sexual ativa, após duas décadas de relacionamento, com média de duas relações sexuais por semana. Ressonância magnética funcional (exame que visualiza o fluxo sanguíneo no cérebro para detectar áreas em atividade) foi utilizada, enquanto os parceiros sexuais eram estimulados pela projeção de imagens de amigos recentes ou antigos e dos respectivos cônjuges.

 

Qual o propósito do amor nas nossas vidas? Entenda

 

Este exame evidenciou que as áreas tegmentar ventral e estriado dorsal são, especialmente, ativadas diante da imagem do(a) parceiro(a). Já se sabia que esses mesmos sítios, onde é grande a concentração de dopamina (neurotransmissor associado à recompensa e à motivação), são estimulados em recém-apaixonados. Naqueles com relacionamentos longos foi detectada, também, maior ativação em áreas associadas ao vínculo maternal e à afinidade com o parceiro. A frequência sexual correlacionou-se à atividade em regiões ligadas ao desejo, ou seja, hipotálamo e hipocampo posterior.

 

É possível afirmar, portanto, que o cérebro se beneficia e se estimula em decorrência da prática sexual, do mesmo modo que a paixão responde pela sensação de bem-estar, sensação esta que, por seu turno, emana das áreas cerebrais que a própria paixão preserva e incentiva.

 

Confirmada pela Ciência a importância da prática sexual satisfatória para a preservação da saúde do cérebro, vale agora refletir – com base em dados de pesquisas sobre comportamento sexual, as quais desenvolvi na última década – sobre o quanto cada brasileiro(a), das diferentes faixas etárias, está cuidando da saúde de seu cérebro.

 

O Mosaico Brasil, por exemplo, estudo que coordenei em 2008 (e que avaliou milhares de homens e mulheres), encontrou 95,4% deles e 93,3% delas sexualmente ativos, na faixa de 26 a 40 anos de idade. A partir dos 40 anos, a atividade sexual apresenta declínio importante entre as mulheres. Entre os homens essa atividade se mantém relativamente estável, mesmo nessa fase da vida e, só mais tarde, declina gradualmente. Em geral, a frequência tende a ser menor e as práticas sexuais mais discretas para ambos os sexos, com o avançar da idade.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 93

Adaptado do texto “Sexo e saúde do cérebro”

*Carmita Abdo é psiquiatra, professora do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).  Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.