Perversidade sem cura

Inclinações nativas do ser humano estão expressas em três instintos: o de conservação, o de reprodução e o de associação, exatamente nesta ordem

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Viver, reproduzir e associar-se são três inclinações nativas, constitucionais, orientadas no sentido da perpetuação do indivíduo e da espécie. Estão expressas em três instintos: o instinto de conservação, pessoal e egoísta, que se refere à vida individual; o de reprodução, sexual, genésico, que se relaciona à vida da espécie; e o de associação, coletivo, altruísta, relativo à vida social.

 

É fato que esses três instintos não aparecem simultaneamente, mas segundo uma ordem constante: o de conservação em primeiro lugar; depois o de reprodução e, por fim, o de associação. Isso significa que o instinto de associação é o mais recente e, também, em virtude da lei da ontogênese, o mais vulnerável. Sua deficiência ou inversão constitui o fundo mental do perverso, como se verá a seguir.

 

O instinto de associação, a bem ver, tem duas grandes vertentes: o instinto de simpatia, que leva à afinidade moral, por similitude no sentir e no pensar, aproximando duas ou mais pessoas, e o instinto de imitação, que copia certas particularidades comportamentais.

 

Quando o defeito é na vertente instinto de simpatia, gera perversidade por carência de sentimento, por isso o perverso não se liga ao próximo e somente ama a si mesmo. Essa atresia instintiva leva à antiafetividade, que é uma malignidade, a tornar o indivíduo não somente inimigo dos seres vivos (homens e animais), mas também dos seres inanimados, daí resultando vários delitos: roubos, saques, destruições, vandalismos, incêndios voluntários, depredações etc.

 

Convivendo com o perigo

 

Sobre a segunda vertente do instinto de associação, o instinto de imitação, até certo ponto é condição sine qua non da sociabilidade, amadurece com o passar dos anos e é inversamente proporcional à capacidade de entendimento. Quanto mais se entende, menos se imita. Veja-se que as crianças imitam por imitar, pois sua capacidade de entendimento é incompleta, o que também se verifica portadores de deficiência mental, cuja inteligência é pequena, truncada ou nula. Não é novidade que a maioria das crianças e portadores de deficiência mental, como todo o mundo sabe, reproduz e assimila, com facilidade incrível, bons e maus comportamentos, a pronúncia, a língua, os trejeitos e maneirismos das pessoas.

 

 

Assim, entende-se que em casos de crimes perversos ocorre hipodesenvolvimento do instinto de associação, motivo que leva os criminosos a tratar as vítimas tais quais coisas ou objetos, e não como seres humanos iguais a eles. Isso explica, também, por que, muitas vezes, mesmo diante de pessoas indefesas, idosos, crianças e mulheres grávidas, que não os ameaçam em nada, reagem com extrema violência, dando tiros na cabeça, ateando fogo em seus corpos, enfim, barbarizando. Nessas condutas não há qualquer ressonância afetiva às vítimas, não há instinto de simpatia nem de imitação no sentido elevado e moral, mas tão somente no seu aspecto balordo. É quando se manifesta a malignidade constitucional (essa, sim, ecoada pelos comparsas) e a alta periculosidade latente é colocada em ação. Consequentemente, como não há cura para essa deformidade instintiva, na maioria das vezes inata, tornam-se irrecuperáveis para a vida em sociedade.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 3

Adaptado do texto “Perversidade sem cura”

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.