Perigos da relação amorosa doentia

O comportamento de fixação amorosa é perigoso e precisa de cuidados. Entenda mais sobre as relações doentias!

Por Roberta de Medeiros

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O psiquiatra francês De Clèrambault descreveu o problema como uma síndrome de emoções doentias que passa pelos estágios de esperança, despeito e rancor. A fase de rancor seria a mais importante delas. Após sofrer diversos sinais de rejeição, a pessoa busca se vingar do objeto de seu amor, podendo transferir suas retaliações para terceiros.

Pessoas que alimentam esse tipo de fantasia são reservadas, socialmente inexpressivas; solitárias, muitas são privadas de contato sexual por anos, a maioria ocupa cargos subalternos, e, em muitos casos, são pouco atraentes. Esse perfil pode resultar numa personalidade hipersensível, em desconfiança acentuada ou assumida superioridade em relação aos outros.

Por outro lado, os objetos de amor delirante (na realidade ou em fantasia), são sempre superiores em inteligência, posição social, aparência física, autoridade ou uma combinação dessas qualidades. Quase sempre o amor doentio pode ser visto como um meio de proteger o sujeito que o sente contra um profundo e doloroso estado de solidão.

Embora atos físicos ou sexuais sejam incomuns, essas pessoas podem trazer grandes conturbações às suas vítimas. O inconveniente varia de chamadas telefônicas no meio da noite a declarações de amor em ambientes públicos. A pessoa pode desejar ter relações sexuais com o objeto de seu amor delirante. Os homens tendem mais à perseguição do que as mulheres.

Há casos em que o amor fantasioso se desenvolve a partir de um único e específico incidente – o que já é suficiente para que a pessoa se convença do amor que sente por seu objeto. Alimenta-se a crença de que ele iniciou o caso de amor a partir de olhares, mensagens cifradas, mensagens de jornal, de televisão ou até mesmo telepáticas.

A pessoa pode até rejeitar o objeto do seu amor, porém, o aceita e se apaixona por ele de maneira obsessiva. A despeito de vigorosas negações da outra pessoa, a fantasia de estar sendo amado persiste por anos, havendo necessidade de hospitalizações ou de ações legais que impeçam a perseguição da vítima pelo paciente.

O paciente crê no intenso amor que a outra pessoa tem por ele, ao mesmo tempo em que preserva certo senso de inocência ao considerar que o objeto de seu amor jamais será feliz sem a sua companhia.

Quem sofre com esse amor geralmente racionaliza a conduta da pessoa que elege: interpreta as rejeições que sofre como afirmações secretas de amor, testes de fidelidade ou tentativas de despistar outras pessoas de seu “romance”. Pensam que são amados por um bom tempo, quando então renunciam a esse amor para reiniciar suas fantasias com outra pessoa.

Existe um potencial para comportamento violento e vingativo, com taxas de comportamento agressivo chegando a 57% em amostras de homens que foram diagnosticados com esse tipo de problema. Apesar de haver poucos estudos sobre o tema, alguns pesquisadores sugerem que a sua frequência não deva ser considerada tão baixa quanto se acredita.

As causas podem variar. Déficits no funcionamento da visão espacial ou lesões no sistema límbico, particularmente nos lobos temporais, em combinação com experiências amorosas ambivalentes e de isolamento afetivo, poderiam contribuir com as interpretações delirantes. E a falta de flexibilidade cognitiva faria com que esses delírios persistissem.

O sistema límbico medeia a interpretação do ambiente ao acrescentar uma resposta afetiva aos estímulos externos. Assim, interpretações inadequadas do meio poderiam ser causadas por anormalidades límbicas. O conteúdo específico do delírio, entretanto, seria determinado pela cultura e pelas experiências pessoais de cada paciente.

O desenvolvimento dos delírios pode originar-se de percepção ou interpretação anormais do meio, mas a manutenção de uma crença delirante, em face de informações distorcidas, tem sido atribuída a um funcionamento deficiente do sistema frontal. O lobo pré-frontal desempenha um importante papel nos testes de realidade.

Um fator que pode contribuir para a manutenção dos delírios é a rigidez cognitiva, surgida de disfunção frontal subcortical, a que pode resultar numa dificuldade em alterar determinado sistema de crenças. Disfunções nessas mesmas áreas têm sido associadas a outros tipos de delírios. Também ficou constatado que pessoas que sofriam com esse problema tinham um comprometimento maior do hemisfério cerebral direito.

A integridade dessas funções é crítica para o reconhecimento das interpretações delirantes, que ocorrem, com maior probabilidade, em pacientes privados de relacionamentos íntimos, porém, altamente motivados a tais experiências. Esse desejo por relacionamento pode ser contrabalançado por temores de rejeição e de intimidade.

O amor patológico é perigoso e necessita de tratamento psicológico e muitas vezes medicamentoso. Fique alerta.

**Conteúdo adaptado do texto “Delírios da paixão”

Revista Psique Ed. 128