Oxitocina, confiança e moralidade

Disparada pela confiança, a surpreendente molécula da oxitocina inspira sentimentos de amor e conexão, além de nos impulsionar ao comportamento moral

Por Marco Montarroyos Callegaro* | Fotos: Shuttersotck | Adaptação web Caroline Svitras

A confiança é uma das bases das interações sociais e do comportamento moral. Quando percebemos sinais sociais de que podemos desenvolver uma relação colaborativa, ocorre liberação do neuro-hormônio oxitocina, que acalma e produz uma sensação de conexão empática com o outro. Existe grande densidade de receptores de oxitocina em regiões cerebrais associadas às emoções e aos comportamentos sociais, como a amígdala, o hipotálamo, o bulbo olfativo e o córtex subgenual. Sob ação da oxitocina, “baixamos a guarda”, a pressão arterial diminui, a musculatura relaxa e a ansiedade se reduz, enquanto sentimos um leve calor nas bochechas semelhante ao que associamos com o sexo.

 

Fica fácil de entender esse mecanismo, olhando para a história evolutiva dos seres vivos, da qual fazemos parte. Imagine uma fêmea e um macho, que se encontram na natureza. A resposta de lutar ou fugir teria de ser “desligada” para permitir o acasalamento, caso contrário, não seria possível a aproximação. Quando estamos desconfiados, o sistema nervoso simpático e a adrenalina estimulam a luta e a fuga, desencadeando a raiva e o medo. Já os sinais de confiança ativam um sistema com ação antagônica, chamado de circuito Home, pelo neurocientista Paul Zak (sigla do inglês Human Oxytocin Mediated Empathy), que envolve aumento dos níveis de dopamina e de serotonina, neurotransmissores que reduzem o medo e melhoram o humor.

 

Esses dois sistemas neurais de ações opostas desencadeiam as respostas de luta ou fuga, movidas à adrenalina, ou, se existe confiança, de calma e conexão, acionadas pela oxitocina. Os dois sistemas mediam respostas comportamentais, emocionais e fisiológicas que podem caminhar na direção do estresse ou rumo ao amor. Como esses dois sistemas inibem um ao outro, podemos dizer que o amor intenso pode superar o medo e a raiva, assim como um forte estresse pode soterrar o amor.

 

Nos mares antigos de 700 milhões de anos atrás, o principal hormônio de estresse era a vasotocina, uma molécula composta de nove aminoácidos. Uma mutação em dois aminoácidos deu origem à isotocina, que tem efeito de inibir as reações de luta ou fuga. Depois de centenas de milhões de anos, milhares de novas mutações deram origem à oxitocina, que tem efeito de acalmar ao se ligar em receptores do nervo vago e do coração. Também evoluiu uma molécula “prima”, a vasopressina, que conservou o componente “guarda e defesa” dos filhotes e, mais tarde, dos parceiros monogâmicos.

 

O estudo de duas espécies de roedores, geneticamente muito parecidas, mostrou bem o papel da oxitocina e da vasopressina. Os machos desse pequeno roedor, que vivem na pradaria (Microtus ochrogaster), são fiéis e ótimos pais, enquanto seus primos da montanha (M. Pennsylvanicus) são solitários e infiéis. Descobriu-se que o cérebro dos infiéis tinha receptores de oxitocina e vasopressina distribuídos de forma bem diferente do encontrado nos monogâmicos. Os machos fiéis tinham receptores de vasopressina e as fêmeas, de oxitocina, exatamente na região do sistema de recompensa, acionadas nos machos pela presença da parceira. Nos machos, ainda, ao permanecer com sua parceira, a oxitocina também desencadeava a liberação de dopamina no sistema de recompensa desses roedores, despertando o prazer e levando à repetição da escolha pela monogamia.

 

A evolução da moralidade tem a ver com a confiança, que se estabeleceu primeiro nos vínculos entre parceiros sexuais, depois com os casais e suas crias, e, finalmente, com os parentes e entre os companheiros. A oxitocina nos leva a agir com generosidade, cuidado e preocupação com as pessoas com quem temos vínculos pessoais profundos, ou seja, nos influencia naquilo que podemos chamar de comportamento moral. A empatia despertada pela oxitocina faz florescer a compaixão e a generosidade, estimulando mais confiança e trocas sociais colaborativas, que hoje são ritualizadas e transmitidas pela cultura como moralidade.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 101

Adaptado do texto “Oxitocina, confiança e moralidade”

*Marco Montarroyos Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências revolucionaram o modelo do processamento mental (Artmed, 2011)