O tratamento da loucura no passado

No passado, a loucura era destinada a quem não tinha a razão. Assim, muitos acabaram trancafiados em casas de internamento, junto com prostitutas, doentes venéreos e criminosos de todo o gênero

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Quando o homem se deparou, pela primeira vez, com a loucura chamou-a de possessão demoníaca. Não tinha outra possibilidade. Que dizer diante de algo tão estranho? Os loucos eram logo notados e rejeitados. Ninguém queria o energúmeno (energóumenos, grego, possuído pelo demônio) por perto. Assim, nos recuados tempos, eram escorraçados para fora dos muros das cidades ou embarcados em lúgubres navios, Naus dos Loucos, e despejados em longínquas terras, nas quais ficavam à mercê de si mesmos.

 

Essas naus singraram mares até o século 16. Quem pôs fim à ideia de que a loucura era possessão demoníaca foi Johann Weyer, autor do livro Da ilusão dos demônios (De praestigiis daemonum), em 1563, dizendo que a loucura não era feitiçaria, mas consequência de coisas naturais. Claro que esse é um marco apenas, pois as novas concepções são implantadas aos poucos. Nesse período da história, se o louco não é endemoninhado, o que é então?

 

A loucura se tornou o não ser da razão. Ou seja: uma exclui a outra, se identificam e se isolam. Como resultado prático, somente há a loucura, porque existe a razão e quem não a possui, o louco, precisa ser separado dos normais. Alguns eram tidos como insubordinados ao trabalho e perturbadores da ordem pública. Por isso, muitos acabaram trancafiados em casas de internamento, junto com prostitutas, doentes venéreos e criminosos de todo o gênero.

 

Os doentes mentais somente seriam separados das outras figuras da miséria, depois de mais de dois séculos, por Philippe Pinel, ao introduzir, a partir de 1793, a função médica no Hospício de Bicêtre, em Paris, culminando com a liberação de oitenta alienados mentais, que lá se encontravam acorrentados, alguns há muitos anos. Porém, melhor sorte não tiveram, pois eram tratados de várias maneiras, todas bizarras.

 

No início do século XIX, propunha-se aplicar aos insanos choques sensoriais intensos, como estrondos e sustos; usava-se sangrias por meio de sanguessugas, além de purgantes e de uma engenhoca giratória, inventada em 1805, por Benjamin Rush, chamada gyrater. O doente ficava amarrado à cadeira e esta presa por um eixo do teto ao chão, que podia ser, por meio de manivela, girada, para provocar convulsões, vômitos, colapso circulatório, visando “reiniciar” o cérebro e as ideias.

 

Usava-se, também, a máscara de Autenrich, de couro, para sufocar os gritos dos agitados; o saco de Horn, feito de tecido grosso e bem encerado, a fim de não entrar luz, no qual encerravam o doente. Quando era possível, aplicava-se a hidroterapia, mergulhando o paciente em banheira, com água a 35 ºC, com afusões a 10 ºC na cabeça, que se fazia por meio de esponjas. Além disso, se o louco se agitasse, usava-se camisa de força, com mangas sem fim, que se cruzavam na cintura, dando volta ao corpo, amarradas na parte posterior.

 

Porém, dentro desse contexto “terapêutico” unânime em todo o mundo ocidental, desde tempos imemoriais, há uma grande e curiosíssima exceção: a Ville de Fous, a Vila dos Loucos, um dos mais interessantes capítulos da história da loucura, do qual se falará no próximo número.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 109

Adaptado do texto “Psiquiatria antiga”

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.