O diabo está mascarado

Tratadas antigamente como possessões demoníacas, doenças como epilepsia e psicose, entre outras, são alvo de prescrições indiscriminadas de medicamentos

Por Guido Arturo Palomba* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Nos recuados tempos, loucura era possessão demoníaca. Para caracterizá-la, usava-se o nome epilepsia, que vem de epi, acima; lepsis, abater, ou seja, o diabo vinha por cima e tomava o indivíduo. Também era conhecida como mal sagrado, mal demoníaco, mal astral, mal hediondo, mal lunático.

 

Havia três tipos de possessão diabólica. A completa, quando o indivíduo caía ao solo, contorcendo-se em convulsões e deitando escuma pela boca torcida. Depois, a possessão demoníaca incompleta, quando o diabo adentrava o corpo, apossando-se da mente, a falar coisas absurdas ou incompreensíveis. E o terceiro tipo era reservado ao homem ruim, feiticeiro, bruxo, voltado aos pactos com o anjo decaído. Isso durou até 1563, quando Johann Weyer publicou o livro Da Ilusão dos Demônios, desmistificando a até então crença no diabólico. Claro que até que se compreendesse que a possessão demoníaca completa correspondia à epilepsia neurológica, a incompleta às psicoses e o comportamento desajustado e antissocial aos condutopatas levou vários séculos.

 

A bem ver, o homem do passado aceitava tão bem a feitiçaria quanto o mundo moderno acredita na Ciência. A interpretação demonológica da insanidade mental, à época, era bem articulada e fundamentada, na qual já se esboçavam vários problemas da Psiquiatria contemporânea, tais como as etiologias dos quadros mórbidos, as suas formas clínicas e os métodos de tratar. Mais que isso, manteve-se, por séculos, aceita por sacerdotes, médicos, familiares e pelos próprios pacientes. Somente veio a declinar quando a superstição se tornou excessiva e o homem lançou-se em atos desatinados, a culminar com as epidemias de possessão demoníaca e os desmandos da Inquisição.

 

A Psiquiatria desenvolveu-se como um movimento contra as concepções demonológicas, atingindo o seu ápice no século XX, com os tratadistas, mestres de grande conhecimento prático, teórico e erudição, que edificaram as bases da Psiquiatria. Mas acontece que no final daquele século, início deste, na ambição de tratar o doente mental com remédios, arriscou muito e seduziu-se pelas indústrias farmacêuticas, que são as patrocinadoras indiretas dos famigerados protocolos (em substituição à boa anamnese) e da frouxa Classificação de Doenças (em substituição às nosografias clássicas), a qual tornou os diagnósticos lasseados e flácidos, tais como os abrangentes “espectro bipolar”, “doença de Alzheimer”, “déficit de atenção”, nos quais tudo cabe, a justificar a administração de drogas.

 

Se antigamente o maligno era o diabo, hoje esse é o remédio psiquiátrico, indiscriminadamente receitado, de modo especial os antidepressivos, usados para emagrecer, para engordar, para parar de fumar, para tensão pré-menstrual e para tudo o mais que não seja de resolução rápida e fácil. A mesma fé que os antigos tinham na doutrina da possessão demoníaca, verifica-se nos contemporâneos com os remédios, só que no passado o diabo não usava máscara (feio, chifrudo e de rabo comprido) e hoje vem travestido de pílula da felicidade, de santo salvador, que se vende em farmácia com receita. Saravá!

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 97

Adaptado do texto “O diabo está mascarado”

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.