O cérebro T.R.U.M.P.

Neurociência aponta as características do cérebro associadas com diferentes atitudes na política. Pesquisas defendem a ideia de que muitos problemas políticos atuais derivam de um padrão mental

Por Marco Callegaro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Qual a relação entre a estrutura e função do cérebro e atitudes políticas? Para os neurocientistas Óscar Gonçalves e Paulo Boggio, os conhecimentos atuais em neurociência permitem desenvolver algumas ideias sobre o mindset, ou configuração mental, que está por trás de determinadas atitudes políticas. Gonçalves é pesquisador na Universidade do Minho, em Portugal, e em Harvard, nos EUA, enquanto Boggio está vinculado ao Mackenzie, em São Paulo. Em um artigo brilhante, os neurocientistas defendem a ideia de que muitos problemas na política atual derivam de um padrão mental que descrevem com o uso do acrônimo T.R.U.M.P. Esse padrão envolve o T de Threatening (ameaçador, em língua inglesa), Reactionary (reacionário), U de Unforgiving (sem perdão), M de Machiavellian (maquiavélico) e P de Partisan (partidário).

 

O componente ameaçador dessa mentalidade está ligado ao medo em resposta à ameaça, que é a emoção central no conservadorismo político. O medo prepara o organismo para a efetuação da resposta geral conhecida como “luta ou fuga”. A emoção de medo introduz um viés na atenção que rastreia as potenciais ameaças, deixando o organismo engatilhado para responder com evitação ou ataque, através da ativação da amígdala, que é a central de avaliação de ameaça no cérebro. A amígdala direita fica mais ativada quando o organismo está em modo de luta ou fuga, e essa estrutura está mais presente em políticos conservadores.

 

Já o componente reacionário da mentalidade T.R.U.M.P. está inversamente correlacionado com atitudes como abertura à experiência, tolerância à incerteza e complexidade integrativa. Os indivíduos politicamente conservadores têm menor resposta a estímulos que requerem flexibilidade para mudar padrões habituais de resposta. A região cerebral do cingulado anterior, que é importante para tomada de decisão e escolha entre opções divergentes, se encontra menos ativada nesses indivíduos em resposta a estímulos conflitantes. A configuração mental reacionária envolve menor sensibilidade ao contexto e mais disposição para se fixar em padrões comportamentais rígidos, uma vez que tem menos sensibilidade para reagir a situações novas, ambíguas e complexas.

Desvendando a origem do preconceito racial

 

O componente “sem perdão” do padrão T.R.U.M.P. reflete uma mente dominada por sentimentos e atitudes retaliativas. A vingança está associada a um aumento da atividade da região do estriado ventral, uma área que se ativa com o processamento de recompensas. Indivíduos com a amígdala ativada e radar ligado nas ameaças compensam experimentando maior prazer em vingança e assim ativam mecanismos de recompensa do estriado ventral. Nesse padrão mental existe a liberação de dopamina quando se desforra de um inimigo, produzindo prazer e reforçando negativamente o comportamento vingativo. A atitude vingativa aumenta a percepção de ameaças, levando a um círculo vicioso.

 

O ingrediente do maquiavelismo está relacionado à manipulação dos outros para nutrir o narcisismo. Pessoas maquiavélicas tendem a tirar vantagens de parceiros colaborativos e apresentam um padrão de ativação cerebral, que inibe respostas socioemocionais do córtex pré-frontal do dorso lateral e estimula a utilização de estratégias de competição do giro inferior frontal. Os indivíduos maquiavélicos constantemente perseguem status e riqueza através de ardis e manipulações, sendo colaborativos e habilidosos em tomar vantagens de pessoas vulneráveis. Seu cérebro tende a inibir respostas pró-sociais e ampliar as reações competitivas.

Quer saber mais? Confira o artigo na íntegra. Garanta a sua revista Psique Ciência & Vida Ed. 138 aqui!

Adaptado do texto “O cérebro T.R.U.M.P.”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).