Novos (e vazios) desafios da Psicanálise

Em função da nova realidade social, a prática na clínica aponta para um profissional que não tenha o perfil de dono da verdade, pois a necessidade obriga uma postura interrogativa

Por Roney A. Moraes* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

É inegável a mudança que o tratamento analítico sofreu ao longo dos anos desde sua função pelo pioneirismo de Sigmund Freud. Do início do século XX até hoje, a Psicanálise tem evoluído junto com as necessidades culturais e humanas e de acordo com os novos paradigmas do século XXI.

 

O analista desceu do salto. Não mais lhe cabe exibir o seu pomposo emblema de sujeito do suposto saber, o famoso “s.s.s.” lacaniano. Não é papel do analista ditar a verdade definitiva. Até porque não a possui. Ninguém é dono da razão, mas, sim, cheio de incertezas, e o psicanalista não foge à regra. Hoje, o psicanalista, frente às novas fronteiras clínicas e sociais, deve adotar uma postura interrogativa.

 

Simpatias ou dogmatismo por escolas à parte… Na transmissão, principalmente, tudo pode ser dito, mas nada pode ser afirmado. Sob pena de propor uma psicoterapia “uma”, quando as problematizações são “múltiplas”.

 

É possível ficar à vontade para subverter certas teorias, porque para o filósofo Derrida “escrever é retirar-se. Não para sua tenda para escrever, mas da sua própria escritura. Cair longe da sua linguagem, emancipá-la ou desampará-la, deixá-la caminhar sozinha e desmunida”. E, para isso, os ingredientes, mesmo que aparentemente tabelados, podem cumprir diferentes funções degustativas no paladar de cada leitor. Seja ele analista ou analisando.

 

Quanto aos pacientes, é comum, na clínica de hoje, uma alta incidência de sujeitos com um sentimento de baixa autoestima e toxicomania. Também há os quadros de sujeitos altamente estressados. Contudo, as patologias clássicas também aparecem (neuroses fóbicas, por exemplo). Entretanto, somos tomados a estudar um fenômeno relativamente recente: a patologia do vazio.

 

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman é considerado um dos principais pensadores da modernidade. | Foto: Wikipedia

 

Segundo o psicanalista David E. Zimerman, a queixa inicial desses pacientes postulantes à análise recai frequentemente em uma angústia existencial quanto à validade da existência em si. Zimerman também diz que nos pacientes que sofrem da “patologia do vazio”, o eixo do sofrimento não gira tanto em torno dos clássicos conflitos resultantes do embate entre pulsões e defesas.

 

“O giro se faz predominantemente em torno das carências, provenientes das faltas e falhas que se instalaram nos primórdios do desenvolvimento emocional primitivo e determinaram a formação de vazios no ego, verdadeiros “buracos negros” à espera de serem preenchidos pela figura do psicanalista, o que poderá ser feito por meio de sua função psicanalítica.”

 

Quem procura tratamento psicanalítico, hoje, apresenta, em boa parte, uma tendência para a busca de soluções mais rápidas e, alegando razões econômicas reais – porque de fato o poder aquisitivo baixou –, insiste em ter um menor número de sessões semanais, além de duração mais curta da análise.

 

Adicionada ao sucesso dos medicamentos milagrosos ocorre uma perigosa confusão entre muitos pacientes e psicoterapeutas de outras linhas e métodos teóricos. Alguns, e não me furto em falar de analistas também, agem como se fossem resolver todos os problemas humanos sem encaminhamento para possíveis profissionais mais adequados àquela demanda.

 

 

Patologias

Para David E. Zimerman, na atualidade está sendo bastante valorizado um novo paradigma: os déficits-vazios, ou seja, a formação de verdadeiros “buracos negros” psíquicos decorrentes das falhas primordiais no decurso do desenvolvimento emocional primitivo, do que resulta uma grande demanda de pacientes portadores do que se denomina “patologia do vazio”, os quais, acima de tudo, ficam à espera de que o analista consiga preencher tais vazios.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 131

Adaptado do texto “Novos (e vazios) desafios da Psicanálise”

*Roney A. Moraes é psicanalista; Especialista em Saúde Mental e Dependência Química; Mestre em Filosofia da Religião; Doutor em Psicologia (Dr.h.c); Doutorando em Psicanálise (Phd); Analista Didata da Escola Freudiana de Vitória (Acap); Membro fundador da Associação Psicanalítica do Estado do Espírito Santo (Apees); Coordenador do Centro Reviver de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Crepad); Membro da Academia Cachoeirense de Letras (ACL).