Natascha Kampusch: conheça a história da jovem mantida em cativeiro por 8 anos

Natascha Kampusch relata a experiência na qual passou 3096 dias sequestrada e como lidou com as manifestações da Síndrome de Estocolmo

Por Carlos São Paulo* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Pais separados e em guerra. Natascha Kampusch, austríaca, sofria com isso. As “flechas” atiradas produziam nela angústia e medo. Natascha desejava ter dezoito anos, ser independente, libertar-se desse sofrimento. Embalada por tais desejos, sua mãe deixou-a ir sozinha para a escola. Em seu primeiro dia de liberdade saiu de um lar tenebroso para enfrentar o bullying escolar. Cheia de amarguras e com sua pouca compreensão do mundo, fantasiava ser morta nos trilhos de um bonde elétrico como a exclamar: “Vejam o que vocês fizeram!”. Uma fantasia pode funcionar como antídoto contra o sofrimento da alma. Mas uma dura realidade veio pelas mãos do sequestrador Wolfgang Prkilopil, fazendo-a vivenciar uma experiência como se o chão se abrisse e ela fosse levada para habitar as profundezas da terra. A história dela, narrada no livro Natascha 3096 dias, cumpriu a maldição de fazê-la desaparecer aos dez anos de idade e ressurgir para o mundo dos seus pais, aos dezoitos anos, com independência financeira.

 

Qual o sentido de se viver a puberdade e adolescência em um cativeiro? A garota queria apenas sair da prisão emocional em que vivia. Prkilopil a fez viver em um cativeiro de natureza física, resultado de provável perturbação mental e de uma sociedade em que a polícia age limitada pelas autoridades que dizem a quem e o que investigar. Nesse jogo de estresse físico e mental aos extremos, e, ao lutar por sua integridade, chegou a dizer a frase registrada em seu livro: “Eu ainda era apenas uma criança e precisava do consolo do toque (humano). Então, após alguns meses presa, eu pedi a meu sequestrador que me abraçasse”.

 

Essa experiência de Natascha foi considerada pela mídia como a Síndrome de Estocolmo. Trata-se de um estado psicológico em que o indivíduo, com a integridade física ameaçada por alguém que lhe priva dos direitos humanos, passa a ter simpatia e até mesmo sentimentos de amizade por seu agressor. É a necessidade inconsciente de autopreservação que a faz desejar ser tocada pela mesma mão que a maltrata. Em muitos casamentos, onde não existe o sequestro literal, pode um dos pares viver essa síndrome. É quando um fica refém do outro, dentro de uma luta de poder que afasta o verdadeiro amor e só lhe resta vivenciar a condição humana de lutar no dia a dia por uma sobrevivência sem qualidades.

 

Natascha 3096 dias
Autora: Natascha Kampusch
Editora: Verus
Número de páginas: 225
Divulgação

Quando se experimenta uma condição maior do que se é capaz de suportar, a psique cria um núcleo que organiza em torno de si diversos recortes dessas vivências não compreendidas, que vão sendo costurados pela linha das emoções, que seguem a trilha de uma metáfora capaz de revelar as matrizes da psique humana. Essa costura une as peças com suas afinidades emocionais ou semelhanças, pois, enquanto a consciência faz a diferença entre os objetos, o inconsciente abandona essas diferenças e agrupa-os por suas semelhanças ou afinidades. A esse fenômeno Jung o chamou de Complexos Autônomos.

 

Esses complexos que organizam imagens e afetos, como se fossem uma personalidade com existência própria, ora nos empurra o eu e nos convence de que somos um outro de quem não gostamos; ou nos deixa perplexos por nos percebermos reféns de comportamentos que não apreciamos e os repetimos como se um diabrete invisível nos obrigasse a fazê-lo. Natascha disse numa entrevista à BBC que, depois de quatro anos de liberdade, ainda tem dificuldades de se relacionar com outras pessoas. A psicopatologia junguiana é compreendida como as variações das almas que reclamam pelas experiências de amar e ser amado.

 

A narrativa do livro mostra a experiência vivida pela própria autora Natascha. Nessas situações de sofrimento, só nos resta abstrair e ouvir, no silêncio da alma, a sabedoria de milênios a nos ensinar a viver com astúcia e leveza por meio de tudo o que criamos. Isso é possível quando encontramos o símbolo que nos transporta para longe dessa dor.
Símbolo é uma forma de expressar os arquétipos, ou seja, os temas humanos. Na psique do homem existe matemática. Não é nada até que se preencha com uma forma de ação, que define em imagens o existir de alguma experiência. A partir daí, surgem os símbolos com a sua natureza conhecida mergulhada na carga afetiva que esconde algum enigma. Talvez seja esse livro o símbolo de Natascha. Por meio dele, ela pode ser julgada, amada ou odiada, mas, acima de tudo, pode expressar a maior liberdade do ser humano que é a de ser lido ou escutado quando consegue dizer quase tudo o que lhe aconteceu.

 

Na escuridão dessa nossa inconsciência, não notamos quando em nossas relações trazemos as dores primais e interpretamos as ações do outro e, no lugar da cooperação, apenas competimos como a perseguir a oportunidade de levantar a bandeira de vitória. Enquanto o sequestrador, envolvido em sua incapacidade de ser verdadeiramente humano, foi além de uma neurose para ferir o sagrado do ser humano.

 

Somos viajantes com um destino a cumprir e, muitas vezes, nos distanciamos desse caminho. A necessidade de amar, especialmente a nós mesmos, é a direção de amar o outro. O mundo acabará para cada um de nós e estaremos mergulhados nos mistérios que a consciência humana não alcança.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 93

Adaptado do texto “No silêncio da alma”

*Carlos São Paulo é médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. carlos@ijba.com.br / www.ijba.com.br