Mulheres cada vez mais conquistam o direito à sexualidade

Atuação dos movimentos feministas através dos anos marca terreno e se posiciona como um divisor de águas na luta pela igualdade de condições das mulheres

Por Remo Rotella Jr.* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Há décadas, os movimentos feministas vêm lutando pela igualdade de condições das mulheres, no que diz respeito aos papéis sociais, profissionais e sexuais. A partir da década de 60, observa-se a expansão da saída das mulheres do espaço doméstico, para a ocupação de espaços sociais e profissionais, antes restritos às pessoas do sexo masculino.

 

Na esfera da sexualidade começaram a surgir movimentos tímidos, a princípio, porém que conduziram ao início da liberação sexual feminina. Surgiram, nessa época, publicações de autoras norte-americanas, ensinando e estimulando as mulheres donas de casa a exercitarem tanto a masturbação, como práticas sexuais “não convencionais” para a época, tais como a prática do sexo oral e do sexo anal, com seus maridos.

 

A este respeito, citarei um trecho de uma conversa com um colega de profissão, lá pelos idos de 1970. Ele confidenciava-me que procurava prostitutas quando sentia a necessidade de praticar sexo oral ou anal. Um tanto perplexo com essa revelação, perguntei: “Mas por que não ter essas práticas com sua esposa, uma vez que vocês têm uma boa relação conjugal”?

 

A Sexualidade feminina na análise de Lacan

 

Ao que ele, com visível irritação, me respondeu: “Jamais faria essas coisas com a minha esposa, pois ela é uma mulher de respeito e, além de tudo, é a mãe dos meus filhos”.

 

Embora possa soar estranho o conteúdo dessa conversa, nos dias atuais, era esse o pensamento vigente na época, há cerca de 40 anos. A maioria pensava que a esposa tinha o papel de um ser assexuado, quase santificado, isento do prazer sexual, cuja experiência somente era permitida fora do lar, no ambiente da prostituição.

 

A luta pela liberação da mulher veio ganhando força e trazendo mudanças nos hábitos e costumes, derrubando tabus, como a virgindade, e o sexo permitido somente após o casamento. A decorrência dessa atitude da mulher foi fazer com que ela consiga se apoderar de seu corpo e da sexualidade, não mais se deixando manipular por convenções sociais ou pela moral judaico-cristã.

 

A sexualidade durante a gravidez

 

Essa evolução veio preparando o terreno para fatos muito importantes, que marcam a conquista da nova sexualidade feminina no século 21. Destaco como muito importante: a promulgação da Lei Maria da Penha, em 7 de agosto de 2006, que estabelece que todo o caso de violência doméstica e intrafamiliar é crime e, por isso, deve ser apurado por meio de um inquérito policial e ser remetido ao Ministério Público.

 

A lei tipifica e define a violência doméstica e familiar contra a mulher. Estabelece as formas da violência doméstica contra a mulher como física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Determina que a violência doméstica contra a mulher independe de sua orientação sexual.

 

 

Outro fato importante para a liberação da mulher foi a criação do FEMEN, um grupo ucraniano feminista de protesto, fundado em 2008. A organização se tornou notória por protestar contra temas como turismo sexual, racismo, homofobia, sexismo e outros males sociais. Este grupo tem feito manifestações importantes em vários países do mundo; conta com uma filial brasileira na luta pela preservação dos direitos femininos.

 

Considero, também, de extrema importância a maneira mais natural, como tem sido tratado o tema sexualidade nos meios sociais e na mídia e, nesse sentido, observa-se que a sexualidade feminina vem sendo tratada com o mesmo respeito e importância que a masculina, o que demonstra que a mulher vem conseguindo a tão desejada igualdade no tratamento de questões fundamentais à existência humana, questões estas ligadas à identidade de gênero, ao fato de se sentir dona de seu próprio corpo, podendo, assim, administrar as formas de prazer que lhe são importantes e satisfatórias, independentemente de opiniões morais, religiosas ou que estejam a serviço de alguma forma de controle.

 

Revista psique Ciência & Vida Ed. 94

Adaptado do texto “Evolução da sexualidade feminina”

*Remo Rotella Jr. é médico psiquiatra e psicanalista. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.