Matadores de aluguel também são considerados seriais. Saiba mais

Matadores por encomenda também são considerados seriais, mesmo que, em muitos casos, possam ser vistos como heróis, como a exemplo de Lampião

*Por Guido Arturo Palomba

Há três tipos de assassinos seriais: o mentalmente normal, o doente mental, e o fronteiriço (condutopata). Vamos falar do primeiro tipo, que corresponde aos indivíduos que não apresentam psicopatologia capaz de alterar a capacidade de entender o caráter criminoso do fato e/ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. São vulgarmente conhecidos como assassinos de aluguel, que matam para ganhar dinheiro, como se fosse um trabalho igual a outro qualquer.

Esses indivíduos cometem seus primeiros delitos na adolescência ou até mesmo na infância. Quando recolhidos aos presídios formam a escória e corrompem-se física e moralmente e são incapazes de readquirir uma existência honesta. Não se emendam nunca e o fim é sempre trágico, normalmente acabam assassinados.

Além de agirem por encomenda de outrem, não trepidam em matar para resolver as próprias desavenças. Muitos viram heróis porque são vistos, dentro da comunidade na qual atuam, como agentes da Justiça. São os justiceiros. Alguns “trabalham” sozinhos; outros, formam e lideram verdadeiras quadrilhas de sicários. Na História do Brasil talvez o mais famoso “justiceiro” de todos os tempos tenha sido Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), conhecido em toda a parte como Lampião, o Rei do Cangaço. Causava terror por onde passava, era impiedoso e cruel, mas tinham-no como amigo dos pobres e defensor da moralidade sexual: os sedutores eram emasculados e os bandidos proibidos de violar mulheres.

Esses assassinos em série dão-se por satisfeitos com pouca coisa, às vezes alimento, bebida e roupas já bastam para saciar a vaidade exacerbada, desde que em quantidade suficiente para que não haja necessidade de trabalhar como labutam os homens comuns.

Lampião era um assassino em série desse tipo descrito. Como curiosidade, segue um resumo do inventário de seus bens preparado pela Polícia da Bahia em 1938, após a sua decapitação: um chapéu de couro do tipo sertanejo, enfeitado com seis estrelas de Salomão e barbicacho de couro com berloques; anéis com várias pedras preciosas; duas libras esterlinas e uma antiga moeda brasileira de ouro; um fuzil Mauser; uma faca com 67 cm de comprimento e cabo enfeitado com três anéis de ouro; cartucheira de couro com ornamentos diversos (do lado esquerdo, um furo de bala); duas mochilas ricamente bordadas a máquina; lenço de seda vermelha; um revólver Parabellum, com coldre de verniz preto desgastado; um par de sandálias do mesmo tipo usado habitualmente pelos sertanejos, mas muito bem-feitas e de excelente qualidade; uma túnica de tecido azul com três galões nas mangas; e dois cobertores.

A bem ver, em pleno século 21 ainda existem “Lampiões”, na versão dos modernos pistoleiros profissionais, que devem lealdade apenas ao dinheiro que ganham, cujas figuras sinistras mantêm a importância macabra dos justiceiros e dos assassinos em série ainda muito comuns no Brasil.

* Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina
de São Paulo.

**Conteúdo adaptado do texto “Assassino justiceiro”

Revista Psique Ed. 121