Futebol e neurociências: descubra as mudanças neurais

Nosso passado evolutivo como caçador-coletor, vê no futebol constante interação social como herança, uma predileção por competições ritualizadas. Confira!

Texto Marco Callegaro | Adaptação Isadora Couto | Foto Shutterstock 

 

Copa apaixonou o mundo e nós brasileiros mergulhamos em uma intensa mobilização emocional, que varia da euforia da vitória até a amargura da derrota. As Neurociências têm investigado situações de competição, inclusive, em finais de Copa do Mundo, e as descobertas desses estudos ajudam a compreender as mudanças neurais envolvidas em tamanha paixão pelo futebol. Como sempre,  fica mais fácil entender nosso cérebro atual olhando para o passado da evolução humana. Nossa história evolutiva envolve um longo percurso de disputas sociais, e o cérebro humano carrega o equipamento e as disposições para nos preparar para estes embates. Para compreender a Neurobiologia dos mecanismos de competição social, temos que imaginar o contexto do ambiente ancestral, no qual evoluímos. Fomos desenhados para interagir em grupos equivalentes às tribos caçadoras e coletoras, como encontramos até hoje na África ou outras regiões do planeta. As tribos primitivas de nossos ancestrais sempre sofreram ameaças de tribos vizinhas, que invadiam territórios de caça ou coleta. Geralmente, os grupos sociais vizinhos desenvolvem disputas territoriais e embates por recursos para a sobrevivência. Por essa razão, as grandes rivalidades no futebol são, em geral, entre países que fazem fronteiras, como Argentina e Brasil, por exemplo.

Nosso cérebro está equipado para criar uma coesão entre nosso grupo, necessária para enfrentar o inimigo, em especial quando existe percepção de um inimigo externo. Pesquisas em
Psicologia Social já demonstraram que qualquer bobagem, como uma camisa colorida, pode criar as categorias “nós” (nossa tribo) x “eles” (a outra tribo). Se distribuirmos camisas de cor amarela
para metade dos sujeitos de um grupo, e de cor azul para a outra metade, isto basta para disparar uma série de comportamentos competitivos com os indivíduos do time oposto, e a favor daqueles com a nossa camiseta. Vários estudos têm demonstrado que a simples observação de um jogo de futebol pode causar fortes alterações no sistema neuroendócrino. Quando os pesquisadores mediram o nível de testosterona presente na saliva de torcedores de times internacionais rivais, que assistem, pela TV, jogos em diferentes fases de Copa do Mundo, descobriram que o nível deste hormônio pode aumentar até 30% nos vencedores e reduzir-se na mesma proporção nos perdedores. De certa forma, a competição desportiva ativa, em nosso cérebro emocional primitivo, o mecanismo do “nós” contra os “outros”: o nosso time, que representa nossa nação, contra a outra equipe, que representa a tribo vizinha que vem invadir nosso território e disputar recursos preciosos de sobrevivência. O nível de testosterona em várias espécies de animais, incluindo humanos, é maior nos sujeitos dominantes na hierarquia social e menor nos subordinados, e influencia a expressão de comportamentos sociais, que envolvem mudanças de status.

A testosterona, provavelmente, está envolvida na preparação do organismo para defender ou aumentar seu status social, e a observação do resultado do jogo é percebida como uma ameaça à posição social. Em homens, a testosterona parece encorajar a motivação para dominância, fortalecendo comportamento destinado a dominar e aumentar o status sobre os outros. A testosterona sobe diante de um desafio, como uma resposta antecipatória para enfrentar uma competição. Depois da disputa, o nível de testosterona declina nos perdedores e sobe nos vencedores. Do ponto de vista subjetivo, conhecemos bem as eufóricas sensações desencadeadas quando nosso time vence, ou a lamentável ressaca emocional quando a derrota nos entristece. No entanto, alguns estudos têm mostrado que as respostas neuroendócrinas a competições dependem mais de fatores subjetivos relacionados a avaliação cognitiva da situação do que do resultado objetivo ser vitória ou derrota. Fatores que dependem de como o sujeito interpreta a situação afetam a resposta psicobiológica, como a importância da competição para o sujeito, o envolvimento dele na disputa ou possibilidades percebidas de controlar o resultado ou sucesso. Nesta Copa, vários elementos de avaliação cognitiva entram em jogo: o fato de sermos anfitriões e de termos criado uma forte expectativa de vitória, bem como a percepção de desempenho bem abaixo do esperado, nos impelem a aumentar o peso subjetivo da dor da derrota. De fato, nossa derrota esmagadora para a Alemanha mostrou o poder de uma partida de mudar o estado de nosso cérebro e, como resultado, de nosso sofrido coração de torcedor.
Revista Psique | Ed. 104