Funções Executivas e Aprendizagem

Resultante da fusão da Neurofisiologia, Anatomia, Embriologia, Biologia celular e molecular e da Psicologia experimental, a Neurociência Cognitiva renova a ideia de que para se conhecer a mente é preciso antes conhecer o cérebro

Por Maria Irene Maluf* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

As funções mentais superiores, ou seja, a Aprendizagem, a Memória e a Linguagem, até meados do século XIX, foram estudadas apenas pela Psicologia e pela Fisiologia experimental invasiva. Foi em 1861 que se deu o primeiro grande passo para a compreensão dos mecanismos neurais dessas funções, quando Pierre Paul Broca descobriu que a fala é controlada por uma área específica do lobo frontal esquerdo. Em seguida, com novas pesquisas, foram localizadas as áreas do controle voluntário e diferentes córtices sensoriais primários para a visão, audição, sensibilidade somática e paladar.

 

Mas, apesar de os estudos neurológicos terem avançado com descrições elaboradas das funções cognitivas desempenhadas por várias partes do cérebro, a Fisiologia dos lobos frontais permanecia praticamente como uma incógnita, tendo sido por isso denominados de “lobos silenciosos” (Goldberg, 2002).

 

Um acidente não fatal, ocorrido em 1848, quando uma barra de ferro atravessou o crânio de um jovem rapaz, Phineas Gage, por meio da área frontal de seu cérebro, desencadeou novas descobertas a respeito desse lobo cerebral. Apesar de lúcido, com pleno uso de suas funções sensoriais, vegetativas e motoras, capaz de se comunicar, falar, ouvir, andar, pensar, o rapaz teve sua personalidade totalmente modificada, passando de um trabalhador responsável e bem adaptado socialmente a uma pessoa de modos rudes, instável e com evidente labilidade emocional.

 

Ao final do século XIX já havia evidências suficientes para atribuir ao lobo frontal a sede da atividade mental superior, e a importância da nova descoberta despertou muitos estudos específicos nesse campo. Embora ainda não totalmente esclarecidas, já se sabe comprovadamente que é nessa região do cérebro que se encontram as maiores diferenças na evolução filogenética entre os humanos e seus antepassados. Responsável pelas nossas habilidades mais complexas, como o planejamento de ações sequenciais, a uniformização de comportamentos sociais e motores, flexibilidade mental, parte da memória, a área frontal do cérebro não se refere a nenhuma habilidade mental específica, porém sua função abrange todas elas: parece ser mais metacognitiva do que praticamente cognitiva e, decorrente desse fato, passou-se a denominar de Função Executiva.

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Funções Executivas facilitam o funcionamento cognitivo ao coordenarem a execução de um objetivo e são ligadas às habilidades de processamento de informações inter-relacionadas: memória de trabalho (armazenamento e atualização das informações enquanto o desempenho de alguma atividade relacionada com elas), o controle inibitório (a inibição da resposta prepotente ou automatizada quando o indivíduo está empenhado na execução de uma tarefa) e a flexibilidade mental (capacidade de mudar a postura de atenção e cognição entre dimensões ou aspectos distintos, mas relacionados, de uma determinada tarefa).

 

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

 

Déficits de desenvolvimento cognitivo, problemas de conduta e na aprendizagem acadêmica podem decorrer de prejuízos nas Funções Executivas, caracterizando a chamada Síndrome Disexecutiva. Seus sintomas mais claramente perceptíveis são as alterações cognitivo-comportamentais, associadas às dificuldades na seleção de informação e na tomada de decisão, assim como a distratibilidade, problemas de organização, comportamento perseverante ou estereotipado, dificuldades na constituição de novos repertórios comportamentais, déficit de abstração e de antecipação das consequências, tão frequentes nos transtornos de aprendizagem. Atualmente aliás, se descrevem diversas dificuldades cognitivas em termos de Disfunção Executiva, quando se trata de problemas marcantes com a hiperatividade, atenção e problemas de aprendizagem.

 

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A Função Executiva tem início nos primeiros meses de vida pós-natal, e se transforma gradativamente até o final da adolescência, relacionada com o processo de configuração e amadurecimento cortical da região pré-frontal, uma das últimas áreas cerebrais a passar por esse processo.

 

Ainda que existam variações de maturação cerebral entre crianças de mesma idade, a filtragem de informações própria das Funções Executivas se desenvolve mais acentuadamente entre os 6 e 8 anos de idade e segue até começo da idade adulta, mas via de regra cresce de acordo com a progressão escolar.

 

Durante tal processo, alguns de seus componentes (como a atenção seletiva, flexibilidade cognitiva e planejamento) atingem mais tardiamente a maturidade, se comparadas a outras funções cognitivas, o que torna ainda mais complexa a compreensão da cognição humana e seus transtornos.

 

Especificamente, o córtex lateral órbito-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, é o que amadurece por último, na década dos vinte anos, devido à progressiva e ininterrupta mielinização dos axônios do córtex pré-frontal, de onde se podem tirar algumas conclusões a respeito da educação e das questões relativas à socialização dos nossos jovens.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 117

Adaptado do texto “Funções Executivas e Aprendizagem”

*Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07). É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem. irenemaluf@uol.com.br