Frida Kahlo e a fibromialgia

Kahlo é um exemplo vívido e uma forte impressão estética que permite nos apercebermos destes avatares da cotidiana experiência humana: ao lado da criatividade primária, encontramos a pulsão que nos leva a criar

Por José Outeiral*

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, nasceu no dia 6 de julho de 1907, em Coyoacán, próximo à Cidade do México. Posteriormente, mudou sua data de nascimento para 1910, para prestar uma homenagem à Revolução Mexicana.

 

Seus pais foram Matilde Calderón y González, católica e mestiça, e Guillermo Kahlo, fotógrafo, judeu, descendente de alemães austro-húngaros. Foi a terceira filha do casal, depois de Matilde Junior e Adriana. Sua mãe engravidou novamente quando Frida estava com dois meses e então nasceu Cristina. Frida (Friede, em alemão, significa paz) foi entregue aos cuidados de uma ama-de-leite índia, “que cheirava a pão de milho e sabão, não falava muito, mas cantava canções de sua terra, do yucatan…” (Jamis, 1985). No quadro “Mi nana y yo o Yo mamando” parece refletir uma relação fria, distante, sem contato visual com a ama tendo uma máscara negra de pedra.

 

Outro aspecto importante que reforça a hipótese da falha da mãe como “escudo protetor” é a excessiva ligação de Frida com a figura paterna. “Pintei a meu pai Wilhelm Kahlo, de origem húngaro-alemã, artista fotógrafo de profissão, de caráter generoso, inteligente e fino, valente porque sofreu durante sessenta anos de epilepsia, porém jamais deixou de trabalhar e lutou, com fervor, contra Hitler… Sua filha Frida Kahlo.”

 

Frágil pomba e sapo gordo

A casa azul em Coyoacán, onde Frida Kahlo e Diego Rivera viveram de 1929 a 1954 agora é um museu

Por meio de sua arte o sofrimento se tornou “mais suportável” e ela passa, como escreve Rafael Bayt, “a pintar a própria história clínica”. O leitor interessado poderá encontrar em inúmeros quadros de Frida Kahlo o registro direto dessa experiência. Colocar em um limite determinado, a tela (frame), de uma forma organizada por meio do cheio e do vazio, do claro e do escuro, dos volumes e das cores, as experiências traumáticas, com suas fantasias e ansiedades, pode, efetivamente, dando um arranjo simbólico a estes registros pertencentes a estados primitivos de mente, propiciar um efeito reparador e curativo.

 

Evidentemente, essa é uma ideia bastante corrente na Psicanálise, mas Frida Kahlo nos oferece, ao conhecermos sua vida e sua obra, um exemplo vivido e uma forte impressão estética que permite nos apercebermos desses avatares da cotidiana experiência humana: ao lado da criatividade primária, como Donald Winnicott postula, encontramos no dia a dia de cada um de nós uma pulsão, ou necessidade, que nos leva a criar; pequenos gestos, ideias, sentimentos e, mesmo, objetos artísticos que nos ajudam a suportar a luta para preservar e otimizar a vida, na incessante resistência, ao que diria Freud ao se referir à dualidade instintiva, à volta ao inorgânico e as constantes feridas narcísicas que o existir determina…

 

Frida Kahlo é, hoje, uma das mais significativas pintoras da América e seus quadros figuram nos mais importantes museus, como o MoMa de Nova York. Sua produção artística representa, na maioria das vezes, suas vivências pessoais de uma forma explícita e significativa. A pessoa Frida Kahlo é, também, um exemplo de reação ao trauma por meio da criação artística: vivendo e criando intensamente, principalmente nos momentos de maior dor, Frida Kahlo conseguiu “ser” e deixar sua vida marcada na história das artes e dos homens.

 

No caso de Frida Kahlo pintar e, principalmente autorretratos, poderão representar esforços do self em dar sentido-narrativa-conjunto-integração-sustentação a um self primitivo e fragmentado (e a um esquema corporal fragmentado; “morcelé” no sentido Lacaniano de fragmentado e pré-especular), possibilitando a passagem do imaginário ao simbólico, por meio do “estágio do espelho”. Melhor dito, por meio de autorretratos, que a delimitam, a definem e, paradoxalmente, a fazem transbordar, numa explosão de cores.

 

Alguns registros sugerem que Frida, já presa a uma cadeira de rodas e com uma perna amputada, tenha cometido suicídio.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 93

Adaptado do texto “Frida Kahlo: uma explosão de cores”

*José Outeiral, médico, psicanalista, membro titular da International Psycho-Analytical Association, e Luiza Moura, psicóloga clínica. Autores do livro Paixão e Criatividade: Estudos Psicanalíticos Sobre Frida Kahlo, Camille Claudel e Coco Chanel (Ed. Revinter, 2002) e da peça A Cabeça de Camille Claudel, premiada na Itália em 2009, encenada no Brasil pela atriz Ana Leão.