Felicidade está firmada em colecionar bons relacionamentos e paz interior

A psicóloga Maria Tereza Maldonado afirma que esperar que outra pessoa ou que acontecimentos externos, especialmente os ligados à posse de bens materiais, possam garantir uma felicidade permanente provoca sofrimento

Por Lucas Vasques* | Fotos: 123 RF | Adaptação web Caroline Svitras

É certo que não há receita para a felicidade e, também, não se podem generalizar as formas de se evitar o contrário: a infelicidade. No entanto, existem determinados procedimentos específicos que podem ajudar nesses dois quesitos. Essa é a especialidade da psicóloga Maria Tereza Maldonado.

 

Foto: Edu Lissovsky

Ela é mestre em Psicologia pela PUC-Rio, membro da Associação Brasileira de Terapia Familiar (Abratef) e palestrante. É autora de 40 livros publicados, a maioria discutindo temas relacionados à felicidade, relações familiares, desenvolvimento pessoal, gestão de conflitos e construção da paz. Entre eles, Construindo a Felicidade. A Ciência de Ser Feliz Aplicada no Dia a Dia, A Face Oculta – uma História de Bullying e Cyberbullying e Bullying e Cyberbullying. O que Fazemos com o que Fazem Conosco?

 

No mais recente, Construindo a Felicidade. A Ciência de Ser Feliz Aplicada no Dia a Dia (Ideias e Letras Editora), Maria Tereza entrevistou 190 pessoas, de 12 a 96 anos, em diversas cidades de todas as regiões do Brasil. Além disso, analisou os resultados de pesquisas e conceitos teóricos de estudiosos de muitos países sobre a construção da felicidade e do bem-estar em diversas áreas, tais como tradições milenares, Psicologia Positiva, Antropologia, Neurociência, Filosofia e Economia.

 

“Podemos aprender a ser mais felizes, mesmo em épocas difíceis da vida! Felicidade não é ausência de problemas. O estado consistente de felicidade serena pode ser mantido mesmo quando enfrentamos perdas e dificuldades. É uma habilidade que pode ser treinada por meio das escolhas conscientes que fazemos a cada dia, de nossas ações, da qualidade dos pensamentos que nutrimos e dos relacionamentos que cultivamos”, afirma Maria Tereza.

 

Nas pesquisas sobre satisfação é muito comum observarmos uma grande quantidade de pessoas que garantem estar satisfeitas com a vida que levam. É difícil assumir a infelicidade? As pessoas tendem a achar que ser infeliz é um fracasso pessoal? Por quais razões?

Maria Tereza: Há pessoas realmente satisfeitas com a vida que levam. Constatei isso na pesquisa que fiz para o livro, pois entrevistei 190 pessoas entre 12 e 96 anos, em diferentes cidades em todas as regiões do Brasil. Os depoimentos de muitas pessoas que vivem uma vida simples, nas camadas populares em cidades do interior, em contato com a natureza e com tempo para cultivar bons relacionamentos, revelam genuína satisfação com a vida. Mas, sim, há pessoas que escondem infelicidade por temer que isso signifique fracasso, especialmente quando se apresentam nas redes sociais.

 

 

Você acha que hoje estamos vivendo sob a ditadura da felicidade?

Maria Tereza: Em alguns contextos, observo essa ênfase na busca permanente da felicidade, porém muito ligada a noções equivocadas, tais como imaginar que isso poderia ser um eterno clima de festa, ganhos materiais ou sucesso profissional sempre em ascensão. Nesses casos, perde-se a noção de que a construção da felicidade é um trabalho interior, de treinar a mente por meio das escolhas conscientes que fazemos a cada dia, de nossas ações, da qualidade dos pensamentos que nutrimos e dos relacionamentos que cultivamos.

 

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A infelicidade diz alguma coisa da nossa época?

Maria Tereza: Sim, principalmente quando criamos a expectativa de que a felicidade depende de condições externas (“só vou ser feliz quando conseguir comprar uma casa”), o que dificulta valorizar e saborear os bons momentos da vida presente. O consumismo, que cria desejos incessantes e estimula a ganância, a competição desenfreada de ter que derrotar os outros para poder se destacar, a sensação de inferioridade que se acentua quando a pessoa passa horas nas redes sociais, reforçando a ideia de que a vida dos outros é muito melhor do que a sua, são alguns dos aspectos da cultura vigente que colaboram para a tecelagem da infelicidade.

 

 

Você saberia dizer se a infelicidade é uma das principais ocorrências no atendimento clínico de saúde mental?

Maria Tereza: Sim, a infelicidade sob a forma de insatisfação crônica, ansiedade, depressão, revolta. Sob essas camadas de sentimentos, percebem-se hábitos mentais que prejudicam a saúde emocional, como, por exemplo, apegar-se ao passado, ter medo de mudar e nutrir excessiva preocupação com o futuro.

 

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Qual a importância da infelicidade?

Maria Tereza: Para perceber o dia é importante perceber a noite. Ninguém vive o tempo inteiro em um “mar de rosas”. Problemas são oportunidades de desenvolver recursos para viver melhor. Mergulhar em si mesmo para perceber o “recado” da infelicidade pode abrir caminhos para sair desse estado, vendo o que é preciso desenvolver em si mesmo e nos seus relacionamentos mais significativos.

 

Na sociedade contemporânea, um dos elementos que mais provocam infelicidade e angústia é o cyberbullying. Como você observa esse fenômeno recente?

Maria Tereza: Esse é um problema sério, que surge da deficiência de uma educação em valores fundamentais para construir um bom convívio baseado no respeito pelos outros e pela diversidade das pessoas. Surge também da confusão do conceito de liberdade de expressão, ignorando que o estímulo às redes de ódio, às agressões desmedidas e à perseguição implacável não é conduta aceitável.

 

Confira a entrevista completa na revista Psique Ciência & Vida Ed. 142. Garanta a sua aqui!

Adaptado do texto “Fábrica de frustrações”

*Lucas Vasques é jornalista e colabora nesta publicação.