Felicidade ajuda na produção de genes de imunização

Investigação mostra os efeitos da felicidade sobre os genes que expressam as defesas do corpo

Por Marco Callegaro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

A nova ciência da Psicologia Positiva tem ampliado seus estudos em diferentes domínios, incluindo pesquisas em Neurociências. Uma das questões fundamentais para a Psicologia Positiva é o avanço na compreensão científica da felicidade. O conceito de bem-estar subjetivo, atualmente, se desdobra em duas importantes vertentes. Os psicólogos positivos distinguem entre dois tipos essenciais de bem-estar subjetivo, a felicidade eudaimônica e a hedônica. Enquanto a felicidade hedônica se refere primariamente à somatória das experiências afetivas positivas vivenciadas por um indivíduo, a felicidade eudaimônica, um conceito originalmente formulado por Aristóteles, envolve um senso de propósito e direcionamento da vida para alcançar um potencial. A eudaimonia é um tipo de felicidade mais profunda, que resulta do esforço feito em direção a algo maior que tenha sentido para a pessoa, algo com nobreza na proposta e que ultrapasse a simples autogratificação.

 

Ambas dimensões da felicidade estão profundamente enraizadas na biologia e evolução do cérebro, com o bem-estar hedônico implicado na motivação de adaptações básicas fisiológicas e psicológicas, enquanto a eudaimonia está relacionada com a motivação de capacidades culturais e sociais mais complexas.

 

Como exemplos de eudaimonia, podemos citar os prazeres sociais de sentir-se conectado aos outros, os prazeres cognitivos relacionados a considerar novas ideias, ou prazeres espirituais como conectar-se com algo maior do que o próprio Self. Já o hedonismo envolve a procura de estímulos ou situações prazerosas. Um dos problemas do hedonismo como estratégia para buscar a felicidade é a chamada memória de habituação, que torna uma sensação prazerosa cada vez mais fraca a cada repetição do estímulo. Dessa forma, o hedonismo como via exclusiva para a felicidade tem a desvantagem de enjoar a pessoa dos prazeres que está vivenciando, sendo que cada vez é necessário um estímulo mais potente para produzir o mesmo nível de satisfação.

 

Uma investigação realizada pela psicóloga positiva Barbara Fredrickson procurou verificar o papel dos dois tipos de felicidade no código genético, com foco na expressão de componentes do sistema imunológico. A pergunta de pesquisa que os investigadores tentaram responder é se de fato existem diferenças entre a felicidade eudaimônica e hedônica na modulação do sistema imunológico. Para chegar à resposta, os pesquisadores analisaram os perfis de expressão genética basal de leucócitos, que são componentes do sistema imune, em 80 sujeitos adultos saudáveis. Os sujeitos foram avaliados tanto no grau de bem-estar hedônico como eudaimônico, e também em outros fatores biológicos e psicológicos que poderiam confundir o foco do estudo.

 

Os resultados mostraram que os dois tipos de felicidade têm perfis bem diferentes, e modulam o sistema imunológico em direções opostas. As células sanguíneas mononucleares periféricas de pessoas com altos níveis de bem-estar hedônico mostraram expressão de uma resposta transcricional à adversidade que envolve aumento da expressão de genes pró-inflamatórios e diminuição de expressão de genes envolvidos na síntese de anticorpos e outras respostas imunológicas. Em contraste, altos níveis de bem-estar eudaimônico foram associados a um padrão oposto, onde diminui a expressão genética pró-inflamatória e aumenta a expressão de genes relacionados à síntese de anticorpos.

 

Segundo os resultados do estudo, existe um contraste agudo entre a resposta dos genes à felicidade apenas prazerosa e aquela ligada ao significado. A felicidade hedônica parece acionar uma resposta dos genes ligada à promoção de doenças e estresse crônico. A eudaimonia aciona os genes de outra forma, melhorando as defesas imunológicas e contribuindo para a saúde e resiliência do organismo. Isso implica em uma direção importante para nossos esforços rumo à felicidade, pois parece existir um efeito mais favorável a saúde na busca de sentido na vida do que na entrega aos prazeres somente. A sociedade está estruturada em função do consumo e oferece as mais variadas formas de estímulos prazerosos, em uma espiral crescente de hedonismo e busca de gratificação pessoal. No entanto, a procura de significado em nossas vidas, e cultivo de valores mais amplos, que considerem o bem-estar dos outros, pode ser um caminho mais produtivo e saudável.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 119

Adaptado do texto “Formas de bem-estar e a resposta de nossos genes”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).