Fantasias sexuais

Os pensamentos eróticos de nossa mente trazem desejo e excitação que contribuem para um estado de prazer e envolvimento

Por Carmita Abdo* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

O que os estudiosos do assunto chamam de “fantasias sexuais” nada mais são do que imagens e pensamentos eróticos, os quais surgem em nossas mentes, desencadeando o desejo e a excitação sexuais. Na sequência, cresce essa excitação, o que contribui para um estado de prazer e envolvimento.

 

As fantasias costumam surgir de forma casual ou a partir de estímulos, tais como a visão de alguém atraente, um odor agradável ou um perfume, uma carícia ou contato físico, um sabor que lembra alguma situação excitante ou o som de uma música especial.

 

Não há estudos conclusivos sobre o que origina o conteúdo das fantasias sexuais, mas a prática de consultório nos sugere que, habitualmente, estão relacionadas ao tipo de personalidade e ao estilo de vida de cada pessoa. Mulheres sensuais, por exemplo, tendem a fantasiar com situações de sedução e vínculo proibitivo; homens muito ativos sexualmente têm fantasias repletas de cenas de erotismo explícito.

 

Vale lembrar, ainda, aquelas fantasias que em nada reproduzem o estilo de vida ou o perfil da pessoa, mas, na verdade, representam desejos secretos, inconfessáveis, redentores de homens e mulheres, aparentemente pouco interessados no prazer erótico.

 

Por nossa vida sexual estar sujeita às regras sociais, às leis morais e, também, à vontade do parceiro, as fantasias têm, entre outras, a função de substituir vivências intensas não realizadas, quando são reprimidas ou consideradas inconcebíveis.

 

No dia a dia de um casal, as fantasias intensificam a intimidade e a desinibição, não estando, necessariamente, associadas a conflitos conjugais ou de relacionamento. Pelo contrário, costumam contribuir para uma vida sexual mais gratificante, o que pode aproximar os parceiros e intensificar o relacionamento.

 

Tratando as disfunções sexuais

 

Os estudos sobre o assunto concluem que a maioria dos casais – casados ou não – tem fantasias, havendo particularidades quanto à temática, ao objetivo e à frequência. Ou seja, enquanto as mulheres fantasiam para tornar mais intensa a excitação durante o ato sexual, os homens, habitualmente, fantasiam antes de iniciarem esse ato, com a finalidade de exacerbar o desejo. Embora ambos se utilizem das fantasias para facilitar e fazer fluir a atividade sexual, as mulheres dão preferência à representação de relacionamentos e situações não habituais, enquanto que o homem casado, preferencialmente, fantasia sobre mulheres com quem ainda não fez sexo ou mais de uma/um parceira/o, sendo uma/um delas (ou deles) a própria esposa. Portanto, as fantasias sexuais, ao acessarem os desejos mais íntimos, ampliam as possibilidades de satisfação sexual.

 

O estudo Mosaico Brasil, desenvolvido em 2008 sob minha coordenação, avaliou o comportamento afetivo-sexual de mais de 8.200 participantes (51,1% homens e 48,9% mulheres), os quais residiam em 10 capitais brasileiras. Dentre diversas perguntas, foi indagado aos participantes: Você tem fantasias sexuais? Responderam afirmativamente 68,9% dos homens e 45,7% das mulheres, os quais referiram fazer uso de duas ou três fantasias preferenciais.

 

A fantasia mais recorrente na população masculina, segundo o Mosaico Brasil, é fazer sexo com duas ou mais mulheres (ocorre a 57% deles). Além dessa, são fantasias preferidas pelos homens: fazer sexo em lugares públicos (23,8%) e com desconhecida/o (18,3%). Para a população feminina, fazer sexo em local público (28,1%), com mais de um parceiro (30,4%), no papel de garota de programa (22,4%) ou fazer sexo com dominação/submissão (20,5%) são algumas das fantasias mais citadas.

 

A sexualidade durante a gravidez

 

De modo geral, fantasiar é um saudável exercício para o desempenho sexual, na medida em que traz novas e estimulantes possibilidades à atividade sexual, especialmente, dos casais em relacionamentos estáveis e/ou de longa duração. Nesse contexto, as fantasias serão tanto mais interessantes quanto maior for a criatividade, a espontaneidade e a cumplicidade dos parceiros sexuais.

 

Por outro  lado, as fantasias sexuais podem se tornar inconvenientes, quando um dos parceiros não consegue identificar o limite entre o que é fantasia e o que é realidade e tenta colocar em prática comportamentos, que potencializam danos físicos e/ou psicológicos a si, ao outro ou ao casal. Além desses, há aqueles casais incapazes de se relacionarem, efetivamente, por não conseguirem estabelecer um vínculo. Eles  passam, então, a utilizar as fantasias como refúgio. Um exemplo dessa situação é a necessidade de sempre e invariavelmente focalizar o desejo  sexual em objetos, vestimentas ou partes específicas do corpo, os quais acabam se tornando indispensáveis ou até exclusivos como “gatilho” para a vivência sexual prazerosa. Tais casos demandam cuidados de especialistas, se o indivíduo sofre ao se perceber refém de um roteiro rígido de atividade sexual, não havendo oportunidade de diversificação desse repertório.

 

Portanto, fantasia sexual é um expediente saudável, desde que esteja a serviço do prazer, sem compromisso com alguma limitação ou desvio. Desde que não aliene nem aprisione.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 107

Adaptado do texto “Fantasias sexuais”

*Carmita Abdo é psiquiatra, professora associada do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).  Fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP.