Estelionato é tão antigo quanto a própria humanidade; entenda

O estelionato é tão antigo quanto a própria humanidade, ou melhor, é anterior a ela, uma vez que muitos animais se valem desse comportamento. Entenda!

*Por Guido Arturo Palomba

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Se fosse necessário definir estelionatário em uma só palavra, diríamos: trapaceiro. A bem ver, a palavra vem de stellio, onis, estelião, lagarto que muda a cor da pele, daí trapaceiro, velhaco.

Esse tipo de indivíduo não é um fato típico da nossa época, pois já existia nos recuados tempos. O estelionato é tão antigo quanto a própria humanidade, ou melhor, é anterior a ela, uma vez que muitos animais se valem desse comportamento. A bem ver, onde há vida há luta pela vida e o vencedor será o mais apto. E nesse embate os animais empregam recursos variadíssimos, principalmente de duas ordens: uns vencem à base da fraude; outros, pela violência. Se não é pela força bruta, a aquisição de um caráter vantajoso coloca o seu possuidor em melhores condições de sobrevivência, tornando-o mais apto a enfrentar o recontro com o ambiente: a raposa finge dormir para surpreender a sua presa; a libélula fecha as asas para se confundir com o caule onde pousa, ludibriando o inimigo. Nesse sentido, muitas espécies simulam a morte para aproveitar a semelhança com algo inanimado para evitar o ataque.

Se, juntamente com a força bruta, essa é a regra do reino animal, o homem, o mais evoluído de todos, que também está em permanente embate com o meio que o cerca, tem duas outras armas para vencer a refrega: a inteligência, a qual lhe dá o entendimento lógico do fato, e a moral, que é o dever-ser da lógica.

Assim, constituído de entendimento e de determinação moralmente ordenada, transcende os animais e vive feliz agindo corretamente (a felicidade vem por acréscimo) dentro das suas circunstâncias e possibilidades.

Porém, pode acontecer, entre os humanos, uma regressão ao mundo animal, quando o indivíduo, sistematicamente, se vale da força bruta ou utiliza o estelionato para atingir seus propósitos.
O grande problema é quando essa regressão atávica ocorre nos líderes políticos. Se esse desvio for no sentido do emprego da força bruta, então teremos os ditadores, as guerras, as invasões e seus similares (campos de concentração, homens-bomba etc.). E caso a regressão seja na direção da fraude, têm-se demagogos enganadores do povo, que se travestem com pele de cordeiro, fingem paz e amor, mas são lobos gananciosos com objetivos balordos. Não passam de estelionatários da pior qualidade.

A história mostra que tanto os líderes políticos que se valeram da força quanto os estelionatários do povo, ambos, mais cedo ou mais tarde, acabaram se dando mal: aqueles que usaram da força bruta um dia encontraram outro mais forte e foram eliminados; os que se valeram da fraude e da mentira para enganar o povo, houve (como sempre vai haver) o momento em que as suas máscaras caíram, pois nenhum embusteiro, por melhor que seja, é capaz de enganar muitos por longo tempo sem se trair e ser descoberto. Julgados, mofaram na cadeia.

Assim seja também aqui no Brasil.

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

**Conteúdo adaptado do texto “Estelionato é tão antigo quanto a própria humanidade”

Revista Psique Ed. 126