Esquizofrenia prejudicou reinado de Carlos VI na França

Carlos VI, rei da França, é conhecido no início do reinado como o Bem-Amado (1380), e no final do mesmo (1422) como o Louco. O que ocorreu com essa pessoa, que transitou nesses adjetivos tão antagônicos?

Por Anderson Zenidarci* | Foto: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

Nativo de Paris, primogênito de Carlos V, o Sábio, e de Joana de Bourbon, descrito como sendo uma criança alegre, ativa e fascinada pelos grandes feitos militares, Carlos nasceu no meio de um pesadelo medieval, ou seja, em uma França arrasada pela peste negra que dizimou dois terços da população europeia, tomada por bandidos, abalada pela guerra e pela fome e sob o constante temor de que os ingleses invadissem os poucos territórios que ainda permaneciam sob o domínio da coroa francesa. Tudo era ameaçador para quem detinha o poder. O perigo e a morte estavam por toda parte. Sua mãe morre quando ele tinha 9 anos, dois anos mais tarde o pai (rei Carlos V) também morre. Portanto, tinha apenas 11 anos quando herdou o trono no meio da Guerra dos Cem Anos (com a Inglaterra). O governo foi confiado aos seus quatro tios: Filipe, duque de Borgonha; João, duque de Berry; Luís I, duque de Anjou; e Luís II, duque de Bourbon. Casou-se aos 16 anos com Isabel da Baviera, filha do duque Estevão III, poucos dias após ambos terem se conhecido. Embora a idade real da maioridade fosse de 14 anos, os tios duques mantiveram seu domínio sobre o rei até assumir o poder com 21 anos de idade.

 

Vemos aí uma personalidade frágil e insegura, pois se deixou manipular, postergando em sete anos a posse da coroa devido à ameaça que ela representava no contexto da época. Durante o governo de seus tios, os recursos financeiros do reino foram desperdiçados pelo lucro pessoal dos duques. O estado falido cria novos impostos, o que provoca várias revoltas. Ele é cobrado pela população a assumir. Destitui os tios e assume, recolocando nos cargos administrativos os fiéis e competentes conselheiros de seu pai. As condições políticas e econômicas no reino melhoram significativamente, e Carlos ganha o epíteto de “o Amado”. Apesar de nunca ter sido particularmente astuto para a governação, fruto de sua educação desleixada, manteve uma personalidade estável até que Olivier de Clisson (seu amigo e correligionário) sofre uma tentativa de assassinato orquestrada pelo duque João, da Bretanha. Ocorre uma comoção social, o rei sente-se insultado e ameaçado e prepara-se para a guerra contra o duque. Mas, na viagem organizada por ele para defender a honra francesa, com seu exército, Carlos, aos 23 anos, de repente teve um surto e matou quatro cavaleiros e quase matou seu irmão, Luís de Orleães. Teve que ser levado de volta a Paris amarrado. Foi o início do fim de sua sanidade mental. Seus ataques de insanidade se tornaram mais frequentes e de maior duração. Durante esses, ele tinha ilusões e delírios, acreditando que era feito de vidro, e não deixava que ninguém o tocasse por medo de que fosse se quebrar em pedacinhos.

 

Não reconhecia as pessoas e negou que tinha uma esposa e filhos. Atacava serviçais ou corria até a exaustão, se dizia ameaçado por seus inimigos. Era frequentemente visto completamente nu perambulando pelos jardins reais e remexendo na terra. Afirmou por um tempo que era São Jorge – e inclusive insistiu para que o brasão de sua família fosse refeito para refletir sua “santidade”. Entre as crises, havia intervalos de meses durante os quais ficava relativamente são, mas incapaz de se concentrar ou tomar decisões ou exercer o poder político. A alternância de seu estado emocional e racional deu também lugar a uma sucessão de influências: durante os períodos em que estava são, Carlos favorecia os conselhos e políticas do irmão Luís, mas quando recaía era o tio Filipe da Borgonha quem controlava a França. À medida que os anos passavam, seu estado geral deteriorou-se, assim como seu casamento. Nas fases psicóticas, revelava ódio imenso a sua esposa Isabel, a quem tentou atacar fisicamente várias vezes, e chegava a praticar tiro ao arco nos retratos dela espalhados pelo palácio. A rainha reorganizou sua vida em torno do cunhado duque Luís I de Valois, e era assumido que os filhos de Isabel nascidos depois de 1396 eram filhos do duque. Ela teve 12 filhos. No auge da doença, incapacitado pela esquizofrenia, sem ao certo entender o que estava fazendo, Carlos assinou o tratado de Troyes (1420), que reconheceu o rei inglês o jovem Henrique VI, seu genro, como seu legítimo sucessor no trono e deserdou sua própria descendência. Morto em 1422, não se sabe ao certo de quê, pois passava todo o tempo trancado em seus aposentos entre delírios e alucinações, deixou a França com dois reis, seu filho legítimo Carlos VII, que não tinha o apoio da mãe (ela apoiava o genro, querendo usufruir o poder de duas coroas), mas era apoiado pela população, nobres e conselheiros, e Henrique VI, que ele reconheceu como rei. Após muitas batalhas, Carlos VII assume uma França totalmente fragmentada e falida. O rei Carlos VI utilizou, como recurso inconsciente, a doença mental para fugir de seus medos e inseguranças em assumir a coroa, governando plenamente por apenas dois anos; todo o restante do reinado estava primeiramente incapacitado, depois interditado.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 124

Adaptado do texto “De Bem-Amado a Louco”

*Anderson Zenidarci é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e palestrante. Coordenador e professor do curso de Especialização em Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.