Entrevista: Cristina Villaça explica como funciona uma terapia de casal

Para Cristina Villaça, especialista em terapia de casal, o profissional deve auxiliar, principalmente por meio de perguntas, para clarear as situações, focar nas questões, e não nas acusações mútuas, para diminuir os conflitos

*Por Lucas Vasques

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Casais têm problemas, é fato. Alguns, poucos; outros, nem tanto. Na verdade, o diálogo franco e desprovido de rancores é sempre uma boa alternativa para elucidar dúvidas e resolver questões que podem ameaçar a boa convivência entre os parceiros. No entanto, em determinadas situações, principalmente naquelas em que, aparentemente, ninguém enxerga uma saída, é necessário o auxílio de um profissional especializado. Mas nem sempre é fácil determinar qual o momento exato de se procurar uma terapia de casal.

Especialista no tema, Cristina Villaça afirma que é muito difícil definir especificamente quais os problemas que levam um casal à terapia. “Se enumerar questões mais comuns, fico na superficialidade e em generalizações, que ignoram o contexto e características absolutamente particulares de cada casal, de cada pessoa que forma esse casal. Ficando isso claro, posso falar de situações que envolvem uma rotina “pesada” e desigual, questões do ciclo vital (nascimento e educação dos filhos em diferentes idades, por exemplo), questões financeiras, sexuais, de projetos de vida divergentes, para citar alguns. Nada disso, porém, é fator único, mas aparece como motivo para pedir ajuda”, esclarece.

Cristina é especialista em terapia relacional sistêmica, em terapia de família, casal e individual, em terapia comunitária, no uso do desenho como recurso terapêutico, em mediação de relacionamentos e integração de equipes em empresas. Além disso, é a primeira secretária da Associação de Terapia de Família-RJ, gestão 2014-2016, integrante da Abratef (Associação Brasileira de Terapia de Família) e membro colaborador e da equipe de formação do Cefai – Centro de Estudos da Infância e Adolescência-RJ, membro colaborador do Instituto Noos-RJ e da Abratecom – Associação Brasileira de Terapia Comunitária.

Como, de fato, funciona a terapia de casal? De que forma o profissional investiga os problemas do casal? A conversa, necessariamente, é realizada com ambos ao mesmo tempo, um de cada vez ou apenas um dos parceiros?

Cristina Villaça: Como é comum em várias áreas do conhecimento e da prática profissional, existem múltiplas possibilidades de compreensão e atuação no exercício da profissão. A minha especialização é em terapia relacional sistêmica, que inclui família, casal e individual. A terapia de casal, dentro dessa visão, funciona como um lugar de acolhimento, de oferecimento de um ambiente protegido e cuidadoso, em que o casal pode desabafar, colocar suas questões e caminhar na construção de saídas para seus impasses, dificuldades e sofrimentos. O terapeuta é um facilitador dessas conversas, usualmente bem difíceis, que colabora com seu conhecimento e experiência, principalmente através de perguntas, para clarear as situações, focar nas questões, e não nas acusações mútuas, para diminuir o conflito aproximando o diálogo construtivo, colaborando para que o casal saia do circuito fechado dos problemas e caminhe para suas soluções. A terapia acontece com o casal, mas quando há enorme conflito ou algumas necessidades pontuais, cada um dos parceiros pode ser atendido individualmente.

Todos os casais colecionam conflitos, de várias espécies. No entanto, alguns casos são tão intensos que é necessário o auxílio profissional, na tentativa de encontrar uma saída para os problemas do relacionamento. Em sua observação, quando um casal precisa de terapia? Em que momento chega-se a essa conclusão?

Cristina: Pensando de forma preventiva, seria interessante que o casal procurasse ajuda quando identificasse divergências importantes e repetitivas, sobre as quais não consegue chegar a bons acordos, o que é comum, por exemplo, com a educação de filhos. Porém, a predominância é pela procura profissional, quando há, depois de várias e desgastantes tentativas, com conflito já deflagrado, com adoecimentos e aparecimento de graves sintomas em um dos parceiros ou nos filhos. Acredito que temos ainda muitas dificuldades culturais e sociais para o reconhecimento e procura desse tipo de terapia, sendo mais constante a ida de um ou outro para uma terapia individual, quando vão, ou o encaminhamento de filhos para tratamento. Isso em termos de classe média para cima. Os casais de mais baixa renda e nível de formação, embora reconheçam e procurem por ajuda, têm quase nenhum acesso a esse tipo de terapia, a terapia alguma, principalmente se moram nas periferias. Quando chegam a ser atendidos, os que tive contato e atendi, aderem com empenho e persistência ao processo terapêutico, o que nos deixa a todos, terapeuta e casal, muito gratificados.

Alguns especialistas afirmam que, frequentemente, os casais procuram a terapia de casal em último caso, depois de cerca de seis anos de brigas e discussões, em média, o que pode ser tarde demais. Essa informação procede e como essa situação pode ser evitada?

Cristina: Parte dessa resposta está acima, no que seria uma procura preventiva, antes dos profundos e desgastantes conflitos e estresses. Não acredito em tempo determinado – alguns conflitos se instalam rapidamente e podem ser tão devastadores quanto os que se arrastam por anos a fio. O conceito de tarde demais também é relativo.

Em sua opinião, a terapia de casal deveria ser a primeira opção para resolver os conflitos, evitando o desgaste desnecessário da relação?

Cristina: Penso que não. A primeira opção é o casal desenvolver seus próprios recursos, além de somar com seus recursos individuais, e conseguir lidar da melhor forma com suas situações-problemas. Caso sintam que algumas são muito difíceis ou delicadas, por exemplo, ou que várias se acumulam sem um encaminhamento satisfatório para os dois, ou um dos dois, aí sim a terapia entra como um terceiro útil para conversas construtivas, através dos recursos já existentes ou constituídos pelo próprio casal. A intenção é caminhar para a autonomia na solução dos impasses, e não na direção da dependência com o terapeuta.

Os resultados da terapia de casal dentro da relação podem ser diferentes se a terapia for sozinha (apenas um dos parceiros) ou com o companheiro?

Cristina: Acredito que sim. Transformações irão ocorrer, mas possivelmente de forma desbalanceada, com o parceiro em terapia evoluindo de forma diferenciada. Entretanto, acho melhor que um se trate do que nenhum.

O homem resiste mais à terapia familiar ou isso é mito?

Cristina: Só posso falar a partir da minha visão e experiência, o que é restrito, claro. Não sei dizer de pesquisas mais amplas e atuais. Vejo que as mulheres procuram mais serviços de saúde em geral, o que inclui saúde mental e emocional. Vejo também que isso está mudando e há cada vez mais homens tomando a iniciativa dessa procura. Interessante que tenho notado uma forte procura masculina através da internet, que tem me levado a refletir sobre meios mais confortáveis, digamos assim, dos homens se aproximarem. Mas são apenas minhas impressões. Depois que o casal entra em terapia, não vejo tanta diferença de gênero nessa “resistência”.

Você acredita que os conflitos entre os casais, apesar de sempre terem existido, passaram a ser mais claros e discutidos na medida em que a mulher vem conquistando seu espaço na sociedade, em relação ao trabalho, ao sexo e a defender e respeitar seus próprios desejos?

Cristina: Isso parece claro: numa sociedade machista e patriarcal, ou em qualquer contexto em que há opressão, os conflitos ficam “engolidos” pelo desnível de poder, de acesso à discussão de ideias e a canais de ajuda, por exemplo. O avanço dos espaços conquistados pelas mulheres e outros grupos, como LGBTs, ou minorias de várias naturezas, tem permitido, sim, uma troca mais clara de pensamentos e emoções, o que pode levar a debates e conflitos.

A terapia do “casal” pode ser aconselhável fora do contexto da relação amorosa? Por exemplo, uma terapia conjunta (pai e mãe), no caso de divórcio, para que os pais possam lidar com a separação e não afetar os filhos. Fazer esse tratamento juntos pode ser mais efetivo do que separadamente, já que os filhos são um assunto comum e ambos precisam “falar a mesma língua” quando se fala em criação?

Cristina: Quando a conversa é entre pais e não mais casal, o nome adequado seria terapia parental. O casal não existe mais, dentro do conceito de que quando falamos em casal nos referimos ao conjugal. Esse diálogo é fundamental para o desenvolvimento saudável dos filhos e do bom exemplo de como, mesmo não sendo mais casal, a responsabilidade e o afeto parental devem prevalecer sobre quaisquer diferenças ou conflitos anteriores.

Existe certo preconceito em relação à terapia de casal? Ou seja, muitas pessoas ainda dizem que terapia de casal acaba “forçando a barra”, tentando prolongar uma relação que já chegou ao fim? O que acha dessa tese?

Cristina: Penso que ainda existe muito pré-conceito sobre terapia em geral, sobre procura de atendimentos de saúde mental, psicológica, emocional, mas numa curva descendente, cada vez menos. Já tive cliente que disse que estava em reunião e não na terapia, mas é pouco comum comigo. Curioso é que, diferentemente da pergunta, o que mais ouvi é que quem faz terapia de casal acaba se separando. Bom, vai acontecer o que o casal ou um dos parceiros decidir, porque não cabe ao terapeuta se posicionar a favor disso ou daquilo.

Percebemos também esse preconceito na relação homoafetiva. É comum casais homossexuais procurarem por essa terapia?

Cristina: Cada vez mais comum, mas ainda pouco, no universo que eu conheço, em relação aos casais héteros. E ainda há terapeutas que não atendem esse público, o que dificulta demais a procura.

Quais são os principais conflitos que levam um casal à terapia?

Cristina: Essa é uma resposta muito difícil. Se enumerar questões mais comuns, fico na superficialidade e em generalizações, que ignoram o contexto e características absolutamente particulares de cada casal, de cada pessoa que forma esse casal. Ficando isso claro, posso falar de situações que envolvem uma rotina “pesada” e desigual, questões do ciclo vital (nascimento e educação dos filhos em diferentes idades, por exemplo), questões financeiras, sexuais, de projeto de vida divergentes, para citar alguns. Nada disso, porém, é fator único, mas aparece como motivo para pedir ajuda.

A falta de comunicação pode ser apontada como o principal problema, que pode desencadear outras dificuldades na relação? Como fazer com que a comunicação volte a ser efetiva, se a relação está desgastada?

Cristina: Nem sempre há falta de comunicação, mas comunicações inadequadas, prejudiciais ao diálogo construtivo que se constitui de várias características como escuta atenta, linguagem respeitosa e não violenta, legitimação do que diz e sente a outra pessoa, tom de voz, escolha de momento e lugar para conversar, entre outras. Comunicar-se de forma positiva para o relacionamento é um de seus alicerces mais importantes e o terapeuta colabora muito para que isso aconteça.

A terapia deve ser restrita ao consultório ou podem ser programadas outras ações para serem desenvolvidas diariamente?

Cristina: O processo terapêutico e as mudanças esperadas acontecem na vida das pessoas fora do consultório. O atendimento é um tempo curtíssimo no dia a dia do casal. No entanto, na minha forma de trabalhar, não cabe programar, instruir formas de agir. Pensamos juntos sobre quais são atitudes que facilitam a boa convivência assim como as que dificultam.

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Discutir a relação, a hoje tão famosa DR, é uma maneira terapêutica de solucionar os problemas do casal ou não adianta e acaba, frequentemente, piorando a situação?

Cristina: Muito relativo isso. Dialogar, acredito, é sempre um ótimo e necessário caminho, mas não é o único. Discutir questões da vida do casal o tempo todo e de forma agressiva não ajuda. A atitude oposta, falta de diálogo, muito menos. Então, temos o famoso caminho do meio, o que-como-quando conversar, único e particular para cada casal e cada pessoa, que pode ser negociado ou aprendido na vida em comum.

Quando a insatisfação reside apenas em um dos parceiros e o outro está feliz com o relacionamento, mesmo assim é necessário procurar terapia? Nesse caso, os dois deverão ser alvo de análise do terapeuta ou somente quem está infeliz?

Cristina: A simples disparidade desse lugar de um feliz e outro infeliz já merece atenção cuidadosa e reflexões dos dois sobre como isso pôde acontecer. Como é possível que um dos parceiros se perceba feliz se o outro está se sentindo infeliz e vice-versa? Para o casal, na minha visão terapêutica, é mais adequada e produtiva a terapia conjunta, acompanhada da terapia individual de quem não está bem.

Existem pessoas que debatem sua vida amorosa com os amigos e não com o companheiro, e acabam, inclusive, agindo conforme os conselhos dos amigos. Essa prática pode ser perigosa?

Cristina: Amigos são preciosos, parte importante da nossa rede social e afetiva de vida, e participam, alguns, de nossa intimidade. Conversas são úteis e umas não substituem outras. O casal – e cada um dos dois – precisa conversar entre si e ter seus próprios critérios do que lhes é útil, tem significado ou não, em relação ao que ouviram de outras pessoas. Acho que isso é válido para cada um de nós.

A pessoa que não se sente satisfeita no relacionamento e manifesta o desejo de fazer terapia, mas o parceiro não quer, deve insistir ou esse não é o melhor caminho?

Cristina: É bastante comum, na minha experiência, que uma das pessoas do casal queira mais a terapia
do que o outro, ou até queira sozinha. Falando por alto, vale insistir numa boa, sem brigar por isso, para que a terapia de casal possa acontecer, se não será terapia individual.

A conclusão de um processo de terapia de casal pode ser que o melhor a fazer é se separar ou o objetivo é sempre buscar a reconciliação?

Cristina: A meu ver não há objetivo, principalmente por parte do terapeuta, mas, sim, a procura pelo caminho do diálogo que leve o casal a conduzir sua vida, e a de cada um, da melhor maneira para eles, dentro de suas características e contextos de vida.

Alguns casais, ou boa parte deles, acreditam que o terapeuta vai salvar o casamento. Na realidade, qual o papel do profissional nesses casos? Até que ponto ele pode interferir na relação a dois?

Cristina: Não vejo o terapeuta no lugar de quem ativamente interfere, conduz, instrui, intervém diretamente na vida do casal. O terapeuta participa da conversa e, eventualmente, oferece hipóteses, possibilidades de atuação, por exemplo, juntamente com as colocadas pelo próprio casal, que sabe (mesmo que não reconheça) o que é melhor para si. O terapeuta, como me vejo, é um facilitador do diálogo do casal, quem ajuda a construir um ambiente respeitoso, cuidadoso, positivo, onde as conversas possam acontecer de forma diferente do que tem sido entre eles.

Um relacionamento longo tende a apresentar mais problemas pelo desgaste natural ou, pelo contrário, o convívio aumenta o conhecimento em relação ao parceiro, o que diminui a chance de ocorrerem dificuldades?

Cristina: Isto é extremamente variável, já que depende de como o casal estruturou e conduziu sua vida
juntos, de como duas pessoas diferentes conseguiram lidar com suas diferenças e caminharem juntas em seus projetos comuns e individuais, para citar um dos aspectos presentes na vida a dois.

Existem diferentes abordagens em terapia de casal ou deve-se usar apenas um formato de tratamento?

Cristina: A terapia de casal é uma especialização. Existem várias abordagens e também as particularidades trazidas por formações anteriores e características pessoais de cada terapeuta. Se o casal ou o terapeuta estão insatisfeitos com o processo terapêutico, há, sim, outras possibilidades de procura para o atendimento.

O que é a terapia relacional sistêmica e em que situações é indicada?

Cristina: Vou tentar ser breve numa questão bem ampla. A terapia relacional sistêmica coloca maior foco nas relações, no que acontece entre a(s) pessoa(s), as outras pessoas e ambientes de sua vida, considerando o contexto a sua volta, seus recursos e os recursos disponíveis para o enfrentamento das situações trazidas na terapia. É uma atuação baseada no diálogo, na construção de significados através das conversas conjuntas, em perguntas e reflexões, na legitimação do saber, da competência, das particularidades de cada pessoa e/ou situação, entre outros princípios orientadores. Engaja o cliente na busca do melhor caminho para lidar com seus problemas, deslocando o terapeuta do lugar de quem sabe “mais” para o de quem sabe “com”. Não creio que haja uma indicação específica – estamos prontos para acolher e acompanhar pessoas em sofrimento e/ou em movimento de busca de uma vida mais feliz.