Entenda os perigos de enviar nudes

Os modelos de expressão da sexualidade sofreram alterações significativas ao longo das últimas décadas, principalmente no que se refere ao conceito de “explícito”

Por Igor Lins Lemos* | Foto: 123 Ref | Adaptação web Caroline Svitras

Tempos atrás seria impensável termos revistas, websites, filmes, livros e debates acalorados sobre sexo e suas vertentes. Essa é uma conquista de muitos anos de lutas, dores e de diversas causas, desde a igualdade entre homens e mulheres até a libertação sexual. Porém, como todas as mudanças, essa também está inserida, no século XXI, no campo da tecnologia e, como esperado, algumas características negativas surgiram.

 

Um tema que passou a ter maior visibilidade na ciberpsicologia, que relaciona a sexualidade negativamente ao uso de aparelhos eletrônicos, é o chamado revenge porn, que pode ser compreendido como o ato de utilizar fotos íntimas como um recurso para realizar chantagens ou punições, com o conhecimento ou não do outro. Um exemplo comum é um relacionamento entre jovens em que, após a ruptura, o parceiro ou parceira ameaça divulgar fotos eróticas do outro na internet caso a relação de fato seja finalizada. Esse tipo de comportamento está atrelado a diversos danos emocionais a quem sofre essa retaliação, desde sintomatologia condizente com transtorno depressivo maior até casos de suicídio. Dessa forma, de maneira diretiva, comento alguns tópicos que podem ajudar no cuidado para que esse tipo de experiência não ocorra com você, leitor(a), ou com pacientes que narram essa demanda.

 

O primeiro ponto: verifique seus pensamentos de permissão. Comumente os pacientes mencionam que enviar fotos íntimas para o(a) parceiro(a) não irá gerar consequências, o que é um engano em vários casos. Na verdade, existem diversos tipos de problemáticas relacionadas a esse comportamento, como o risco de invasão de hackers que possam utilizar essas fotos para fins negativos, assaltos (permitir ao infrator ter acesso ao banco de dados do celular), enviar de forma incorreta fotos para grupos de Whatsapp (casos de vídeos e fotos que caem em grupos da família desse aplicativo não são raros) e, por fim, o revenge porn. Os pensamentos de ponderação plausíveis seriam: “isso também pode acontecer comigo”,“não é seguro enviar fotos, mesmo em aplicativos em que as fotos são dissolvidas após alguns segundos” (ex.: Snap), “a intimidade do casal pode ser preservada de outras formas” e “enviar fotos eróticas não é necessariamente prova de amor”. Esse último é um relato constante em consultório, principalmente das mulheres. Em vários momentos ouço que é prova de amor enviar esse tipo de fotos para o parceiro. Outras mencionam que se sentiam pressionadas a isso. Por fim, já me foi narrado um evento em que a paciente necessitou enviar fotos íntimas para o parceiro, quando este estava viajando, para que ele não a traísse.

 

Segundo tópico é a objetificação: ainda existe uma cultura (doentia) predominante de que as mulheres são vistas como objeto e o envio de fotos permite que diversos parceiros(as) as utilizem como troféus, mostrando-as para terceiros (esses relatos costumam ser feitos por pacientes do sexo masculino). Combatendo esse ponto, perspectivas do campo da Psicologia demonstram que enviar fotos íntimas pode estar relacionado a diversos problemas psicológicos, dentre eles prejuízos significativos na autoestima, dificuldades sexuais, transtorno depressivo maior e transtornos de ansiedade. Um tópico secundário à objetificação é o julgamento: a mulher comumente é relatada como a culpada. Em relação a esse terceiro aspecto, é verificado que, infelizmente, ainda existe um abismo para que esse tipo de avaliação machista seja modificado, porém, em diversos veículos de comunicação e nos relatos de pacientes em consultório, existe uma sincronia nessa informação: a mulher foi quem errou em enviar as fotos, o homem não.

 

Aspectos legais: um site intitulado endrevengeporn.org tem como proposta gerar campanhas para a criminalização do revenge porn, que é considerado um tipo de abuso sexual. No campo da legislação ainda existem lacunas sobre a punição de quem tem esse tipo de conduta, as leis banindo essa prática ainda estão sendo discutidas, e os fatores que contribuem são diversos, desde a dificuldade de compreender o assunto como a minimização dos danos do revenge porn. Apesar de ser um tema ainda emergente, mas que, como dito, já entrou no campo da discussão da Psicologia, é inegável verificar os inúmeros impactos que ele traz à vítima. A principal estratégia, até então, é a prevenção. As atuais configurações nos relacionamentos, a ascensão da cibercultura e a liberação da sexualidade são realidades, porém toda essa alteração social deve e pode ser vivenciada com poucos riscos à integridade emocional dos envolvidos. Como psicoterapeuta, meu posicionamento é de não estimular o envio de fotos íntimas, mesmo que estejamos suscetíveis a isso.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 131

Adaptado do texto “Vingança e pornografia on-line”

*Igor Lins Lemos é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com