Entenda o transtorno de personalidade de Marilyn Monroe

Marilyn sofria com sentimentos sufocados e da autoestima reduzida à sensação de não merecimento, gerada pelas desvalorizações sucessivas que viveu

Por Anderson Zenidarci* | Fotos: Wikipedia | Adaptação web Caroline Svitras

Que imagem Norma Jeane Mortenson via ao se olhar no espelho, quando era uma estrela de cinema mundialmente famosa? Via a menina de 9 anos abandonada pela mãe? A menina que passou por orfanatos e inúmeras casas de adoção, sendo agredida e abusada sexualmente em algumas delas? Via a criança solitária, medrosa e desamparada que necessitava ser amada e aceita desesperadamente? Ou via Marilyn Monroe, um produto fabricado e cuja imagem era utilizada cruelmente pela indústria cinematográfica de Hollywood? Quem era Norma/Marylin? Sabemos que foi um dos grandes ícones de beleza e sensualidade registradas em filmes e na história do cinema. A loira ingênua, linda, burra e gostosa, que atraía milhares de espectadores às salas de cinemas, era lucro garantido para os estúdios cinematográficos. Mas o personagem Marilyn, com seu glamour, não conseguia abrandar as cicatrizes e dores da vida de Norma. Não se via bela como todos diziam e cultuavam, via-se feia, disforme. Sofria do transtorno dismórfico corporal, que é a falsa percepção de ser inadequado fisicamente.

 

Foi e é um enigma para quem estuda sua personalidade. As opiniões divergem em muitos aspectos, mas são unânimes em afirmar que era “confusa, insegura, carente, meiga, com gestual naturalmente gracioso e de um magnetismo que era difícil parar de olhar para ela, mesmo quando estava de pijama, lendo um livro, descalça sentada em uma cadeira do jardim”. Mas vamos tentar montar as peças disponíveis desse quebra-cabeça! Norma era uma criança frágil, linda e sem nenhuma estrutura familiar. Nunca conheceu o pai. A mãe trabalhava em um estúdio de cinema e também se prostituía, apresentava grave distúrbio psiquiátrico (esquizofrenia), potencializado pelo álcool até ser internada em um hospital psiquiátrico. Norma Jeane foi declarada estar sob a guarda do Estado e viveu em 11 lares adotivos ao longo de sua juventude. Quando não havia lar adotivo disponível, acabava no Orfanato Hollygrove em Los Angeles. Seu histórico nesses lares não foi fácil, em alguns foi maltratada, e em três deles, abusada sexualmente. Começou a gaguejar após o abuso que sofreu e isso voltava em momentos de estresse. Casou-se aos 16 anos com James Dougherty, de 21 anos, como solução para sair do orfanato, mas divorciou-se quatro anos depois. Antes de se tornar famosa, com o nome de Mona, trabalhou como stripper em uma casa burlesca em Los Angeles, prostituindo-se.

 

Em 1949, após passar meses desempregada, topou posar nua por pouco dinheiro. Mas, quatro anos depois, já famosa, essas fotos, valendo uma fortuna, foram capa da revista Playboy. Fez seu primeiro papel de destaque em 1951, no filme O Segredo das Viúvas. No ano seguinte, participou de O Inventor da Mocidade. Seu nome começou a atrair multidões aos cinemas. Foi assim em Como Agarrar um Milionário, Os Homens Preferem as Loiras (ambos em 1953), O Pecado Mora ao Lado (1955) e Quanto Mais Quente Melhor (1959), considerada “a melhor comédia de todos os tempos”. Marilyn foi casada com o megafamoso jogador de beisebol Joe DiMaggio (de janeiro a outubro de 1954), que, ciumento, a agredia fisicamente e não aguentou ser coadjuvante na vida da esposa, já que a exposição e o assédio da imprensa e fãs sobre ela eram intensos e diários. Também se casou com o dramaturgo e intelectual Arthur Miller (1956 a 1961), que nos últimos tempos de casada a rejeitava publicamente. Após sofrer um aborto espontâneo, os dois se separaram. Ela entra em depressão grave. No mesmo ano fez seu último filme, Os Desajustados. E, por ironia, apresenta desajustes de comportamento e conduta que desagradam toda a equipe técnica e elenco, como atrasos, chegar alcoolizada (ou sedada por barbitúricos) nas gravações e não decorar suas falas. Sua vida afetiva era o retrato de sua autoimagem, isto é, um desastre. Viveu muitos romances com amantes solteiros e casados, entre eles o presidente dos EUA, John F. Kennedy (cujo Parabéns a Você, cantado por ela em uma festa oficial no dia do aniversário dele, é um ícone de sensualidade).

 

As evidências apontam para o fato de que ela era uma criança abusada, cuja sexualização precoce levou a um comportamento inadequado quando adulta. Confundia ser desejada com ser amada, daí a necessidade de ser sensualizada. Queria seduzir para sentir-se amada. Esse ciclo compulsivo só a fazia retroalimentar sua carência. Marilyn tinha pouca ou nenhuma liberdade pessoal, não tinha nenhum contato com sua família, foi isolada para ser controlada ainda mais e evitar que pessoas “reais” a ajudassem a perceber que estava sendo manipulada. Era um produto para seus criadores, não uma pessoa. As únicas pessoas com quem ela tinha contato eram os “psicólogos”, que na realidade usavam inadequadamente técnicas comportamentais (com a justificativa do seu transtorno de personalidade borderline), seus produtores e sua diretora pessoal de interpretação. Todos comprometidos com o produto, não com a pessoa. Também esteve constantemente sob alta vigilância do FBI e da CIA por seus casos amorosos com o presidente Kennedy (e seu irmão, senador) e com o chefe da máfia Italiana, Sam Giancana, entre outros poderosos. Marilyn foi encontrada morta em seu quarto, aos 36 anos, por overdose de barbitúricos, em 1962. Existem várias teorias sobre sua morte, todas contestando o laudo inconclusivo de “possível suicídio”. Será que um dia saberemos o que realmente aconteceu? A única coisa que podemos afirmar é que ela foi escolhida, em 1999, a Mulher Mais Sexy do Século pela People Magazine.

 

Revista Psique Ed. 128

Adaptado do texto “As faces de Norma, Mona e Marilyn”

*Anderson Zenidarci é mestre em Psicologia pela PUC-SP, supervisor e palestrante. Coordenador e professor do curso de Especialização em Transtornos e Patologias Psíquicas pela Facis, professor de pós-graduação no curso de Psicologia de Saúde Hospitalar na PUC-SP. Atua há mais de 30 anos em atendimento clínico em diversos segmentos da Psicologia, com especial dedicação à psicossomática, transtornos e patologias psíquicas.