Entenda como a sífilis pode causar transtornos mentais graves

O caminho da sífilis pode chegar no sistema nervoso dos infectados e acarretar transtornos mentais graves como a demência. Entenda!

*Por Guido Arturo Palomba

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Ninguém ignora que a sífilis voltou no Brasil e está fazendo estrago. Com efeito, desde que surgiu pela primeira vez, o Treponema pallidum gosta de viver da orgia e da imundice, dado seu nome: sis, “porco”, philein, “amar” (amor imundo). E graças aos homens e às mulheres frequentadores dos arraiais esconsos da prostituição, das pocilgas nojentas e das cracolândias que os micróbios se perpetuam. Nesses lugares há excelentes condições para estes se multiplicarem nos corpos dos pobres coitados que aí habitam e se entregam a toda sorte de prazeres imediatos, sem qualquer proteção ou senso de responsabilidade. Mas a sífilis também se alevanta nos meios sociais elegantes, porque aqueles mundos rebaixados nos quais vive a moléstia são igualmente frequentados por figurões degenerados e decaídos, que lá vão dar vazão às inconfessáveis lascívias e, consequentemente, servirem de veículo do espiroqueta pálido. Assim, o micróbio invencível vai se proliferando em todos os meios sociais, a fazer as fases da moléstia, que termina o seu caminho no sistema nervoso dos infectados.

E quando chega à última fase, denominada sífilis terciária (neurolues), o psiquismo fica tão arruinado, a produzir tantas e tão variadas e amplas e polimorfas manifestações mentais, que os luéticos sempre foram mostrados pelos professores de Psiquiatria com o propósito de ensinar aos alunos diversos transtornos mentais diferentes, uma vez que as psicopatologias são multiformes,a imitar entidades nosológicas distintas, obrigando a realização do diagnóstico diferencial. Convém lembrar que se o doente não receber tratamento adequado, termina na mais horrenda demência, simples ou eufórica. A propósito, as grávidas infectadas também transmitem congenitamente a doença aos filhos.

A sífilis hoje está disseminada no Brasil, porém encontrava-se sob controle desde a década de 1980. Com medo da Aids, as pessoas se protegeram usando camisinha e, por consequência, os casos registrados de sífilis diminuíram significativamente. Porém, o controle do vírus HIV melhorou e, assim, arrefeceram o medo e o uso do preservativo.

A medida a ser tomada todos sabemos: uso da velha penicilina nos contaminados e camisinha para todos.

É mais um grande desafio para o país, e todos devemos somar esforços para combater essa milenar doença, por meio do diagnóstico precoce e da orientação ao paciente e à família quanto ao tratamento.

Referências:

Guia de bolso para manejo da sífilis em gestantes e sífilis congênita. Jornal do Cremesp on-line, órgão oficial do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, acesso em: mai. 2016. <http://www.saude.sp.gov.br/ resources/crt/publicacoes/outras-publicacoes/ guia_de_bolso_da_sifilis_-_2_edicao_2016. pdf?attach=true>VALLERAND, R. J.; BLANCHARD, C.; MAGEU, G. et al. Les passions de l’ame: on obsessive and harmonious passion. Journal of Personality and Social Psychology, v. 85, n. 4, 2003.

*Guido Arturo Palomba é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo.

Revista Psique Ed. 127