Entenda a diferença entre sentir empatia e ter compaixão

Não é difícil imaginar que a empatia com aqueles que são de nosso grupo pode mover a crueldade e até o genocídio com aqueles que são de outro grupo

Por Marco Callegaro* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Em 2006, em uma fala muito citada, o então senador Barack Obama afirmou que temos um déficit em empatia, reivindicando um senso de empatia para inspirar a política e a sociedade. Segundo esse movimento, quanto mais empatia, melhor será o mundo, e o foco é promover intervenções voltadas para aumentar a empatia em indivíduos e comunidades. Também existe preocupação com pessoas que têm falta de empatia e com situações que podem enfraquecê-la.

 

Embora seja um grande avanço considerar a importância da empatia, é necessário entender em mais detalhes a relação que existe entre comportamento moral e empatia, pois não é algo tão simples como parece. Considere as recentes pesquisas mostrando que a empatia pode mover a agressão. Se empatizamos com uma pessoa ou grupo, o comportamento agressivo frente a outras pessoas ou grupos por ser turbinado quando “tomamos as dores” dos outros. Ao influenciar nossas emoções, a experiência empática pode nos levar a vieses morais e comportamento cruel para aqueles que supostamente merecem ser punidos. Podemos ponderar também que a empatia pode acarretar exaustão emocional e estresse, e os profissionais que trabalham com sofrimento humano como médicos, psicólogos e enfermeiros frequentemente desenvolvem a síndrome de Burnout em seu trabalho devido à empatia.

 

Como existem várias definições de empatia, torna-se necessário um breve exame de seus principais significados. Uma das definições se refere à empatia cognitiva, a capacidade de imaginar o que se passa na mente do outro, a “teoria da mente” como se designa em Psicologia cognitiva. Esse tipo de empatia pode levar um psicopata a planejar suas manipulações e crueldades com grande eficácia, portanto não é exatamente aquilo que mais precisamos na sociedade. Outro sentido da palavra empatia é o que podemos chamar de empatia “afetiva”, quando sentimos o que a outra pessoa está sentindo, ou, pelo menos, aquilo que inferimos que a pessoa sente. Finalmente, temos um conceito de empatia que se funde com o significado de compaixão, ternura ou gentileza. Nesse caso, a empatia envolve sentimentos positivos frente aos outros. Nesse sentido, desejo que um amigo ansioso fique melhor e calmo, mas não me sinto ansioso junto com ele, como acontece na empatia afetiva. Reservarei o termo “compaixão” para descrever essa atitude, enquanto mantemos a designação de “empatia” para a ressonância emocional com o outro.

 

A empatia afetiva ou emocional está ligada à ativação dos circuitos cerebrais da dor na pessoa que empatiza com quem está sofrendo. Um experimento com neuroimagem examinou os circuitos cerebrais do córtex anterior cingulado, região que se ativa com a experiência de dor. Os participantes foram expostos a vídeos exibindo pessoas sofrendo com Aids, e verificou-se que sentiam mais empatia e apresentavam maior ativação no córtex cingulado anterior quando se descrevia que as pessoas tinham contraído a síndrome por meio de transfusão de sangue, bem mais do que quando a narrativa era de contágio pelo uso de injeções intravenosas com drogas.

 

A empatia está sujeita a vieses morais, como foi demonstrado no estudo europeu em que torcedores de um time de futebol recebiam um choque na mão e assistiam a outro homem receber o mesmo choque. Quando o outro homem era descrito como sendo do mesmo time, acontecia muito mais resposta neural empática de dor do que quando era do time concorrente. Não é difícil imaginar que a empatia com aqueles que são de nosso grupo pode mover a crueldade e até o genocídio com aqueles que são de outro grupo. Esse ponto tem importantes implicações no mundo atual, onde aumentam a migração e o número de refugiados, levando à necessidade de inclusão de grupos de estrangeiros na sociedade.

 

Direitos ou deveres humanos? 

 

Podemos pensar que a falta de empatia leva à agressão, e que se estimularmos a empatia reduziremos os problemas em um mundo violento. No entanto, uma análise dos estudos que relacionam agressão e falta de empatia descobriu que somente 1% da variação em agressividade poderia ser atribuída à falta de empatia. Resultado surpreendente, em um estudo que considerou agressão verbal, sexual e física, concluindo que outras emoções e fatores eram mais importantes. Outra pista vem dos autistas, que sabemos ter fortes déficits em empatia. Os portadores de síndrome de Asperger, uma espécie de autismo leve, não apresentam nenhuma propensão para agressão ou exploração, e são conhecidos por seguirem princípios morais rígidos.

 

A empatia envolve emoções, e estas podem nos desviar de julgamentos morais ponderados, levando a decisões imorais. Uma alternativa mais razoável para a empatia é a compaixão, que pode nos mover a fazer o bem e auxiliar as pessoas sem as desvantagens da empatia. Mesmo a compaixão não substitui a reflexão consciente e deliberada sobre os direitos e deveres envolvidos na situação, e a aplicação de uma escala de valores no julgamento moral, bem como princípios de moralidade. Não podemos delegar decisões morais que afetam a vida das pessoas unicamente aos sentimentos empáticos. Uma ponderação que use princípios morais pode ser mais justa e equilibrada como guia para nossas ações, ainda mais se endossada pela compaixão.

 

Revista Psique Ciência & Vida Ed. 133

Adaptado do texto “Empatia ou compaixão?”

*Marco Callegaro é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente: Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental (Artmed, 2011).